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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os atletas e a luta no parlamento: Enfim, motivos para comemorar

Atletas pelo Brasil - Divulgação
Atletas pelo Brasil Imagem: Divulgação
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

30/09/2021 04h00

Não foi conquistado nenhum campeonato, nenhuma medalha de ouro, prata ou bronze; nenhum recorde ou marca expressiva. A grande conquista do momento tem um nome batido: união. Na última terça-feira (28), famosos esportistas participantes da organização "Atletas pelo Brasil" chegaram a Brasília em busca do encaminhamento ao Congresso do "Plano Nacional do Desporto", previsto desde 1998, por ocasião da criação da Lei Pelé, mas que até hoje não saiu do lugar.

A pandemia reduziu o número de pessoas na comissão, mas Diogo Silva (taekwondo), Flávio Canto (judô), Daiane dos Santos (ginástica), Thiago Pereira (natação), Estevão Lopes (remo paralímpico) e Clodoaldo Silva (natação paralímpica) se encaminharam à capital do país para dois dias de reuniões com deputados e senadores num esforço de desengavetar o plano que garantirá ao país metas e estratégias não apenas para o alto rendimento, mas para que a sociedade tenha no esporte um aliado da saúde e do desenvolvimento econômico.

Nos anos 90, o Comitê Olímpico Brasileiro e algumas confederações encabeçavam movimentos semelhantes para organizar a própria Lei Pelé e para que o esporte tivesse um ministério próprio. Alguns avanços importantes foram alcançados, é inegável. Sem este momento anterior, esta marcha dos atletas talvez estivesse muito mais dificultada. No entanto, eles estão brigando para sair deste ponto de estagnação justamente porque lá atrás foram alijados de todo o processo, ou seja, caso fossem incluídos desde sempre no debate, o país poderia estar em outro patamar no desenvolvimento esportivo.

A exclusão do atleta brasileiro dos processos decisórios da atividade que exercem é e sempre foi um projeto. Como é projeto de poder toda e qualquer manutenção de setores da sociedade na exclusão. A diferença básica é que, conscientes deste fato, outros grupos sempre se uniram para lutar por seus direitos no palco onde tudo acontece: o congresso nacional e o senado federal. E para isso não basta ter representantes eleitos, é preciso mobilizar. Face ao exposto e ao histórico de alheamento dos desportistas de maneira geral às questões políticas que, no final das contas, atingem em cheio a eles próprios, é para comemorar a ação coordenada pelo coletivo "Atletas pelo Brasil".

A infantilização eterna de atletas por dirigentes, treinadores e pela mídia em geral tem gerado monstros. Pessoas que quando atingem a fama se desconectam a tal ponto da realidade que as cercam, que ficam insensíveis a pautas urgentes da sociedade, apenas pensando nos benefícios próprios sem ponderar sobre a responsabilidade que possuem por serem pessoas públicas.

Um dos maiores crimes dos tempos das verdades disseminadas por WhatsApp é uma certa condenação do ativismo. Graças a ativistas, mulheres votam e se elegem, pessoas não são mais (pelo menos com o respaldo da lei) amarradas a troncos e açoitadas, deficientes não são mais "condenados" a uma vida reclusa e inativa. Cada pauta destas, obviamente, precisa ainda de avanços, e eles não se darão sem, adivinhem, os ativistas das causas sociais e direitos humanos, que nada mais são que cidadãs e cidadãos em busca de uma vida plena para todos e todas.

Inspirada pelo amigo, colunista e pós atleta Diogo Silva, uma geralzinha sobre o que é o Plano Nacional do Desporto (PND):

O PND é um planejamento que dará direcionamento às três esferas governamentais --municipal, estadual e federal-- para organizar e implementar políticas públicas direcionadas aos esportes. Com o PND existirão prazos e metas a serem cumpridas a cada 10 anos, pois como diz o ditado "cumprir o combinado não sai caro". O Brasil tem o quinto pior índice mundial de sedentarismo e em uma sociedade em que os corpos não se exercitam, a doença prospera bem mais rapidamente. São, aproximadamente, cerca de 300 mil mortes anuais relacionadas a falta de atividade física.

São mais que bem-vindos os atletas engajados nesta luta por uma sociedade que, como diz a letra dos Titãs, "não quer só comida". A gente quer comida, diversão, arte, pessoas não sedentárias, prática esportiva regulamentada e incentivada para todo mundo, conquistas internacionais, carreiras inspiradoras e cada vez mais crianças e jovens entendendo esta, a atividade esportiva, como uma possibilidade real de futuro profissional e, sobretudo, sonho realizado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL