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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jogos Paralímpicos: E não sou eu uma atleta?

Pôster dos Jogos Paralímpicos de Tóquio criado pela fotógrafa e diretora Mika Ninagawa - Divulgação
Pôster dos Jogos Paralímpicos de Tóquio criado pela fotógrafa e diretora Mika Ninagawa Imagem: Divulgação
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

27/08/2021 04h00

Os Jogos Paralímpicos de Tóquio estão acontecendo e, no momento em que escrevo este texto, o Brasil está na décima posição, com uma medalha de ouro, três de prata e quatro de bronze. O país é (e há bastante tempo) uma força paralímpica. O sucesso no pódio, no entanto, não está espelhado nas notícias e na cobertura midiática. Comparados aos recém-encerrados Jogos Olímpicos, é tímida a repercussão dos feitos da delegação brasileira. Por quê?

Sempre que me faço a pergunta do parágrafo anterior, lembro de uma personagem histórica: a norte-americana Soujourner Truth, a mulher negra nascida no final do século 18 (1797) e ex-escravizada, que assumiu a alcunha de "Verdade Peregrina". Depois de uma trajetória impressionante, em que conseguiu não apenas se libertar, mas também vencer dois senhores brancos na Justiça, ela passou a viajar o país como oradora e, na Convenção dos Direitos da Mulher, em Ohio, em 1851, rebateu palestrantes conservadores que ressaltavam a delicadeza feminina e a necessidade que as mulheres tinham em ser cuidadas, com uma frase antológica: "E não sou eu uma mulher?" O que sua pergunta irônica quis jogar na cara dos participantes é: algumas pessoas recebem não apenas mais atenção, mas muito mais cidadania que outras.

É preciso admitir que já foi muito pior. Recordo uma palestra sobre marketing esportivo que assisti certa vez, em que o expositor justificou a baixa audiência para eventos paralímpicos com o argumento de que as pessoas não gostavam destas modalidades porque não suportavam a ideia de que um dia elas mesmas ou alguém que amam possam vir a ter alguma deficiência. Sem contar observações sobre estética que prefiro poupar o leitor e a leitora de mais este exemplo do quanto o darwinismo social, as ideias medievais de superioridade e capacitismo ainda reinam entre nós.

Verônica Hipólito, velocista campeã mundial e medalhista paralímpica, disse por estes dias em suas redes sociais: "Não é superação, é treino". Ela disse: "Manual da Paralimpíada: não olhe para a deficiência, olhe para a eficiência. Sem usar 'que superação' só por ver alguém sem perna, braço, cadeirante, cego/baixa visão ou com paralisia. A gente treina pra caramba para estar lá".

Em um contexto e em um século totalmente diferente do de Soujouner, Verônica está falando a mesma coisa, ou seja, que pessoas precisam de oportunidades, autonomia e inclusão em igual medida, independentemente de suas características. E, sim, a deficiência é apenas uma característica com a qual alguns nascem e outros adquirem.

Os 260 atletas da delegação paralímpica brasileira merecem a torcida calorosa e apaixonada por um número sem conta de motivos, mas, principalmente, porque é demais vitoriosa. Há três edições dos Jogos --Pequim, Londres e Rio de Janeiro-- o país termina entre os 10 maiores e a meta deste ano é que não só mantenham este patamar, como também tragam a sonhada 100ª medalha de ouro de sua história.

Alguém da equipe poderia perguntar: "E não sou eu um atleta? Não sou eu uma atleta?" Sim, é! E dos mais brilhantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL