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Eliana Alves Cruz

O gambito das rainhas esportivas

Xadrez - Unsplash/Shirly Niv Marton
Xadrez Imagem: Unsplash/Shirly Niv Marton
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

12/01/2021 04h00

As redes sociais são ambientes estranhos. Elas ressuscitam assuntos antigos e enterram novos. O deus do século 21, o senhor algoritmo, mostra a você os temas segundo os critérios dele, que seguem os padrões do seu comportamento no mundo virtual. E Mr. Algoritmo deu de me apresentar o mundo do xadrez.

Não se empolguem. Eu jogo muito mal, apesar de gostar muito da lógica do jogo e entender vários lances, mas meu filho e meu pai jogam muitíssimo bem. Andamos vendo a famosa série na TV e comentei em postagens nas redes. Doutor algoritmo entendeu que devia insistir comigo neste tema e me apresentou uma polêmica de 2017, envolvendo a campeã mundial em duas categorias: a ucraniana Anna Muzychuk. Resumindo para quem não acompanhou, ela abriu mão da manutenção dos títulos que lhe dariam muito dinheiro ao desistir de jogar na Arábia Saudita, mas, por que Anna fez isso?

Segundo a própria Anna escreveu nas redes, o tratamento dispensado às mulheres naquele país do Oriente Médio fez com que ela decidisse não embarcar. Ela escreveu "Decidi não ir para não jogar pelas regras de alguém, não usar abaya, não ser acompanhada para sair de casa e, ao mesmo tempo, não me sentir uma criatura secundária". A enxadrista foi muito aplaudida pela decisão que, aparentemente, pôs em xeque o mundo misógino dos Sheiks.

Obrigada, Mr. Algorítimo! Quantas questões oportunas para pensar neste início de 2021 tendo este caso como exemplo. Antes de qualquer coisa, é importante ressaltar que respeito a decisão da atleta que, diga-se, jogou no Iran neste mesmo ano de 2017. Aliás, respeito decisões, opiniões, escolhas por caminhos. É isto o que faz quem tenta viver e exercitar a liberdade e a democracia. Pensei sobre tudo o que já vi sobre a mulher no mundo esportivo e fiquei imaginando o que eu faria em seu lugar. Digo sem hesitar: eu viajaria.

Considerando os temas levantados por ela e não outros que, estes sim, me fariam desistir de uma visita a Arábia, eu iria justamente porque lá existem milhões de garotas ávidas por vida, ávidas por ver de perto e jogar com alguém que brilha em um universo, ainda hoje, demais dominado pelos homens. Viajaria porque a minha presença talvez incentivasse alguma delas a ponto de romper com as opressões. Eu embarcaria porque o mundo do esporte (e o mundo de modo geral!) precisa da nossa presença, aliás, não vive sem ela; pois é preciso naturalizar os nossos corpos nestes espaços verdadeiramente e não apenas por questões de imagem ou mercadológicas.

Caso eu fosse uma mulher branca europeia, considerando o histórico colonizador e arrogante do meu continente, que se enxerga como sabedor de todos os saberes, iria por tudo isso e também porquê determinados usos que tanto me incomodam estão ligados a questões religiosas e racismo religioso é algo tenebroso, que mata há séculos. Racismo religioso assassina milhões no planeta inteiro, todos os anos e mata também simbolicamente, pois não permitir que alguém manifeste sua fé é também uma forma de assassinato.

Eu sentaria em frente a minha oponente cobrindo a cabeça não por mim, mas em respeito a ela. Competir é, sobretudo, saber lidar com as nossas questões e as de quem conosco compete. Quando deixamos de ir a algum lugar e de nos enriquecer com a cultura e a experiência de vida de outros seres humanos por conta do machismo, do autoritarismo e do racismo, estas coisas venceram a partida.

Sempre lembro um dado que certa vez ouvi numa palestra em um evento na Federação Internacional de Natação. O escritório de esportes das Nações Unidas informou que no Tsunami de 2004, na Indonésia, a quase totalidade dos mortos foram mulheres porque não sabiam nadar. E não sabiam porque não foram ensinadas. E não foram ensinadas porque... Bem, se existem pessoas no mundo que precisam de incentivo para se engajar na luta pelo direito de praticar esportes são essas!

Por último pensei numa certa menina paquistanesa chamada Malala Yousafzai...

Um "gambito" é uma forma de abertura de jogo que, dizem, pode abalar bastante o psicológico do adversário. No gambito da rainha ou da dama, o peão da rainha avança e isso pode significar a sua perda. É o sacrifício de uma peça para que se possa abrir espaços e ter uma vantagem adiante.

Agora vem o parágrafo das perguntas. O que, afinal, andamos sacrificando? Quais as estratégias para que se vençam as partidas que diminuem a humanidade? É justo e razoável que nós, mulheres, nos movamos no tabuleiro da sociedade apenas reagindo ao que as opressões de gênero ditam? Quem são os nossos verdadeiros adversários e contra o quê estamos brigando?

Caso o Brasil resolva organizar um campeonato mundial de xadrez, arrisca de Anna também ter que declinar do convite, pois nossos níveis de feminicídio, segundo a ONU, são bem piores do que os da Árabia Saudita.

Este ano, ao que tudo indica, será olímpico. Veremos todo tipo de coisas em função da pandemia, da imunização, dos conflitos de sempre no mundo, das polêmicas, das desigualdades econômicas, dos banimentos, boicotes e outras ameaças que sempre rondam este evento. Teríamos uma vitória global se fosse possível demonstrar igualdade de gênero e de raça ao mesmo tempo em que respeitamos as diferenças culturais.

Teríamos um xeque-mate em apenas um lance.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.