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Eliana Alves Cruz

O caso Robinho e a pergunta chave: Quanto vale uma mulher?

Robinho, com a camisa do Santos - Divulgação
Robinho, com a camisa do Santos Imagem: Divulgação
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

20/10/2020 04h00

Que o mundo da bola é um dos epicentros do terremoto chamado machismo todo mundo sabe, pois é de dentro dos campos e do alto das arquibancadas ocupadas por torcidas majoritariamente masculinas que saem algumas das muitas "pérolas" da misoginia, homofobia, transfobia e outras manifestações que humilham, marginalizam, ridicularizam e violentam. Sem contar outra chaga terrível -- o racismo -- que tanto já abordamos aqui. No caso de quem está com a bola nos pés, é possível tirá-lo de determinado contexto, difícil é tirar o contexto de dentro dele, logo, nas sociedades em que estamos imersos, qual o valor de uma mulher?

A idolatria que o futebol gera em milhões de torcedores e torcedoras no planeta e o machismo que transforma a mulher em "coisa" são uma mistura explosiva, que tem provocado tragédias há décadas. No Brasil o histórico é de arrepiar. Nos últimos dias em função do caso Robinho as redes sociais ressuscitaram diversos episódios e, entre eles, o dos "doces devassos", um caso que ficou no fundo da fraca memória nacional.

Resumindo para quem não acompanhou ou não leu a respeito, o ano era 1987 e o Grêmio estava em excursão na cidade suíça de Berna, para a Philips Cup, após conquistar pela terceira vez seguida o campeonato gaúcho. Uma menina de 13 anos, Sandra Pfäffi, tornou-se muito fã do time e arriscou uma visita ao hotel onde a equipe estava hospedada, para tentar conseguir uma camiseta autografada.

Sandra foi batendo de porta em porta para achar alguém do grupo, até que uma delas se abriu. As cenas seguintes foram de absoluto terror para a garota e terminou com ela indo à polícia e com a prisão dos jogadores Eduardo Hamester, Fernando Castoldi, Henrique Etges e Alex Stival, este último conhecido como Cuca.

Uma enorme confusão se formou com o envolvimento do Itamaraty, embaixadores, o presidente da FIFA na ocasião -- João Havelange --, outras autoridades nos dois países e grande repercussão na mídia nacional e internacional. Depois de quase um mês presos pagaram fiança, uma indenização, foram liberados e voltaram ao Brasil. A condenação na Suíça aconteceu, mas seguiram em liberdade.

Posteriormente admitiram culpa, mas quando retornaram ao país de cabeças baixas e envergonhados não demorou a perceberem que, na verdade, eram "machos enganados" por uma "desqualificada", eram os "inocentes", vítimas de uma "armação", pois foram recebidos por uma multidão no aeroporto aos gritos e xingamentos para a menina. A imprensa local cunhou o apelido de "doces devassos" para os quatro atletas e como celebridades que agora eram, fizeram ensaios fotográficos, deram entrevistas, etc.

Caso Grêmio - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução
Cai o pano e 33 anos depois Cuca é técnico do Santos, time que contrata Robinho, mesmo com uma condenação em primeira instância pelo crime de estupro na Itália. Com a pressão de patrocinadores, da mídia e de muitos torcedores, o Santos desistiu da contratação. Como disse na primeira coluna que publiquei neste espaço, aprender a jogar é ter a coragem de fazer perguntas. Então, questiono: Terá sido mesmo uma vitória ou puro interesse comercial para não manchar ainda mais a imagem do clube diante de tanta repercussão? Como não pensaram em nada disso ao longo das negociações, da elaboração do contrato até sua assinatura, concluímos que o problema não é o crime em si, mas a "descoberta" dele.

A julgar pela quantidade de grupos de torcedores -- de diversos times, diga-se! -- que saíram ferozmente em defesa de Robinho e no ataque à mulher sem ao menos saber os detalhes do caso, tudo indica que passou pouco tempo para que o país que foi ao aeroporto recepcionar o atual técnico do Santos e seus colegas de time, mude de opinião. Trinta anos pode não ser tempo suficiente para que sociedades construídas tijolo por tijolo, ao longo de séculos, com o cimento da violência contra a mulher percebam que homens não são seres irracionais que agem por instinto. Aliás, nada parecido ocorre entre os animais.

Todo o caso dos "doces devassos" está fartamente documentado pela imprensa da época no Brasil e no exterior. Segundo consta, Sandra teve depressão profunda e tentou o suicídio aos 15 anos. Uma mulher é estuprada no Brasil em média a cada 11 minutos. Isto significa dizer que não terminará o dia de hoje sem que cerca de 130 seres humanos tenham a existência marcada para sempre.
Afinal, quanto vale a vida de uma menina, de uma jovem... de uma mulher?