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Eliana Alves Cruz

Esporte inclusivo: Bonito no discurso, difícil na prática

Judoca Rafaela Silva puxa a fila dos atletas brasileiros na cerimônia de encerramento do Pan de Lima - Alexandre Loureiro/COB
Judoca Rafaela Silva puxa a fila dos atletas brasileiros na cerimônia de encerramento do Pan de Lima Imagem: Alexandre Loureiro/COB
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

11/08/2020 09h50

Não há um político, um dirigente, um atleta ou uma pessoa pública ligada ao esporte no Brasil que não tenha na ponta da língua o discurso de que a atividade esportiva é excelente meio de inclusão social. Seja pelo discutível argumento da meritocracia (e voltaremos a isto mais adiante) ou por qualquer outro viés, ninguém que minimamente entende do assunto nega que esta é uma poderosa arma para auxiliar na luta pela melhoria na qualidade de vida e, mesmo que não produza medalhistas olímpicos, no mínimo formará atletas potentes, com capacidade para chegar lá e que servirão como exemplo para milhões de crianças e adolescentes, certo? Nem tanto. Vejamos.

O Governo Federal anunciou uma manobra que, na prática, deixará os atletas sem receber o benefício do Programa Bolsa Atleta por 12 meses. A medida prejudica milhares de competidores que contam com estes recursos. Ela é desastrosa, mas o problema de fundo é maior. O desmonte e a resistência às políticas públicas que incrementam a atividade demonstram que uma parcela da nação não compreende o esporte em sua dimensão total e outra entende, mas opta por ignorar e viver de usar os talentos e resultados pontuais como exemplos de superação dos obstáculos. A famosa meritocracia.

Ignorar ou fingir não saber que até conseguir subir nos principais pódios do mundo o atleta passou por equipamentos como estádios, clubes e centros de treinamento; profissionais multidisciplinares, uma vida que inclui exames, alimentação, equipamentos adequados de uso pessoal e altamente perecíveis devido à intensidade de uso, enfim, tecnologia e expertise; É jogar atletas olímpicos e paralímpicos na precariedade. É lidar com as modalidades de forma amadora, desconectada com o século 21 e também cruel, pois as cobranças por performance são desproporcionais aos recursos oferecidos.

Alguém pode perguntar qual, afinal, é a importância de um atleta diante da realidade de uma população em sua maioria ainda carente de quase tudo e que vem perdendo os poucos direitos adquiridos. Quem formula esta pergunta certamente não sabe que - segundo matéria recente do Jornal das Associações Comerciais do Estado de São Paulo - o mercado esportivo global movimenta anualmente US$ 756 bilhões. No Brasil este mercado é gigante, emprega centenas de milhares e movimenta uma cadeia produtiva que tem nas performances esportivas a sua razão de ser e nos atletas a ponta visível essencial que estimula todo o setor.

No entanto, mais importantes que as razões econômicas estão os motivos que fazem da atividade esportiva um braço importante da educação, ensinando valores, objetivos, prazer, autoestima, saúde e, principalmente, cidadania. O desprezo ao esporte nacional aponta um pouco caso com os talentos que brotam da juventude de um país com desigualdades abissais e que precisa urgentemente encontrar caminhos para o futuro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.