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Eliana Alves Cruz

Lewis Hamilton: O silêncio só é opção se falar alto

Lewis Hamilton comemora vitória no GP da Grã-Bretanha, em Silverstone - Frank Augstein/Pool via Getty Images
Lewis Hamilton comemora vitória no GP da Grã-Bretanha, em Silverstone Imagem: Frank Augstein/Pool via Getty Images
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

04/08/2020 04h00

No último final de semana assistimos a um feito incrível do piloto inglês Lewis Hamilton. Ele disparou no circuito da Fórmula 1 vencendo a corrida em Silverstone dirigindo, na última volta, uma Mercedes com o pneu dianteiro esquerdo estourado, ou seja, ganhou em cima de três rodas. No pódio, o famoso gesto do punho cerrado, a cabeça baixa... e o silêncio que grita.

Apesar de tantas vezes repetido, banalizado e até apropriado por movimentos que são o radical oposto do propósito que o criou, a mão negra fechada e erguida ainda impacta. E sua força é diretamente proporcional à relevância de quem a levanta. O braço de Lewis Hamilton, que segurou valentemente numa pista em altíssima velocidade uma máquina que vale alguns milhões de dólares, é precioso para toda a indústria esportiva que faz dele um dos produtos mais rentáveis, mas é ainda mais especial para uma causa que não pode cair no esquecimento.

Desde o momento em que o gesto foi popularizado pelo grupo Panteras Negras, nos anos 60, e imortalizado no esporte pelos corredores norte-americanos Tommie Smith e John Carlos, no pódio dos 200m rasos dos Jogos Olímpicos do México, em 1968, o mundo mudou para ver um jovem negro como Hamilton se destacar em um esporte altamente elitizado como a Fórmula 1. No entanto, não mudou tanto ao ponto de que ele não seja uma exceção e de que seu pai, Anthony, não precisasse ter labutado em três empregos para mantê-lo correndo no Kart, viajando com os piores equipamentos e ouvindo piadas racistas nos eventos que participavam.

-- Éramos a família negra que tinha o equipamento de porcaria, o kart de porcaria e a caravana de porcaria -- recordou o piloto em uma reportagem da revista Time.

Com a autoridade de quem galgou o Everest da fama no mundo dos circuitos badalados depois de ter servido em restaurantes humildes e lavado carros, Lewis passou da fase de jovem celebridade que apenas se envolve em polêmicas e badalações, para a crescente responsabilidade de quem não se furta à interferência na luta para que algum equilíbrio se estabeleça. Este ano ele mudou as cores do carro, macacões e capacetes para a cor preta como símbolo da luta contra o racismo.

As redes sociais da Mercedes divulgaram recentemente um vídeo em que o piloto expõe seus motivos para a mudança.

-- (...) É apoiar a igualdade acima de tudo e seguir solidificando a importante mensagem, já que agora temos microfone e as pessoas estão começando a escutar. É uma oportunidade para continuar a divulgar a mensagem e responsabilizar as pessoas. Marcas, equipes, a Fórmula e todos aqui precisam ser responsabilizados e abertos a se educar, abertos a entender o porquê do Black Lives Matters acontecer, o motivo de precisarmos pressionar pela igualdade -- disse.

A próxima corrida acontece igualmente em Silverstone, uma corrida que celebrará os 70 anos da Fórmula 1. Para todos os participantes o hexacampeão Hamilton é "o homem a ser batido", pois ao que parece o prefixo "hepta" já está no aquecimento. Caso ele venha não encontrará um ídolo endeusado e inquestionável, mas um atleta vestido de humanidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.