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Diogo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Olimpíadas: uma abordagem interseccional

Caster Semenya, da África do Sul - David Ramos/Getty Images
Caster Semenya, da África do Sul Imagem: David Ramos/Getty Images
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Diogo Silva

Diogo Silva foi campeão mundial universitário, medalhista de ouro dos Jogos Pan-Americanos e participou dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 e Londres-2012 no taekwondo. Hoje, faz parte do grupo de rap Senzala Hi-Tech.

15/07/2021 04h00

No próximo sábado (17), às 11h, o Museu do Futebol promoverá a live "Olimpíadas e Interseccionalidade - driblando o racismo e sexisimo no esporte, durante a exposição "Tempo de Reação".

A live vai contar com a presença, diretamente do Japão, do jornalista da Globo e carateca, Diego Moraes, e da escritora e colunista do UOL Esporte Eliana Alves Cruz. Eu, Diogo Silva, serei o mediador.

A exposição "Tempo de Reação" homenageia o grande goleiro Barbosa e promove mensalmente debates e encontros virtuais abertos ao público. Entre os temas, pensados para elevar a cultura esportiva, temos a Interseccionalidade.

Segundo a pesquisadora Carla Akotirene, autora do livro "O que é Interseccionalidade", explica o tema como uma categoria teórica que focaliza múltiplos sistemas de opressão, em particular, articulando raça, gênero e classe.

Talvez fique distante o entendimento para quem está se deparando com a palavra pela primeira vez, então vamos a exemplos:

Christine Mboma e Beatrice Masilingi, da Namíbia, duas das três velocistas femininas nos 400 metros mais rápidas do mundo em 2021; as três medalhistas olímpicas da Rio-2016 nos 800 metros: Caster Semenya da África do Sul, Francine Niyonsaba do Burundi, Margaret Wambui, do Quênia; além de Aminatou Seyni, do Níger, a terceira corredora de 400 metros mais rápida do mundo em 2019 antes de mudar para os 200 metros.

O que têm em comum entre essas atletas? Vamos aos fatos: elas são mulheres, negras, africanas, de países de origem pobre, medalhistas olímpicas ou com ótimos resultados em mundiais, são do atletismo e tiverem suas carreiras impedidas por causa de testes de feminilidades.

Mas os testes de feminilidades não foram proibidos no ano 2000 pós jogos olímpicos de Sidney? Sim, foram. Mas toda vez que uma grande atleta se destaca mais que as outras, os múrmurios recomeçam até a federação internacional intervir e solicitar exames para provar que elas são de fatos mulheres.

A questão é que nos últimos anos os casos mais emblemáticos, como o da sul-africana Caster Semeya, bicampeã olímpica e tricampeã mundial, que teve que interromper sua carreira por causa da produção natural de testosterona, que fazia dela biologicamente melhor que as outras, não afetaram as europeias. Como se esses casos só acontecem na África ou Américas.

Já perceberam que quando um homem é acima da média em sua modalidade olímpica e quebra recordes só recebe elogios? Agora quando uma mulher está acima da média, a primeira questão levantada é se de fato ela é uma mulher. Porque, para os olhos de uma sociedade machista, racista, misoginia e conservadora, uma mulher não poderia estar acima da média principalmente se ela for de origem pobre e negra.

Deixo aqui o link do blog Dibradoras, que resgatou na história de forma cronológica os abusos já cometidos contra as mulheres antes, durante e depois das olimpíadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL