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Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Piquet e a sanha de vencer a todo custo

Nelson Piquet dirige Rolls-Royce com o presidente Jair Bolsonaro para cerimônia de hasteamento da bandeira em Brasília - FÁTIMA MEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO
Nelson Piquet dirige Rolls-Royce com o presidente Jair Bolsonaro para cerimônia de hasteamento da bandeira em Brasília Imagem: FÁTIMA MEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO
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Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

07/09/2021 19h31

Nelson Piquet foi um excepcional piloto por 14 temporadas na F-1 e assim é mais conhecido. Lutou contra carros ruins, enfrentou favorecimentos a companheiros de equipe, mostrou-se inventivo, arrojado, esperto, angariou simpatias, criou inimizades, agarrou as boas chances que teve. Tornou-se tricampeão mundial. Foi um pilotaço.

Mas foram 14 temporadas. Piquet tem 69 anos. Houve alguma vida antes e muita vida depois dessa passagem pela F-1.

Antes, a história é conhecida pelos torcedores. Nasceu no Rio de Janeiro e cresceu em meio à elite da pujante Brasília dos anos 60 e 70, filho de um médico que enveredou pela política, que foi deputado federal e que chegou a ministro da Saúde do governo João Goulart.

Pegava o carro dos pais escondido, tirava rachas pelo Plano Piloto, competia com a identidade secreta de "Piket". Era mais um playboy com as costas quentes a circular pela capital federal.

Quando resolveu seguir no automobilismo, precisou ralar, é verdade. Sujou as mãos de graxa, vivia enfurnado em oficinas de amigos, embarcou para a Europa com a cara, a coragem e o talento, que era muito. Deu certo. Ganhou a F-3 inglesa em 1978 e naquele mesmo ano estreou na F-1. Pelos 13 anos seguintes, esteve sempre nos holofotes.

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Piquet ao lado de Bolsonaro em inauguração de ponte em Rondônia, em maio
Imagem: Imagem: Transmissão

Depois da F-1 vieram as 500 Milhas de Indianápolis, houve alguns flertes com Le Mans e surgiu o Piquet ex-piloto. E então características que louvávamos passaram a ser enxergadas com mais atenção: a sanha de vencer a todo custo e um humor infantiloide.

Sobre o primeiro ponto, lembro bem de um caso com Nelsinho na F-3 Sul-Americana. Havia uma limitação para testes, como forma de nivelar o grid. Os Piquet ignoraram. Vestiram uma carcaça sobre o carro de F-3 e treinaram por circuitos Brasil afora, como se todos os outros pilotos fossem otários, como se ninguém fosse perceber.

O humor bobo ficou escancarado dezenas e dezenas de vezes. Como antes do GP da Áustria de 2015, quando a Red Bull promoveu um "desfile de lendas" da F-1. Na hora da foto oficial, Piquet resolveu dar uma patolada em Prost. Sim, aquele tipo de "brincadeira" que os meninos sem noção da quarta série faziam.

Na F-1 dos anos 80 e 90 achávamos esse tipo de coisa divertida, engenhosa. Achávamos graça das malcriações de Piquet contra a imprensa, das ilações homofóbicas e preconceituosas contra outros pilotos, das críticas ácidas e sem freio contra quem ele não gostava.

As vítimas eram os outros afinal. Ríamos. Mas os tempos mudaram.

O Piquet que dirigiu o Rolls-Royce presidencial neste 7 de Setembro não é mais o piloto genial. Este ficou lá no início dos anos 90.

É o Piquet empresário, que viaja para inaugurar ponte em Rondônia, que não perde a chance de repetir "globolixo" sempre que vê um microfone, que em entrevista à TV Brasil declara que "estou cagando para o que pensam de mim".

É o Piquet que vê no governo Bolsonaro um terreno fértil para o que mais gosta de fazer: exercer seu humor bobo e seguir tentando vencer a todo custo. A todo custo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL