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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quedas que sinalizam a mudança dos tempos

Arthur Nory disputa o solo na Olimpíada de Tóquio - Ricardo Bufolin/CBG
Arthur Nory disputa o solo na Olimpíada de Tóquio Imagem: Ricardo Bufolin/CBG
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

25/07/2021 04h00

Que o tema racismo no esporte viria mais uma vez à tona em Tóquio em polêmicas quentes ninguém duvidava, mas chegou mais rápido do que poderíamos imaginar. Logo no dia seguinte à festa de abertura toda trabalhada para passar a ideia de inclusão.

O ginasta Arthur Nory, protagonista no caso de racismo contra o colega Ângelo Assumpção, caiu sentado no tablado e fez explodir ressentimentos antigos, mais antigos que ele mesmo. Nory falhou na prova de solo, em que defendia seu bronze olímpico nos Jogos Rio-2016, e também na barra fixa, prova em que é campeão mundial. Um tombo que sinaliza algo importante: no Brasil, ninguém mais finge neutralidade quando o tema é racismo. Está tudo à flor da pele e este é um sinal de que o tempo da mudança chegou.

A impaciência, a não tolerância e o rigor no julgamento com falas como as de Nory e outros atletas da ginástica que em 2015 compararam a cor de Ângelo a de saco de lixo, nasce do basta que a comunidade negra consciente quer dar a casos como este. No entanto, é mais que isso. São reações que brotam do sentimento de impunidade porque o vídeo, obviamente, é a ponta de um iceberg de opressões nascidas muito antes. Quem honestamente acredita que nasceram ali as ofensas a Ângelo e outras pessoas negras por parte dos atores daquelas imagens?

A comparação é inevitável. Enquanto um atleta visto falando absurdos racistas em um vídeo foi a duas edições olímpicas e teve a chance de colocar seu nome na história do esporte nacional, o colega agredido desapareceu dos clubes, das competições e das mesmas oportunidades. Aqui temos outro ponto: nenhum ato racista está desacompanhado de instituições que lhe sustentem. Desta forma, Arthur Nory deve ser questionado, mas e os clubes, federações, confederações, academias...e a estrutura esportiva nacional, que até hoje não pune exemplarmente casos como este?

Conversei com algumas pessoas do meio, que chegaram a questionar a conduta do atleta Ângelo, afirmando que seu "comportamento difícil" seria o real motivo para a demissão do Esporte Clube Pinheiro, onde passou 16 dos seus 25 anos. Como se outros atletas também não tivessem cometido atos de indisciplina em algum momento da vida e mesmo assim sigam treinando. Ângelo, ao contrário, teve a vida de atleta estagnada quando abriu a boca para denunciar.

Seis anos passaram entre o acontecido e a atual edição dos Jogos de Tóquio. O fato tão emblemático é sistematicamente relembrado cada vez que Arthur Nory participa de uma grande competição. Ele desabafou após o evento em Tóquio, reconhecendo seu erro — já havia feito antes — e queixando-se de que comentários e ataques nas redes sociais o abalaram. Neste ponto temos mais temas para pensar: a infantilização e a fragilidade que a algumas pessoas é permitida, mas a outras, não.

Alguém que cogite ser esquecido apenas porque pediu desculpas públicas por um ato racista, tem certeza absoluta de que isto não "dá em nada" e convenientemente ignora que pessoas negras não têm este privilégio, pois são eternamente julgadas e expostas ao escárnio degradante por qualquer falha. O olhar "benevolente" é seletivo. Vide o caso dos jogadores negros na Eurocopa. Alguém que há seis anos lida com a questão e não se prepara para ela durante a realização de algo tão importante quanto os Jogos Olímpicos, não vive o mundo real.

Por fim, a fragilidade das pessoas brancas diante da crítica às suas atitudes neste tema e a naturalização de um discurso raso pela mídia em geral não ajuda no amadurecimento não apenas do próprio atleta, mas de uma sociedade assentada numa racionalidade racista de cima até embaixo.

Porém, curiosamente, no mesmo dia em que todo este caso de Arthur Nory e Ângelo Assumpção volta ao noticiário devido a uma queda, a estátua do bandeirante Borba Gato, um dos responsáveis pela escravização e violência extremada contra indígenas e negros, ardeu em São Paulo.

Foi lindo ver o norte-americano John Legend e a beninense Angelique Kidjo entre os artistas dos cinco continentes que cantavam a emblemática música "Imagine", de John Lennon e Yoko Ono na cerimônia de abertura. A canção que simboliza um desejo que, sabemos, não é o de toda a humanidade, mas é o de uma parcela dela. No Brasil, quão significativa é esta porção que deseja com força "todas as pessoas vivendo a vida em paz", não sabemos. A julgar pela passividade com que a nação assiste aos horrores provocados pelo racismo, não dá para ser muito otimista.

Não adianta permanecermos no estado de negação. A tensão racial no Brasil existe, é grave e precisa ser encarada com seriedade, reflexão e mudança verdadeira de paradigmas insustentáveis na terceira década do século 21.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL