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Eliana Alves Cruz

Para o esporte uma pandemia não é uma guerra?

A Primeira Guerra Mundial trouxe como consequência uma reorganização das fronteiras que hoje segue influenciando a geopolítica - Getty Images/BBC
A Primeira Guerra Mundial trouxe como consequência uma reorganização das fronteiras que hoje segue influenciando a geopolítica Imagem: Getty Images/BBC
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

22/01/2021 04h00

As vacinas que imunizam contra a COVID-19 começam a circular fortemente no mundo. Entre muitas expectativas de abrandar a terrível pandemia que paralisou o planeta, está a volta dos eventos de massa que fazem história. Os Jogos Olímpicos, o maior de todos, foi um dos primeiros corpos abatidos ano passado na tentativa de frear o avanço da doença. Como estamos numa espécie de looping eterno, com acontecimentos se repetindo a toda hora, é o momento de relembrar algumas coisas sobre vírus e Olimpíadas.

Os vírus são adversários duríssimos da competição dos cinco aros e de longa data. Infelizmente, o poder letal deste competidor invisível e imprevisível, não comove corações que precisam que o show continue. Nunca comoveram. Estes microscópicos atletas que sabem tudo de estratégia para continuarem vivos e circulando, já vitimaram mais que todas as guerras, mais que o equivalente à queda diária de dezenas de aviões de grande porte.

O primeiro encontro dos Jogos com um vírus foi no meio da pandemia da chamada Gripe Espanhola (H1N1), na edição da Antuérpia, em 1920. O mal que vitimou cerca de 40 milhões de pessoas, mas foi ofuscado pela chance de ser um símbolo de reconstrução do mundo no Pós Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que matou cinco vezes menos.

A segunda vez que o evento topou com seu mais renitente opositor foi em Melbourne 1956. Na época, a chamada Gripe Asiática (H2N2) matou mais de dois milhões de pessoas. Depois, durante os Jogos do México 1968, foi a vez da Gripe de Hong Kong (H3N2), estima-se em um milhão o número de mortos. Todos estes males foram catástrofes globais e os relatos são terríveis dos efeitos pelo mundo. Nada parou os Jogos.

Em 2016, foi a vez da Zika, que assolava a América do Sul e o Brasil em especial, apavorar países, competidores, torcedores... A locomotiva competitiva seguiu sem nunca se deter. Na disputa viral o Corona Vírus ganha dos seus antecessores em dois aspectos: Não tem seu nome atrelado a nenhuma nação e ao menos adiou a realização deste evento que só para por motivos bélicos.

Em 125 anos de história, apenas guerras cancelaram os Jogos Olímpicos. Primeira Guerra Mundial (1916), Segunda Guerra Mundial (1940 e 1944). O soldado mais letal parece não ser devidamente temido e, parafraseando um grande amigo, a "memória microscópica da humanidade" faz com que as experiências fatais das epidemias e pandemias sejam rapidamente esquecidas, jogadas para uma espécie de sótão da história humana.

Janeiro de 2021 vai célere para o seu fim. Foi outro dia que estávamos desejando "Feliz ano novo" e o tempo vai, como sempre, voando. Olimpíada é evento onde estão nações riquíssimas que compraram milhões de vacinas, países pobres que não têm nenhuma e países que são economias fortes, mas não se planejaram e seus atletas (que não estão nos grupos prioritários por razões óbvias) talvez não consigam se vacinar a tempo. A desigualdade grita na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, desamando e desrespeitando em todos os dias de nossas vidas.

Face o exposto acima, devo discordar do meu amigo, pois organismos microscópicos têm memória infinitamente melhor que a nossa. Eles se lembram do quão imprudente somos e retornam sempre... Matando mais e mais.

Talvez seja hora do Comitê Olímpico Internacional encarar a ação de um vírus mortal como encarou no passado os efeitos devastadores das batalhas. Talvez seja hora de, finalmente, se lembrar.