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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Revolução olimpicamente feminina

Rebeca Andrade com a mãe, Rosa - Reprodução/Instagram
Rebeca Andrade com a mãe, Rosa Imagem: Reprodução/Instagram
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

05/08/2021 04h00

"...minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que guardo em mim agora
É o que me faz viver"
Super Homem - Gilberto Gil

Algo aconteceu nas duas últimas semanas. Um vento vindo do oriente soprou a força que se ergue da fragilidade e, acima de tudo, da humanidade de mulheres. Algumas, como a skatista Rayssa Fadinha Leal, nem na idade adulta chegaram. Outras, como a maratonista aquática Ana Marcela Cunha e a ginasta Rebeca Andrade chegaram e saíram da puberdade perdendo e ganhando em competições. E umas, talvez as mais poderosas, no silêncio forjaram todos os metais preciosos extraídos dos Jogos Olímpicos de Tóquio. São mães, avós, esposas, cuidadoras, pessoas que nem sempre foram fortes, mas que carregam a generosidade de auxiliar na construção e obtenção de sonhos.

Desde que a ginasta norte-americana Simone Biles teve a coragem de não arriscar a própria integridade em nome da manutenção de títulos, um suspiro de alívio parece ter contagiado as olimpíadas de 2020, que estão acontecendo em 2021 por conta de uma pandemia, do luto e do isolamento, exigindo dos e das atletas um esforço extraordinário para se manter em alto nível.

Competições austeras e econômicas nos rituais de abertura, premiações e comemorações, sem público lotando arquibancadas, aplaudindo e vibrando a cada conquista. O gesto de Biles foi tão grandioso que teve o poder de relaxar músculos tensos e fazer com que a diversão, a solidariedade e a empatia reinassem em um ambiente criado para que a falácia da meritocracia prospere largamente, moendo corpos e espíritos.

O vendaval suave chamado Simone, aplaudindo rivais sentada na arquibancada, abriu alas para que sua compatriota, Raven Saunders, arriscando perder o sonho de todo atleta do planeta -- uma medalha olímpica -- rompeu com a regra do Comitê Olímpico Internacional que proíbe manifestações no pódio fez um gesto de protesto: cruzou os braços acima da cabeça em sinal ao entrecruzamento de muitas opressões. Ela disse: "É normal ser forte e não há problema em não ser forte 100% do tempo. Não há problema em precisar das pessoas".

E se Saunders arriscou tão alto para enviar uma mensagem, significa que sua medalha maior foi a conquista da visibilidade e da voz para gritar ao mundo que existe, é uma mulher e exige o direito de ter sua vida e suas dores respeitadas. Com um gesto, Saunders fez um discurso inteiro sobre solidão.

É hora de enxergar a vida das estrelas e astros dos esportes para além das manifestações óbvias de força. É hora também de vê-los como frutos de histórias longas e de grupos de pessoas que auxiliaram na construção daquele ícone. Até agora, nenhum brasileiro ou brasileira que subiu ao pódio deixou de citar, em especial, ao menos uma mulher.

"Queria que ela estivesse viva para ver o que me tornei", disse o surfista ítalo Ferreira sobre a avó, dona Mariquinha, que aliás dará nome ao instituto que Ítalo pretende erguer em sua cidade natal, Baía Formosa, no Rio Grande do Norte. "O amor sempre vence", disse o nadador Bruno Fratus, ao falar sobre a belíssima parceria com a esposa Michelle Lenhardt, sua treinadora e apoiadora nas horas difíceis. "Agradeço a minha mãe, a minha namorada...", disse Ana Marcela Cunha, falando de dona Ana Patrícia e de Maria Clara, ao enfileirar todos os apoios e ajudas que recebeu para chegar ao ouro. "Minha mãe sempre foi a minha base, uma mulher que eu gostaria muito de me tornar", disse Rebeca Andrade sobre sua mãe, dona Rosa, que criou sozinha sete filhos com o trabalho de empregada doméstica, esta categoria tão estigmatizada e excluída em um Brasil que ainda não superou seus enormes abismos.

Antes do começo das provas no Japão, disse aqui que os Jogos de Tóquio entrariam para um lugar especial da história olímpica. Ainda bem que também será por ter deixado explícito, que mesmo nos ambientes mais arduamente competitivos, ainda existe espaço para revolucionar com o amor de tantas mulheres.

"(..) Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser.
(...) Quem sabe
O Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL