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Fábio Seixas

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Hamilton vence GP, mas poderia ter sido um jogo de xadrez

F1: Hamilton questionou se faria parada que rendeu vitória na Espanha e agradece confiança da Mercedes - Divulgação
F1: Hamilton questionou se faria parada que rendeu vitória na Espanha e agradece confiança da Mercedes Imagem: Divulgação
Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

09/05/2021 11h36

Foi uma corrida de F-1. Mas também um confronto de ideias. Poderia ter sido um jogo de xadrez.

E, pela terceira vez em quatro etapas no ano, Hamilton e a Mercedes levaram a melhor.

O inglês venceu o GP da Espanha superando Verstappen a apenas seis voltas da bandeirada.

Foi a 98ª vitória de Hamilton na categoria, a terceira no ano, a sexta na Espanha, a quinta consecutiva no circuito de Barcelona.

"Foi difícil, mas fizemos uma aposta que deu certo. Tenho muita confiança na equipe", disse o inglês.

largada espa - REUTERS/Albert Gea - REUTERS/Albert Gea
Verstappen supera Hamilton na largada
Imagem: REUTERS/Albert Gea

A quarta etapa do Mundial começou com uma largada de almanaque. Segundo no grid, Verstappen aproveitou a longa reta de Barcelona, usou o vácuo, colocou o carro por dentro, endureceu na manobra e assumiu a liderança do GP.

Nas filas de trás a largada também foi agitada. Leclerc passou Bottas e assumiu a terceira posição. E Ricciardo pulou de sétimo para quinto.

A Mercedes iniciou então seu trabalho de recuperação. Enquanto Bottas pressionava Leclerc, surgindo em seu retrovisor a todo instante, Hamilton preferiu uma estratégia mais conservadora, apenas monitorando a diferença para o holandês.

Na nona volta, safety car na pista! O carro de Tsunoda apagou na curva 10. A turma lá do fundo aproveitou para passar pelos boxes para tentar estratégias diferentes: Russell, Schumacher, Mazepin, Latifi e Giovinazzi _o italiano sofreu com uma incrível trapalhada da Alfa Romeo, que não tinha os pneus prontos para sua parada.

A relargada veio na 11ª volta. Verstappen manteve a ponta, Hamilton seguiu apenas observando, acompanhando, esperando o momento de tentar o bote.

Não houve muito o que registrar nesse trecho da corrida, apenas um stop & go dado a Gasly por ter estacionado o carro fora dos colchetes no momento da largada.

Na 20ª volta, Verstappen tinha 1s2 para Hamilton. Leclerc vinha a 5s9 do líder, com Bottas em seu encalço. Completando o top 10, Ricciardo, Pérez, Ocon, Sainz, Norris e Stroll.

Bottas foi o primeiro piloto da ponta a passar pelos boxes, na 24ª volta, o que lhe valeu a terceira posição da corrida, superando Leclerc.

Então veio o momento crucial da prova. Verstappen entrou na 25ª volta, mas a Red Bull demorou para trocar o pneu traseiro esquerdo e ele ficou ali por 4s2.

Voltou à pista em quarto, contou com a camaradagem de Pérez, que saiu do caminho, e passou então a acelerar feito um louco para tentar manter-se na liderança depois que o inglês fizesse seu pit.

A grande chance de Hamilton seria parar imediatamente depois. Seus pneus macios estavam sofrendo muito em relação aos médios novos do rival. Mas, estranhamente, a Mercedes decidiu mantê-lo na pista.

Hamilton só parou quatro voltas depois do holandês. Seu pit foi bom, em 2s7. Mas não foi suficiente. Retornou à pista em segundo.

"Pegue o Verstappen", disse o engenheiro a Hamilton pelo rádio.

O heptacampeão obedeceu. Na 35ª volta encostou, deixando o rival à mercê do seu DRS. Na 36ª, ameaçou o bote, chegou a colocar o carro pro lado, recolheu. Sua tática passou a ser atazanar a vida do rival, ser a mosca na sopa de ervilha holandesa.

"É insano. Eles têm muito mais aderência", disse Verstappen, na 43ª volta.

Foi quando a Mercedes surpreendeu a todos e chamou Hamilton para uma nova parada. O inglês entrou imediatamente nos boxes e colocou um jogo usado de pneus médios para ir até a bandeirada.

Cartas na mesa, portanto. Ficou explicado o motivo de a Mercedes ter retardado o primeiro pit do inglês.

Hamilton e Verstappen estavam em estratégias bem diferentes.

O holandês iria até o final com apenas um pit e os pneus médios que colocou na 25ª volta. Hamilton, com duas paradas, a última delas na 43ª das 66 voltas do GP.

Um duelo de ideias. Qual prevaleceria? Só saberíamos nas voltas finais.

Na 53ª, Hamilton passou Bottas, que ensaiou endurecer na curva 10, para quase-pânico na Mercedes. O finlandês parece estar pedindo para levar o bilhete azul.

Na sequência, Bottas parou nos pits, devolvendo o terceiro lugar para Leclerc.

Enfim, Verstappen na ponta e Hamilton em segundo. Ficou no mano a mano. Mas não seria fácil. O holandês tinha 11 segundos na frente.

Com pneus mais novos, Hamilton passou a virar voltas muito mais rápidas e a se aproximar da Red Bull. A nova voltas para o fim, a diferença já havia caído para 4 segundos.

A Mercedes começou a se encher de otimismo. "Acho que vou ter mais pneu para o final da prova", disse Hamilton para o engenheiro.

Tinham razão para isso. Hamilton colou no holandês e fez a ultrapassagem sem dificuldades na 60ª das 66 voltas do GP da Espanha. Caminho aberto para a terceira vitória em quatro etapas no ano.

Com receio de perder até o segundo lugar, Verstappen colocou pneus novos na volta seguinte. E assim foi.

Na linha de chegada, Hamilton impôs 15s841, sobre o adversário, que pelo menos ficou com o consolo do ponto extra pela melhor volta da corrida, Bottas cruzou em terceiro.

"Grande estratégia, grande combinação, parabéns", disse Wolff, o chefe da Mercedes, pelo rádio.

Fechando o top 10, Leclerc, Pérez, Ricciardo, Sainz, Norris, Ocon e Gasly.

Hamilton agora abre 14 pontos sobre Verstappen no Mundial: 94 a 80. No Mundial de Construtores, a Mercedes tem 141 pontos, contra 112 da Red Bull.

"Ao longo da prova eu percebi que isso iria acontecer. Eu estava sofrendo com meus pneus. Tornei-me um alvo fácil", disse o holandês, após a prova. "Ficou claro que ainda não estamos onde gostaríamos."

Deve ser difícil dar o máximo, trabalhar duro e levar um nó como esse de hoje. Mas grandes vencedores são construídos na batalha.

Neste ano, mais maduro, Verstappen tem a sorte e o azar de lutar pelo título contra um monstro do automobilismo. Alguém não genial apenas no pé pesado, mas também no jogo cerebral.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL