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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Perspectiva 2022: Eu me levanto!

Que 2022 traga avanço e êxito reais de uma nação que joga, corre e luta! - br-photo/Getty Images
Que 2022 traga avanço e êxito reais de uma nação que joga, corre e luta! Imagem: br-photo/Getty Images
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

31/12/2021 13h40

"Você pode me inscrever na história
Com as mentiras amargas que contar,
Você pode me arrastar no pó
Mas ainda assim, como o pó, eu vou me levantar"
(Maya Angelou)

Nada aponta para que o título deste texto seja realidade, pelo contrário. Tudo indica que será um ano de brigas intensas pela retomada de um caminho democrático interrompido de forma tão legítima quanto cruel: pelo voto. Como as palavras têm força de realização, conjuramos um ano que nos traga não a ilusão da vitória, mas o avanço e o êxito reais de uma nação que joga, corre, nada e - meu Deus! - luta. E como luta!

Eu disse acima "um caminho interrompido de forma tão legítima quanto cruel". Sim, pois é preciso encarar o fato terrível de que parte significativa da nação brasileira desejou um projeto de nação aniquilador de direitos, garantias e talentos individuais. Um projeto vencedor de forma legítima, nas urnas, mas que nos empurra quase para um ponto de não retorno ambiental, social, econômico.

Quase... um quase que só não é completado porque esbarra na enorme habilidade que o Brasil possuir para o drible de corpo. O drible, esta ginga nascida da necessidade de esquivar-se dos oponentes, é o que pode nos salvar de nós mesmos. Reconhecer e utilizar de forma inteligente esta espécie de super poder, este gesto ofensivo importante que permite seguir adiante com a posse de bola, apesar da marcação contrária.

O que nos impede de concretizar o gol? Elites que trabalham pela continuidade de privilégios perversos; governos que trabalham no auxílio de perpetuação do caos de muitos em favor da paz de poucos, pouquíssimos; setores inteiros que fazem parte do grupo dos muitos, que acham que são os poucos escolhidos, mas que sofrem as mesmas mazelas da esmagadora maioria.

Na prática, tudo o que acontece no jogo injusto brasileiro não favorece aos verdadeiros atletas e a quem gostaria de um dia ser um ou uma atleta. Não favorece à inclusão por intermédio do esporte e gera (ainda mais) sofrimento.

No entanto, olhando em retrospectiva, 2021 trouxe um grupo de atletas engajados em tirar do papel várias iniciativas. Foram em grupo ao centro do poder para reivindicar. O ano que se vai oxigenou com modalidades tidas como marginais em passado recentíssimo aumentando nosso quadro de conquistas olímpicas.

Realmente um ano de quebra de paradigmas, com atletas na casa dos 30, 40 anos conquistando títulos mundiais. Um período que trouxe regras mais inclusivas para atletas trans, mostrou mulheres poderosas provando que seus lugares são onde desejarem estar.

No ano velho tivemos a sempre enorme briga contra o racismo no esporte como reflexo do racismo na nossa sociedade. Uma mazela muito difícil de extirpar, mas que encontra cada vez mais gente disposta a encarar esta monstruosidade de frente. A perspectiva é que 2022 nos encontre aqui, de pé, pois como dizia a poeta Maya Angelou no famoso poema "Still I Rise" (Ainda me Levanto): "(...) Acima de um passado que está enraizado na dor / eu me levanto!"