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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dessincronizados com o espaço, com o tempo e com a África

Hamish Blair/Getty Images
Imagem: Hamish Blair/Getty Images
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

17/06/2021 04h00

Na última semana, eu me deparei com imagens que me fizeram voltar num tempo que parece outro século, mas foi logo ali, em 2008, nos Jogos Olímpicos de Pequim. Eu me vi na arquibancada de imprensa do Cubo D'água, aquela magnífica construção onde aconteceram os esportes aquáticos, assistindo à performance da seleção espanhola de nado sincronizado (atual nado artístico). Eu me vi entre maravilhada, incrédula e com raiva diante de todas aquelas meninas brancas usando uma touca simulando tranças nagôs.

Provando este fenômeno incômodo dos novos tempos, em que fotos de fatos antigos ressurgem como se tivessem acontecido ontem, as espanholas passaram a surgir fortemente nas minhas redes, que têm muitos perfis ligados ao universo da comunidade negra. Não entendi porque desencavar algo que nos provoca tanta raiva e para alguns expliquei que se tratava de uma performance de 13 anos atrás, mas o filme que passou na cabeça foi inevitável.

Digo que me vi maravilhada porque a equipe da Espanha não ganhou à toa a medalha de prata com aquela coreografia. Tecnicamente, foi uma das coisas mais poderosas que já assisti. O tempo das atletas em apneia, os movimentos vigorosos, as imagens formadas na água... Tudo era QUASE perfeito. Só não bateram a equipe russa porque a Rússia é uma espécie de ente sobrenatural nesse esporte.

No entanto, a admiração rapidamente deu lugar a um sentimento de incredulidade, pois estava eu no século 21, em um complexo aquático autossustentável, todo pensado para poupar energia, para não desperdiçar uma gota daquela água toda, com espaços inteligentemente distribuídos e funcionais, mas assistindo a uma caracterização no pior estilo "black face" do final do século 19.

Para quem não sabe, atores brancos faziam o papel destinado aos negros e para isso pintavam seus rostos simulando a aparência, o que resultava numa caricatura ultrajante que colocava todos e todas nós no terreno entre o ridículo e o "exótico".

A minha incredulidade logo se transformou em raiva porque eu era a única jornalista negra naquela arquibancada, talvez uma das únicas negras em todo aquele parque aquático --porque atletas negras da África que usam os cabelos simulados pelas espanholas nem sonhavam e, todavia, nem sonham em ganhar uma prata olímpica nesta modalidade, não que lhes falte talento, mas porque ainda não têm a oportunidade de treinar nas mesmas condições desde pequenas.

Minha raiva cresceu exponencialmente quando usando o meu cabelo, as tranças que eu uso em diversos penteados desde a infância, elas passaram a simular na água jacarés, elefantes, macacos, todos os bichos da savana, enfim, colocando todo um continente e também a nós, da diáspora africana, dentro dela.

Por fim, digo que ainda tenho incômodos, mas por ver que revivem imagens velhas como novas sem apurar informações. Dificilmente, uma caracterização destas passaria sem protestos numa seletiva olímpica em 2021. E estes avanços vieram também de todos e todas nós, por meio dos atletas que se engajaram no Take a Knee, no Black Lives Matter e em todos os movimentos de repúdio ao racismo no esporte. Existe um caminho a percorrer, mas há um percurso percorrido na quase última década e meia que nos separa dos Jogos de Pequim e antes dele.

Pesquisando para este texto, relembrei que este time espanhol acusou a técnica Anna Tarrés de assédio moral, no que foi um escândalo para o esporte daquele país à época. É curioso observar como as opressões se sobrepõem e como as meninas da foto que ilustra este texto sentiam-se humilhadas, sem perceber que também humilhavam.

Por outro lado, fico feliz por ver um avanço neste episódio: se em 2008 passei a raiva sozinha, em 2021, há quem se importe, pois esporte é mais que performance, ouro, prata, bronze, semifinal, final, eliminatórias etc. Esporte é parte inseparável da nossa vida em sociedade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL