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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Clarissa e uma reflexão sobre a infância negra: "É hora de falar"

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Imagem: iStock
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

09/10/2021 04h00

O final de semana inicia o feriadão de 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, e Dia das Crianças. A escola, instituição básica na vida de qualquer criança, não é um ambiente feliz para grande parte delas. Quem faz uma reflexão séria sobre isso é a jogadora de basquete Clarissa dos Santos. Bonita, atuando na Europa, titular e um dos grandes talentos da seleção brasileira, ela teria tudo para seguir sua vida sem "polêmicas", mas...

"A gente não está só na "caixa atleta". Somos indivíduos. Temos vários papéis na sociedade e somos também cidadãos e cidadãs. Não dá para viver sem falar, sem se colocar nas coisas sérias e que precisam de nós. Nem sou de falar muito, mas não dá mais para não bater nessa tecla", disse Clarissa.

Clarissa comemora ponto marcado no jogo contra o Japão, pelo Mundial de basquete  - Divulgação/Fiba - Divulgação/Fiba
Clarissa no Mundial de basquete de 2014
Imagem: Divulgação/Fiba

No entanto, de que tecla ela está falando? A de sempre para uma pessoa que, a despeito da descrição no início, é mulher e uma mulher negra. O gatilho que disparou a vontade de Clarissa falar mais longamente foi acionado com o caso ocorrido com a sobrinha da também jogadora, sua amiga de esporte e de vida, Gilmara Justino. O caso foi parar nos jornais da cidade de Piracicaba, pois a menina de apenas oito anos, está em profundo sofrimento.

"Faxineira preta fedida", "Cor de barro", "Cabelo feio"... As ofensas chegaram acompanhadas de exclusão, isolamento e solidão. A escalada de violência racial diária vinda de todos os colegas da turma em que estuda na escola Sesi, do bairro Vila Industrial, fez com que o pai fosse seguidamente à escola em busca de diálogo com a direção para que tomassem uma atitude. Diante da imobilidade dos dirigentes da instituição e do perigo de adoecimento psicológico da filha, o pai da criança procurou a Polícia Civil do município para registrar um Boletim de Ocorrência.

"É muito cruel a indiferença geral. Dentro de jogo já escutei ofensas vindas da arquibancada. A gente é muito mais questionada, tem que fazer o dobro, o triplo para alcançar reconhecimento" - afirmou Clarissa, enfileirando uma sequência de casos ocorridos com ela nos mais diversos ambientes.
A escola soltou uma nota como muitas as que vemos nestes casos: "Trabalhamos de forma permanente na prevenção do bullying, toda e qualquer forma de preconceito e discriminação" e finalizou dizendo que estão apurando o caso.

"O Sesi é uma instituição que apoia esporte, que tem muitos atletas, que pode fazer um trabalho sério sobre isso. Tem um papel social muito grande. É muito complicado falar desse tema porque a sensação é de não chegar lugar nenhum. A gente como atleta profissional tem um alcance nas mídias, mas um programa na escola é essencial."

Clarissa, que é filha e neta de mulheres que foram empregadas em casas de famílias, entende que a questão social agrava ainda mais toda a questão. Para conservar o emprego, suas mais velhas tiveram que fingir não escutar ofensas, mas "faxineira preta fedida" é uma ofensa peculiar de um país onde o trabalho de limpar residências é essencialmente da mulher negra.

"Dói mais ver a proporção que o racismo tem tomado e as pessoas não fazem nada. As crianças estão vindo de um período longo em casa, vindas de uma pandemia. Só dói em quem sente, em quem passa por isso. A criança se coloca dentro do buraco. Tem coisas que a gente não pode se calar. Tenho uma sobrinha e fico muito triste em saber que ela possa passar pelas mesmas coisas. É triste e doloroso ver que todo mundo acha normal. Precisamos ajudar a minimizar os efeitos disso nas crianças. Atletas podem fazer muita coisa. Não se calar é uma delas".

Nestes dias que antecedem o Dia das Crianças de 2021, Clarissa encerra: "Se esse assunto não te dói é porque você já está morto".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL