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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brincadeira séria: Crianças olímpicas

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Imagem: Shutterstock
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

29/07/2021 04h00

"Há um menino, há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança ele vem pra me dar a mão"
Bola de Meia, bola de gude - Milton Nascimento

Ninguém se iluda. Com exceções que confirmam a regra, a maioria esmagadora dos atletas olímpicos que chegam ao pódio teve uma infância olímpica, pois desde muito cedo a disciplina dos treinos faz parte de uma vida regrada que talha os corpos. Esta meninice competitiva sonha com o brilho do ouro, da prata e do bronze premiados em ciclos de quatro anos.

Problema algum, ao contrário, dizem os especialistas, se a prática do esporte é parceira da educação respeitosa a cada fase do crescimento e da maturidade. Quando a atividade é prazer e não dor, mas... existe esporte de alto rendimento sem dor e sem que se procure ultrapassar os limites do corpo? Existe esporte de alto rendimento sem que se busque um padrão corporal para aquela prática específica?

Existe esporte de alto rendimento sem que, além do corpo, seja preciso preparar a mente para lidar com solidão, independência, ansiedade, pressão, autoridade, vitória e derrota? Não serão estas questões complexas para adultos, quanto mais para alguém que nem na puberdade chegou ainda?

Os questionamentos acima assaltaram com força a mente de muita gente nestes primeiros dias dos Jogos Olímpicos de Tóquio por conta da fala da ginasta Simone Biles ao desistir de provas e da presença da tenista Naomi Osaka, que relatou no passado depressão e transtornos de humor, mas pouca gente se recorda do nadador australiano Ian Thorpe.

Dono de cinco ouros olímpicos nos Jogos de Sidney-2000 e Atenas-2004; e 11 ouros em campeonatos mundiais, Ian, com 14 anos, foi o mais jovem nadador a integrar a seleção australiana e revelou lutar contra a depressão desde a adolescência.

-- "Sou uma pessoa que lutou contra os problemas mentais desde a adolescência. De fora, muitos não podiam perceber o meu sofrimento diário. Nem sequer entender a luta que eu tinha. Essa atitude faz parte da decepção que nos submete a depressão e os transtornos mentais. O que acontece fora pode ser completamente diferente da agonia interior que nos oprime", contou Thorpe.

Ao jornal australiano "Huffington Post", Thorpe seguiu dizendo que a rotina de um astro da natação junto com os duros treinamentos, destruíram seu emocional. Ser um atleta olímpico tem luz, mas o peso deste holofote pode ser insustentável para quem lida com ele (ou com a possibilidade dele) desde criança.

Foi preciso passar por muita dor e sofrimento até que Thorpe, já adulto, pudesse dizer: "Embora ocasionalmente eu sofra de depressão, decidi que não será ela que vai me definir".

Imaginar-se um herói, sonhar com superpoderes, fabular outros mundos e finais possíveis para histórias previsíveis. Tudo isto faz parte do mundo infantil. Será possível modular a responsabilidade de carregar o nome de uma nação em competições onde estão em jogo, entre outras coisas, investimentos, patrocínios, imagens... ou seja, dinheiro? Será possível preservar a infância quando uma medalha pode estar agregada de significado político? Sim, esporte de alto rendimento é política pública.

Todos os questionamentos feitos aqui devem ser seriamente levados em conta por quem cuida de uma criança e apresenta a ela o mundo esportivo, pois, a depender de como isto ocorre, talvez o bordão repetido a exaustão de que "esporte é saúde" não seja tão verdadeiro assim.

"Há um passado no meu presente
O sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra o menino me dá a mão"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL