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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Novembro negro: Fio Maravilha, nós gostamos de você?

Fio Maravilha conversa com Zico durante visita ao Flamengo - Vinicius Castro/UOL
Fio Maravilha conversa com Zico durante visita ao Flamengo Imagem: Vinicius Castro/UOL
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

04/11/2021 04h00

O jogador do Flamengo que inspirou Jorge Benjor numa das canções mais cantadas quando o assunto é futebol, guarda em sua história vestígios de tudo o que profundamente nos marca.

Chegamos a mais um mês de novembro e, a exemplo do que fiz em 2020, lanço o foco em aspectos da história negra no esporte. Ultrapassemos a discussão eterna e infrutífera sobre a validade ou não do mês da consciência negra, pois quem chegou até 2021 achando desnecessário este debate depois de tudo o que já aconteceu neste país e no mundo... bem, sigamos.

"Fio Maravilha! Nós gostamos de você!". O refrão imaginado por Jorge Benjor depois do gol marcado pelo então jogador do Flamengo João Batista de Sales, o Fio, contra o Benfica, seria imortalizado na música que venceu o Festival da Canção de 1972. Foi o dia em ele "tabelou, driblou dois zagueiros, deu um toque, driblou o goleiro". A música também ficaria debaixo do holofote de uma briga judicial, pois alegando não ter autorizado o uso de seu nome, Fio moveu um processo contra Jorge, perdeu e anos depois pediu desculpas, afirmando que não desejava que a questão tivesse ido tão longe.

Para evitar mais problemas, Benjor mudou a letra da música para "Filho Maravilha" e, sem querer, acabou falando da mesma pessoa, pois no início da história deste jogador que nasceu em 1945, na cidade mineira de Conselheiro Pena, o próprio apelido dá uma boa tese para estudo. Segundo contam, ele passou a ser chamado "Fio" por conta da torcida de sua mãe, que ao incentivá-lo nos treinos gritava "Vai, meu fio!".

A filósofa e antropóloga Lélia Gonzalez, em um estudo histórico, nos conta sobre o português que falamos. Na verdade, o Brasil fala o "pretuguês", ou seja, o português marcado pelas características de idiomas africanos que nos formaram. Línguas onde não existe, por exemplo, a pronúncia o "l", logo, o filho vira fio. O apelido de João é, ironicamente, uma homenagem à negritude.

Fio fez fama no Flamengo por alguma habilidade e também pela falta dela - perdia gols praticamente feitos; e pelo bom humor. No entanto, sua arcada dentária com os caninos proeminentes o fizeram alvo de muitos apelidos nada honrosos e do deboche nacional. Fio Maravilha foi um personagem do esporte brasileiro bem ao gosto do racismo recreativo. Finda sua carreira nos campos brasileiros, ele partiu para os Estados Unidos e depois de breves passagens por alguns clubes, passou a entregar pizzas para sobreviver.

Segundo o próprio Fio Maravilha, ele não queria toda a confusão do processo contra Jorge Benjor. Foi seguindo a orientações de um advogado que o procurou. Não é difícil de acreditar nisto, pois o fim de carreira nada glamouroso do jogador é muito semelhante ao de muitos atletas negros, que após sua vida útil no esporte, são abandonados pelo grande mundo do entretenimento ao qual o futebol pertence. São as histórias de muitos "Fios" as que tecem a teia deste enredo de apogeu e queda no mundo da bola. Desta forma, cabe colocar um ponto de interrogação ao final do refrão da música: "Fio Maravilha, nós gostamos de você?"

João Batista "Fio Maravilha" de Sales foi um atleta que teve seu tempo, fez a alegria de uma torcida e, de certa forma, teve sua humanidade devolvida longe dos estigmas. Anos depois pediu desculpas a Jorge Benjor que, obviamente, aceitou e a vida seguiu. Apesar da história bem diferente dos contos de fadas de superação que as páginas esportivas gostam de consagrar, a resposta a pergunta do último parágrafo é: Sim, Fio, nós gostamos de você.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL