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Diogo Silva

Neymar pode ser uma potente voz no combate ao racismo.

Neymar discute com Alvaro Gonzalez durante partida do PSG contra o Olympique Marselha pelo Campeonato Francês -
Neymar discute com Alvaro Gonzalez durante partida do PSG contra o Olympique Marselha pelo Campeonato Francês
Diogo Silva

Diogo Silva foi campeão mundial universitário, medalhista de ouro dos Jogos Pan-Americanos e participou dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 e Londres-2012 no taekwondo. Hoje, faz parte do grupo de rap Senzala Hi-Tech.

15/09/2020 04h00

Neymar foi novamente o protagonista de um jogo do PSG, mas dessa vez os holofotes não têm relação com o bom futebol apresentado pelo brasileiro. Na partida contra o Olympic de Marselha, no último domingo (13), o brasileiro acusou de racismo o zagueiro espanhol Álvaro Gonzáles, da equipe adversária.

Não é a primeira vez que Neymar é vítima de racimo na carreira. Mas, dessa vez, ele tem a oportunidade de se transformar em uma voz potente no combate ao racismo.

No episódio de domingo, surpreendeu a reação do jogador, que agrediu o adversário e foi expulso de campo. Após a partida, uma avalanche de notícias positivas e negativas sobre o jogador surgiu na internet.

Ser um dos atletas mais bem pagos do mundo, principalmente com o novo contrato com a Puma de US$ 1 milhão ao mês, cerca de R$ 6 milhões ao mês, faz de Neymar - independentemente de estar certo ou errado - uma grande vitrine.

O que precisamos entender é que racismo é crime e está previsto na Constituição Federal de 1988. O artigo 5º estabelece que "todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza". A Constituição ainda considera racismo como crime inafiançável e imprescritível e prevê pena de um ano a três anos de prisão, além de multa, para o crime de injúria por raça, cor, etnia, religião ou origem.

Não importa quem é a vítima e em quais circunstâncias a pessoa vive no meio social. Se o caso estiver enquadrado na lei civil, esportiva e do trabalho (considerando que ser atleta é uma profissão e que a vítima esteja no ambiente de trabalho), o agressor deve ser punido, ao serem constatadas as provas.

Após o jogo muitas pessoas teceram suas opiniões, acharam que o Neymar não deveria ter reagido da forma que reagiu e que tudo faz parte do futebol.

Opinião não é uma ciência exata. Então, para termos certeza sobre aquilo que achamos devemos recorrer aos livros, a especialistas, participar de palestras, workshops, seminários ou buscar o máximo de informações possíveis de fontes diversas sobre o tema.

Na era digital, o like contabiliza o sucesso. Logo, frases impactantes e debates vazios contam mais do que a verdadeira preocupação com as vítimas de racismo. E falando em vítima, mais uma vez, estamos acusando quem deveríamos proteger.

Muitos de nós gostaríamos de ver Neymar se posicionando como a tenista afro-japonesa Naomi Osaka, de 22 anos, que venceu o Usopen de tênis, por exemplo. Naomi relembrou em cada partida vencida os nomes de pessoas negras que tiveram suas vidas ceifadas pela violência policial nos Estados Unidos.

No entanto, Neymar viveu durante muitos anos a síndrome de Peter Pan, como menino Ney, criação da mídia brasileira, o que acabou provocando um amadurecimento tardio no atleta.

Durante sua carreira Neymar teve algumas atitudes que colocaram sua pessoa em cheque. Por exemplo: abraçou um presidente fascista como Jair Bolsonaro, fez publicidade vexatória no caso #SOMOSTODOSMACACOS, virou piada por conta das quedas durante a Copa do Mundo em 2018 e foi rechaçado pela torcida do PSG por causa do seu desdém com o time e foi acusado (e absolvido) em um caso de estupro. Essa coleção de polêmicas fez com que parte da população brasileira não desse mais crédito ao jogador.

Se reconhecer como negro

Neymar, aos 18 anos, ainda não se reconhecia negro, assim como relata em depoimento dado a coluna da Sonia Racy, no jornal Estado em 2010. Pois bem, se reconhecer negro é algo quem vem antes da sua própria existência e depende de diversos fatores, como, família, aceitação de afrodescendentes no meio social, religião e processo educacional.

O problema é que o Brasil sempre colocou a imagem de pessoas negras como negativa em perfis estéticos, comportamentais e econômico. Os negros que nasceram na década de 1990 só estão vendo sua imagem sendo valorizada há pouco tempo.

Não havia negros na mídia e na publicidade brasileiras, como protagonistas de novelas, como jornalistas, comentaristas, gestores e presidentes.

Entendendo que a televisão era a fonte de visibilidade e reconhecimento, não fazer parte dela colocou a população negra na invisibilidade.

O racismo, em termos mercadológicos, fez com que muitos homens e mulheres pretos de sucesso tentassem se afastar de si mesmo, justamente por entender, na época, que sucesso é branco, não negro.

Em busca de "aceitação", pessoas pretas acabam apelando para algumas mutilações estéticas, como alisar o cabelo, clarear a pele, não tomar sol, fazer cirurgias no nariz. Também fazem parte do processo de "aceitação" do negro em uma sociedade racista não criticar, não se posicionar, sempre obedecer, optar por relacionamentos inter-racial (não por desejo e afeto, mas por status , se vestir como europeu, comer como europeu e absorver a branquitude dentro de um corpo preto. É daí que vem a expressão preto de alma branca.

Dentro de todo esse espectro e, apesar de um amadurecimento tardio e de parte do prestígio abalado, Neymar ainda pode ser sim uma potente voz no combate ao racismo.

Primeiro porque ele ocupa o topo da cadeia econômica; segundo porque sua visibilidade é global e terceiro porque seria muito importante tê-lo como aliado para motivar mais atletas jovens a terem coragem de se posicionar.

Imaginem se Neymar faz como Michael Jordan e passa a investir em causas antirracista no Brasil. Um único patrocinador dele durante o pagamento do mês seria o maior investimento da luta antirracista em tempos atuais.

Casos em que Neymar foi vítima de racismo

Em 2013 jogando pelo Santos, Neymar acusou o técnico do Ituano Roberto Fonseca de racismo.

Em 2014, quando estava no Barcelona, Neymar e Daniel Alves foram vítimas de racismo na final da Copa Del rei contra o Real Madri.

Em 2016, ainda com a camisa do Barça, a torcida do Espanyol repetiu a palavra "macaco" para Neymar e jogou bananas no campo.

Todos esses jogos foram televisionados e, em nenhum dos casos, os agressores foram punidos. Neymar sofreu racismo em todos os times que jogou em três países diferentes.

Para Neymar, desejo sucesso e, se possível, que ele amadureça ainda mais e torne-se um aliado na luta antirracista, porque, com racismo, não existe democracia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.