PUBLICIDADE
Topo

Liga dos Campeões - 2021/2022

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Autor de 'livro proibido' do Real diz que Florentino é chefão da máfia

Diego Garcia

Repórter desde 2010, passou por Folha de S. Paulo, ESPN, Terra e Placar. Ganhou dois prêmios Aceesp (2014 e 2016) e foi indicado aos prêmios Comunique-se (2019), República (2017, 2018 e 2021), Folha (2018 e 2019) e Fenacor (2020). Cobriu Copa do Mundo, Olimpíadas, Mundial de Clubes e outros grandes eventos. Contato: garciadiegosilva@gmail.com

colunista do UOL, direto de Paris (FRA)*

27/05/2022 08h44Atualizada em 27/05/2022 10h23

com Bruno Andrade, colunista do UOL

O jornalista Fonsi Loaiza sacudiu Madri e toda a Espanha neste ano, após publicar seu livro "Florentino Pérez, o poder do palco". A obra traz revelações sobre como o presidente do Real Madrid desde o ano 2000, Florentino Pérez, construiu um império utilizando clube.

Dono de um patrimônio milionário, baseado em uma empresa de concreto com mais de 100 filiais em paraísos fiscais, segundo Loaiza, Pérez cresceu nos meandros da política espanhola por trás de tramas de corrupção, nos moldes de um chefão da máfia.

Em 192 páginas, Fonsi conta como Florentino passou de uma construtora falida e empregado de uma família a dono do controle de todos os tipos de negócios no país, publicos ou privados, multiplicando sua fortuna desde que chegou ao Real Madrid, se utilizando do privilégio concedido por dirigir o clube.

Em entrevista à coluna, o jornalista conta como o livro virou "proibido" na Espanha, sendo ignorado pelos grandes veículos - que são, indiretamente, segundo o jornalista, controlados pelo presidente do Real Madrid - e explica em detalhes o império de dinheiro e influência construído por Florentino Pérez nos últimos 22 anos.

Com Pérez no poder, o Real conquistou seis Liga dos Campeões da Europa nos últimos 22 anos, alem de 4 Supercopas, 4 Mundiais de Clubes e 8 Campeonatos Espanhois. E disputa, neste sábado, mais uma final do principal torneio da Europa, contra o Liverpool, em Paris.

Confira, a seguir, a entrevista:

Você pode começar falando um pouco sobre você para os leitores brasileiros que não te conhecem?

- Sou um jornalista que teve que deixar a mídia estabelecida na Espanha devido à censura que existe. Graças às redes sociais, mídia alternativa e estudo acadêmico, consegui criar um nicho para mim sem passar pelos aros das hierarquias e da ordem corrupta predominante.

O que o levou a escrever a peça?

- Fazia muito tempo que estudava a figura de Florentino Pérez. Como jornalista esportivo, observei que havíamos deixado de fazer nosso trabalho, que é monitorar os poderosos e tornar os torcedores mais cultos. Os jornalistas esportivos com o show e o show querem que os fãs fiquem no escuro, sejam ignorantes para que aqueles que estão nos camarotes tenham um bar aberto para seus delitos.

Você pode dar um breve resumo do que trata o livro?

- Trata-se de como Florentino Pérez se torna a pessoa mais poderosa da Espanha graças à caixa do Bernabéu, apesar de quando aparece na política ser o secretário-geral da democracia menos votado. É assim que funciona o sistema capitalista na Espanha, aqueles que não concorrem ao governo eleitoral. Na caixa do Bernabéu, as decisões empresariais mais importantes são tomadas numa espécie de La Escopeta Nacional como no regime de Franco.

O livro deve ser vendido fora da Europa?

- Espero que sim. Ele é um dos homens mais poderosos, pois sua empresa opera em muitos países e conseguiu tecer uma rede que vai muito além da Espanha. Por exemplo, nos EUA construíram o maior estádio do mundo. Ele transformou o Real Madrid em uma espécie de Hollywood com as turnês e assim sua construtora ganha os contratos já que os presidentes e chefes de estado se reúnem com ele antes do presidente da Espanha.

Você sofreu algum tipo de pressão no processo de apuração?

- Sempre há pressões quando se trata de um personagem tão nocivo à democracia como Florentino e que também é muito invasivo. Ele liga para os jornalistas até para legendas de fotos que não gosta. Ele quer tudo sob controle. Se algum jornalista critica sua gestão, isso tem consequências e é retirado da informação do Real Madrid ou vetado em coletivas de imprensa.

O que mais pode ser dito sobre a influência atual de Pérez não apenas no futebol mundial, mas em toda a política espanhola?

- Ele é o chefe que domina a Espanha com meios mafiosos. Ele financia os dois principais partidos, como PSOE e PP, por meio de sua fundação. Quando foi chamado a depor em um complô de corrupção e o juiz lhe perguntou se lhe havia pedido dinheiro para financiar o PP (Partido Popular), ele respondeu como se fosse um chefe da máfia siciliana e lhe disse que a pergunta o incomodava e que se eles soubessem ele eles não se atreveriam a fazê-lo.

Como o poder exercido por Pérez em todas as camadas da sociedade contribuiu para a manutenção do Real Madrid como o melhor time da Europa e do mundo?

- Florentino Pérez quer chegar a todos os pontos com a força do Real Madrid, por isso dá tanta importância ao fato de que ninguém pode se candidatar a não ser. Ele teme a democracia e o jornalismo independente. Por isso, ele precisa enlamear tudo com mídia falsa como o Okdiario de Eduardo Inda, ligado aos Esgotos do Estado na Espanha, e que foi nomeado diretor de Brand por Florentino e realizou uma campanha de difamação brutal, orquestrada contra Pellegrini.

Como o Bernabéu foi usado como fonte de poder para Pérez e exercendo influência até mesmo no congresso espanhol?
- No camarote do Bernabéu estão os diretores da mídia, os juízes e promotores, os políticos e o poder econômico conhecido na Espanha como Ibex35. Muitos dos políticos acabam em portas giratórias em sua empresa ou no Real Madrid. Os políticos estão de passagem, mas o dono da fazenda é Florentino e outros empresários que também saqueiam dinheiro público porque está acontecendo a farsa de socializar perdas e privatizar lucros.

Como você avalia o desempenho da imprensa espanhola, que ignorou as informações contidas em seu livro?

- Na Espanha meu livro é proibido na mídia impressa. Saiu em outros países, França, Argentina, Chile, mas há um silêncio ensurdecedor na mídia espanhola. É o livro mais vendido de jornalismo e eles nem recebem resenha. Na verdade, é porque o livro os aponta como parte culpada e essencial do poder que Florentino obteve. Seria impensável sem a aquiescência e as campanhas orquestradas pelo poder midiático.

Como Pérez reagiu ao perceber que o livro foi publicado com tanta informação?

- Disseram-me que seus advogados já o leram várias vezes. Ele não acha que sim. Tudo o que digo é verificável e com todas as fontes. A medida era que houvesse silêncio sobre o assunto e que ele não aparecesse na mídia. No entanto, já está em sua quarta edição e não conseguiu silenciá-la. Vamos ver se ele não toma outras medidas. Na Espanha, a liberdade de expressão está sendo limitada e até um rapper está preso por cantar contra o rei ladrão Juan Carlos I.

Que segredos sobre Pérez descobriu em sua investigação?

- Muitas coisas que conto sobre Florentino já eram conhecidas. Como com Juan Carlos I e seu dinheiro em preto. Os jornalistas conhecem seus delitos e contam a você quando não estão na mídia. Esse é o problema. Eles não ousam contar. Juan Carlos I e Florentino desfrutam. de impunidade. Eles são invioláveis.

Por fim, o que mais você pode acrescentar sobre o livro e Pérez para o leitor brasileiro?

- Florentino Pérez está entrando muito no mercado de futebolistas brasileiros. Ele não pode mais competir por grandes jogadores galácticos como Mbappé. Antes as contratações foram financiadas por Miguel Blesa da Caja Madrid e Bankia, que se suicidou em 2017 e que disse que o que mais o afetou foi que ele foi retirado da caixa do Bernabéu quando foi julgado por cartões pretos. Ele que financiou as contratações de Figo ou CR7. Seria interessante estudar e rastrear o dinheiro por trás dessas transferências no Brasil com Juni Calafat e sua fundação.

*O colunista viajou para cobrir a final da Champions League em Paris a convite da HBO Max, que transmite o evento.

O UOL pode receber uma parcela das vendas pelos links recomendados neste conteúdo.