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Diego Garcia

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sucessão de erros levou ao Brasil x Argentina mais patético da história

Diego Garcia

Repórter desde 2010, passou por Folha de S. Paulo, ESPN, Terra e Placar. Ganhou dois prêmios Aceesp (2014 e 2016) e foi indicado aos prêmios Comunique-se (2019), República (2017, 2018 e 2021), Folha (2018 e 2019) e Fenacor (2020). Cobriu Copa do Mundo, Olimpíadas, Mundial de Clubes e outros grandes eventos. Contato: garciadiegosilva@gmail.com

Colunista do UOL

06/09/2021 04h11

Uma sucessão de erros levou ao Brasil x Argentina mais patético da história. E tudo começou na sexta-feira (3), quando a delegação de jogadores argentinos desembarcou no Brasil.

Será que ninguém ali se perguntou se os atletas que jogam na Premier League - dois do Aston Villa e dois do Tottenham - poderiam de fato estar entrando aqui? Ou quem faz o controle de ingresso no país desconhece a lei?

E essa seria só a primeira de muitas falhas cometidas nos último dias. Elas começaram, por sinal, com o fato de a declaração dos atletas dizer que não vieram de nenhum dos países aos quais a quarentena de 14 dias seria obrigatória.

Depois, continuaram na demora em agir das autoridades brasileiras, até as tentativas de acertos dos ridículos cartolas brasileiros à consequente investigação e conclusão da falha. A Anvisa só determinou a expulsão dos quatro atletas no domingo (5), depois do meio-dia, a pouco mais de 3h para o jogo. Mesmo assim, o "papelão mundial", como definiu o Olé, foi feito. Os jogadores são o goleiro Emiliano Martínez, o zagueiro Cristian Romero, o volante Lo Celso e o meia Emiliano Buendía.

A Polícia Federal, segundo consta, foi ao hotel da Argentina antes do jogo, mas a informação é que faltava algum parecer da Anvisa para uma atitude concreta. E a vigilância sanitária só o fez após a bola rolar no estádio do Corinthians. Tiveram um dia inteiro para abordar os jogadores e o fazem quando os times estão dentro de campo, com transmissão em rede nacional? Estranho.

Antes disso, claro, vale citar o festival de "jeitinho brasileiro" que mais dá vergonha do que outra coisa. A CBF teve a capacidade de negociar com o governo brasileiro a participação dos atletas na partida. Fontes da Conmebol apontam para um acerto com o Ministério da Saúde, à revelia da Anvisa. E até que a Casa Civil chegou a topar - o ministro Ciro Nogueira foi perguntado sobre o fato pela coluna e se calou.

A Conmebol, por sua vez, tentou se isentar de culpa, mas a verdade é que, por debaixo dos panos, se defendia por um suposto acordo feito com os 10 países do continente para a realização dos campeonatos. Alguém nos mostre algum documento que confirme tal acerto, fazendo o favor? E também onde está escrito que o mesmo está acima das leis dos países.

Pior, a CBF quis culpar a Anvisa pelo imbróglio. Chegou a dizer que teve o aval da entidade para continuar. Por favor, senhor presidente da confederação, nos diga qual foi o nome e o cargo da pessoa que autorizou a realização da partida, como diz. Caso contrário, não me venha mais com desculpas. Ninguém mais aguenta a CBF e a seleção brasileira.

Por fim, enquanto tudo isso acontecia, argentinos se trancavam no vestiário para despistar agentes da Anvisa e entravam em campo ignorando a maior autoridade sanitária do país. Um absurdo sem tamanho. Mas, convenhamos, estava mais do que na hora de alguém mostrar para o mundo que o Brasil não é terra de ninguém - apesar de Bolsonaro nos dizer o contrário todos os dias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL