PUBLICIDADE
Topo

Fábio Seixas

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Há 30 anos, Senna nos deu uma festa digna de Copa do Mundo

Ayrton Senna comemora a vitória no GP do Brasil de 1991, a sua primeira no autódromo de Interlagos - Paul-Henri Cahier/Getty Images
Ayrton Senna comemora a vitória no GP do Brasil de 1991, a sua primeira no autódromo de Interlagos Imagem: Paul-Henri Cahier/Getty Images
Fábio Seixas

Fábio Seixas é jornalista com mestrado em Administração Esportiva e passagens por veículos como Folha de S.Paulo, SporTV e TV Globo. Cobriu mais de 170 GPs de F-1, esteve em duas temporadas da Indy e chegou a pilotar um Benetton em Paul Ricard. Voltou para os boxes rebocado.

Colunista do UOL

24/03/2021 11h48

O carro parou ali, perto de onde eu estava, no fim do Setor G de Interlagos. Inacreditável. Os torcedores vibrávamos, em êxtase. Inacreditável.

Inacreditável, inacreditável. Finalmente estava acontecendo. Em sua oitava tentativa, Ayrton Senna finalmente vencia o GP Brasil. Era este o sentimento geral em Interlagos: difícil de acreditar. As arquibancadas explodiram de felicidade. Aos 16 anos, eu vivi ali a primeira grande celebração esportiva da minha vida. Inacreditável.

Não que Senna fosse um azarão. Pelo contrário. Desde 1985, seu primeiro ano na Lotus, ele sempre chegou à corrida de casa andando no pelotão da frente, com boas chances de vitória. Mas sempre, sempre acontecia algo errado.

Talvez o problema fosse Jacarepaguá. Talvez Prost fosse mesmo invencível por lá. Talvez fosse uma questão psicológica. Talvez o excesso de pressão atrapalhasse.

Fato é que nunca dava certo.

Em seis participações em Jacarepaguá, Senna só viu a bandeira quadriculada duas vezes: foi segundo em 1986 e 11º colocado em 1989. De resto, sempre havia uma pane de motor, um problema elétrico ou um câmbio quebrado para estragar a festa.

Quando a F-1 transferiu-se para São Paulo, em 1990, com Senna como grande avalista da mudança e dando pitacos no traçado, o inconsciente coletivo era de "agora vai".

Naquele primeiro ano, não foi. Pole position, líder absoluto da corrida, Senna estava tão confiante que achou que poderia passar pelo meio de um retardatário, Nakajima. Resultado: asa dianteira quebrada, visita extra aos boxes, terceiro lugar na prova. O vencedor? Prost.

Então veio 1991. Pole position pela 54ª vez na carreira, Senna encontrou um Interlagos completamente abarrotado naquele domingo. Aquela turma do Setor G tinha dormido na fila, muita gente havia chegado na sexta-feira e estava por lá desde então, acampada na avenida do Jangadeiro e não exatamente consumindo chá de boldo.

Senna manteve a liderança na largada. A grande ameaça era Mansell, com um Williams de outro mundo, um carro muito melhor. Mas o inglês viveu um dia de cão: um pit stop extremamente lento, um pneu furado e, por fim, uma quebra de câmbio que o fez rodar e abandonar o GP na 59ª das 71 voltas.

Interlagos explodiu pela primeira vez naquele domingo ao ver Mansell parando. Patrese assumiu o segundo posto, mas não era exatamente uma ameaça. A vitória de Senna parecia garantida, Interlagos começou a festejar.

Mas algo estava errado. Volta após volta, a vantagem do brasileiro para o italiano começou a despencar. Era de eternos 40 segundos quando Mansell rodou. Nas voltas finais, Patrese já tinha Senna em sua alça de mira.

A segunda, e talvez maior explosão que Interlagos viveu em seus 81 anos de história, veio quando Senna cruzou a linha de chegada. Sua vantagem na bandeirada foi de apenas 2s991.

O que ninguém esperava era que ele estacionasse ali no fim da Reta Oposta, em frente ao setor onde eu estava. Em princípio, imaginamos que tivesse sido proposital, com a intenção de festejar com a torcida. Não por coincidência, torcedores abriram vãos no alambrado e invadiram a pista para comemorar com o ídolo. Foi apoteótico. Era, repito, inacreditável.

Vivíamos outros tempos. Não havia internet. Só horas depois, já em casa, fomos entender o que havia acontecido: a perda progressiva de marchas, o esforço físico absurdo para levar aquele McLaren ao fim, todo o contorcionismo para sair do carro e, depois, para erguer o troféu da vitória.

Na saída do autódromo, lembro da felicidade que tomava conta dos arredores. Buzinaço, bandeiras, gente festejando nas ruas. Para quem nunca havia vivido uma conquista de Copa do Mundo, aquilo era bem próximo das histórias que ouvia do meu pai.

Naquele domingo, aquela foi nossa Copa do Mundo.

Há 30 anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL