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Diego Garcia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

França e UEFA dão show de horrores em um dos maiores vexames da Champions

Diego Garcia

Repórter desde 2010, passou por Folha de S. Paulo, ESPN, Terra e Placar. Ganhou dois prêmios Aceesp (2014 e 2016) e foi indicado aos prêmios Comunique-se (2019), República (2017, 2018 e 2021), Folha (2018 e 2019) e Fenacor (2020). Cobriu Copa do Mundo, Olimpíadas, Mundial de Clubes e outros grandes eventos. Contato: garciadiegosilva@gmail.com

Colunista do UOL

29/05/2022 11h25

A UEFA e a França deram um show de desorganização e ineficiência na noite deste sábado, quando o Real Madrid venceu o Liverpool por 1 a 0 e se consagrou campeão da Liga dos Campeões da Europa pela 14ª vez.

Após os lamentáveis eventos deste sábado, foi possível constatar que a cidade simplesmente não estava preparada para receber um evento deste tamanho: apenas a maior final europeia de futebol dos últimos anos.

Vejam bem, quando Liverpool e Real Madrid decidiram a Champions pela última vez, em 2018, o jogo foi na fria e distante Kiev. A milhares de quilômetros de ingleses e espanhóis, que não puderam comparecer em peso.

Desta vez, porém, Paris fica literalmente ao lado de ambos. Tratam-se de duas das maiores torcidas não só da Europa, mas do mundo. E de times tradicionais, repletos de fanáticos, multicampeões.

Isso refletiu no maior vexame de uma final de Champions nos últimos anos, o atraso de 40 minutos para início da decisão. Culpa da incompetência dos franceses na condução do espetáculo.

Desde o lado de fora, já era possível ver diversos torcedores burlando o sistema de segurança, passando sem ingresso pela zona limite que dava acesso às áreas próximas ao estádio para tentar a sorte na entrada.

Já na parte interna dessa região, muitos pediam ingressos, tentavam comprar de outros torcedores e buscavam alguma maneira de ingressar na partida. Sendo que, ali, nas ruas grudadas ao Stade de France, pessoas sem tickets sequer poderiam estar.

Fossem os franceses mais severos, isso teria sido coibido bem antes, já que a fiscalização ficava bem distante dos portões de acesso às arquibancadas. Para chegarem a elas, os torcedores precisavam passar por ao menos duas grades enormes ou barreiras de proteção que cercavam todo o complexo esportivo.

Sem o controle devido, o movimento de pessoas explodiu, já que muitos tentavam - e, em alguns casos, conseguiam - entrar sem ingresso após o primeiro bloqueio. Assim, gerou um caos natural na fila, o que atrasou a entrada dos ingleses.

Aqui, é preciso dar o contexto de que circulou uma informação de 70 mil torcedores do Liverpool em Paris. Não há como se confirmar esse número, mas é fato que eram imensa maioria nas arquibancadas. E que milhares ficaram do lado de fora da arena.

liverpool - REUTERS - REUTERS
Torcedores do Liverpool na fan zone para acompanhar a final da Liga dos Campeões
Imagem: REUTERS

Então, diante da iminência do jogo, e com muitos torcedores que compraram ingresso ainda do lado de fora, a paciência se esgotou. Tentaram forçar a entrada, pularam os muros e o caos se instalou.

A polícia, despreparada, então, em vez de se reforçar para evitar invasões, resolveu agredir os torcedores que estavam para fora - e com ingressos! A pancadaria comeu solta e o gás de pimenta foi lançado pela primeira vez.

Assim, com a segurança ameaçada após a entrada irregular de dezenas, fora o ambiente de tensão do lado de fora, a partida foi adiada pela primeira vez por 15 minutos.

Mas o movimento não diminuiu. Revoltados, os torcedores xingavam os policiais e pediam apoio da imprensa. Enquanto conversavam com os jornalistas, a segunda rodada de spray foi lançada - e aí atingindo os repórteres presentes, incluindo este colunista.

A partir daí, focos de correria entre policiais e ingleses passaram a acontecer em todas as partes dos arredores do Stade de France. Os policiais eram tão despreparados que conseguiam atingir a si próprios com seus gases de pimenta.

Parecia mais uma rodada de Libertadores qualquer, não a final do principal torneio da Europa.

Após 40 minutos de atraso, o jogo começou, mas a situação continuava ruim do lado de fora, cheio de ingleses sem conseguir entrar, mesmo com ingresso comprado. E os franceses não conseguiam se organizar.

Durante o jogo, não foi diferente. No intervalo, em um setor ao lado do gramado, presenciei ao menos mais 40 torcedores forçando a entrada. Assim, foi possível ver diversas pessoas abarrotadas em pé nas escadarias, já que não possuíam cadeiras.

A desorganização continuou após o fim da partida. Jornalistas que ficaram até mais tarde para a cobertura das coletivas de imprensa e entrevistas nas zonas mistas com os jogadores passaram maus bocados para irem embora do Stade de France.

Não havia mais trens ou transporte público. Já carros de aplicativo não aceitavam as corridas pelo histórico caótico na saída das partidas. Alguns foram embora a pé, mas outros voltaram acuados, com receio de roubos - que, por sinal, aconteceram aos montes nos arredores do estádio antes do jogo, segundo relatos.

Para quem não conhece, a região onde fica o estádio é bem perigosa. Na véspera, por exemplo, um jornalista brasileiro ficou receoso com a abordagem de dois locais e por pouco não sofreu um assalto. Foi quando descobrimos que não é recomendável andar pela região à noite.

Para efeito de comparação, imaginem um jornalista gringo que vem cobrir uma partida de Libertadores em uma noite em Itaquera, na Neo Química Arena. Sem falar português, o profissional não consegue transporte para ir embora e precisa ir a pé, de madrugada, andando quilômetros sozinho nas redondezas do estádio corintiano.

Ou, pensando em um contexto carioca, fazendo o mesmo após deixar São Januário, caminhando até a Zona Sul do Rio.

Complicado, né?

E a França ainda vai organizar os próximos Jogos Olímpicos?