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Adeus a Chadwick Boseman: a origem dos Panteras Negras nas artes marciais

Chadwick Boseman em cena de "Pantera Negra" - Marvel Studios 2018
Chadwick Boseman em cena de "Pantera Negra" Imagem: Marvel Studios 2018
Diogo Silva

Diogo Silva foi campeão mundial universitário, medalhista de ouro dos Jogos Pan-Americanos e participou dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 e Londres-2012 no taekwondo. Hoje, faz parte do grupo de rap Senzala Hi-Tech.

02/09/2020 04h00

A morte do ator Chadwik Boseman, de 42 anos, foi extremamente impactante para a população negra do mundo. Apesar de apresentar sinais de debilidade física, não sabíamos que ele lutava contra um câncer no colón desde 2016. Gravando nove filmes entre seções de quimioterapia e cirurgias, nos últimos quatro anos ele demonstrou que, de fato, era um super-herói.

Chadwik resgatou o orgulho negro ao interpretar T´Challa, rei-guerreiro de Wakanda no filme Pantera Negra. O universo do Pantera Negra veio para quebrar argumentos racistas que diziam que negros na televisão e no cinema não vendiam. O filme bateu recordes de bilheteria, arrecadou 1,34 bilhão de dólares, recebeu sete indicações ao Oscar e foi o segundo filme mais visto em 2018.

Boseman também iria interpretar a história de Yasuke, primeiro afro-samurai do império japonês. Yasuke era de origem africana e serviu sob o daimyo japonês Oda Nobunaga no período Sengoku. Ele chegou ao Japão em 1579, a serviço do missionário jesuíta italiano Alessandro Valignano, como homem escravizado. Por suas habilidades, o africano de origem não identificada chamou a atenção do imperador, que lhe concedeu a honraria de ser samurai e defender a família imperial — no Brasil, a história de Yasuke também serviu de inspiração nas passarelas do São Paulo Fashion Week de 2016 na coleção da LAB (laboratório fantasma) do cantor, compositor e empresário Emicida.

Cofundadores do Partido dos Panteras Negras  - AP - AP
Da esquerda para a direita, Huey Newton e Bobby Huey Newton, cofundadores do Partido dos Panteras Negras
Imagem: AP

Ao interpretar T´Challa, Boseman também colocou em evidência o partido político dos Panteras Negras. Em sua origem, foi uma organização política criada na década de 60 para lutar contra o racismo nos Estados Unidos. Seus membros defendiam a comunidade da violência policial nas periferias com patrulhas armadas, alimentavam as crianças comunidade com café da manhã gratuitamente e ofertavam acesso a serviços de saúde para comunidade negra, serviços que até hoje não é acessível de forma gratuita por lá.

Além disso, tinham projetos de educação afro-centrada e não europeia —e, por fim, praticavam artes marciais. O Movimento Negro Americano entendeu que era uma forma autodefesa, já que o estado utilizava a polícia como braço forte para ampliar sua ideologia de segregação e impedir do avanço dos direitos humanos para um povo socialmente desassistido e vulnerável. A população afro-americana precisava aprender a proteger a si mesmo e seu próprio território.

"Voz Ativa'', música dos Racionais de 1992, foi regravada por Dexter, Djonga, Coruja bc1, DJ Kljay e DJ Will em neste ano. É inspirada no movimento dos Panteras Negras. Mano Brow, na versão original, diz "gostamos de nós, brigamos por nós". É a ideia de autodefesa, entendendo que a violência nas periferias brasileiras é a mesma que acontece nos Estados Unidos.

O estrangulamento, conhecido no MMA como mata leão, é uma técnica de arte marcial ensinada em aulas de jiu-jitsu e também em batalhões de polícia no Brasil e no mundo. É a técnica marcial mais utilizada no meio militar. O problema é que ela atinge o pescoço, um ponto vital, provoca asfixia, pode levar a perda de consciência e à morte.

O hapikido, luta coreana de torções, e o krav maga, luta israelense para confrontos de guerra altamente letal, são utilizados também em treinos militares. Quando a polícia não utiliza o estrangulamento, age em grupo, com chutes, socos e cassetetes. Antigamente, nós chamávamos essa violência em grupo de movimento de gangue. Agora, quando usam fardas, que nome devemos dar?

Quando esse sistema de ataque é utilizado no inimigo em guerra ou contra pessoas armadas e perigosas, tudo bem, é legitima defesa. A polícia precisa saber se defender para resguardar sua vida e estar pronta para o confronto.

Quando é utilizada na população que não sabe se defender, em mulheres, adolescentes e homens desarmados e sem nenhuma resistência, é uma grande covardia. Foi o caso de George Floyd nos Estados Unidos e na comerciante da zona sul de São Paulo que, por proteção e medo de morte pela própria polícia prefere não se identificar.

Sendo assim, os Panteras, em suas comunidades, passaram a treinar ninjitso, uma luta japonesa dos tempos dos samurais, e kung-fu, uma luta chinesa. Dessa forma, estimulavam nas pessoas a autodefesa, a consciência corporal, a agilidade, a destreza, a educação alimentar, a intelectualidade, a meditação e o primordial: aprender a salvar suas vidas.

Quando o filme Pantera Negra foi lançado em 2018, parecia que pela primeira vez estávamos vendo atores e atrizes afrodescendentes em filmes de ação. Na verdade, outros filmes já tinham sido protagonizados por pessoas negras, mas com alcance menor.

"O último dragão", de 1985, por exemplo, foi um dos pioneiros na transmissão para o Brasil das artes marciais com protagonistas negros. O protagonista se chamava Leroy e era interpretado por Taimak, um dublê e praticante de artes marciais. Ele era o Chadwik Boseman da década de 80.

A população negra sempre foi amante de artes marciais, mas não interpretava protagonistas. Eram sempre vilões (em "O último dragão, por exemplo, o posto era de Sho´nuff, interpretado por Julius Carry), figurantes de metralhadoras nas mãos, homens sanguinários com facões. Sempre personagens caricatos e estereotipados.

Primeira aparição de Pantera Negra - Marvel/Reprodução - Marvel/Reprodução
A primeira aparição de Pantera Negra
Imagem: Marvel/Reprodução

A história do personagem Pantera Negra vira quadrinhos nos anos 1960 quase que ao mesmo tempo em que o partido dos Panteras nasce. O personagem foi criado pela dupla Stan Lee e Jack Kirby, os responsáveis por Quarteto Fantástico, X-Men e Hulk, e apareceu na edição 52 (julho de 1966) do Quarteto Fantástico.

Em 1992, quando começava a se solidificar como astro em Hollywood com o lançamento de Homens Brancos Não Sabem Enterrar e Passageiro 57, Wesley Snipes recebeu o convite para interpretar o Pantera. Acabou não rolando e o projeto ficou engavetado por mais de 20 anos, até a que a oportunidade surgiu para Boseman.

A pantera é um felino que enxerga à noite, se camufla no escuro, sobe em árvores, nada, corre e é raramente vista. É letal. Para trazer o animal ao corpo humano, um ator precisava ser ágil como um gato preto e ter múltiplas habilidades. Boseman treinou com Marrese Crump, coreógrafo e preparador de dublês e atores de Hollywood. E praticante de ninjitso. Chadwik já treinava a arte marcial e aprendeu mais rápido os movimentos de luta e as múltiplas habilidades exigidas pelo personagem.

O filme carrega referências a inúmeras artes marciais. Aparecem movimentos do ninjitso (Japão), nas técnicas de defesa e ataque de mãos e pernas, do jiu-jitsu (Japão e Brasil), nos estrangulamentos, do muay thai (Tailândia), nas joelhadas e cotoveladas, da capoeira (África e Brasil), na mobilidade e jogo de pernas, do taekwondo (Coréia), no aprimoramento dos chutes, das lutas de bastões do povo Zulu (África do Sul) e das artes mistas do povo Núbio (que hoje é conhecido como Sudão), que fizeram parte da 25ª dinastia do império egípcio, há mais de quatro mil anos.

Pantera Negra, além de ter sido um filme de ação, foi a luz na autoestima das crianças e adultos negros que, na imagem de Chadwik Boseman, renovaram sua autoconfiança, vendo-se como heróis, inteligentes, bonitos, habilidosos e com muito estilo —já que o figurino do filme é de provocar inveja.

A partida precoce de Chadwik Boseman deixará uma saudade imensa. Pelo brilhante ator que era e pela pessoa humilde e comprometida que se tornou. Que Wakanda esteja em você, assim como ela está em nós. E que seu legado seja trilhado por nossas crianças!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.