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Diego Garcia

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Caboclo usou avião da CBF para viagem de sua advogada em caso de assédio

Rogério Caboclo, presidente afastado da CBF - Lucas Figueiredo/CBF
Rogério Caboclo, presidente afastado da CBF Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
Diego Garcia

Repórter desde 2010, passou por Folha de S. Paulo, ESPN, Terra e Placar. Ganhou dois prêmios Aceesp (2014 e 2016) e foi indicado aos prêmios Comunique-se (2019), República (2017, 2018 e 2021), Folha (2018 e 2019) e Fenacor (2020). Cobriu Copa do Mundo, Olimpíadas, Mundial de Clubes e outros grandes eventos. Contato: garciadiegosilva@gmail.com

Colunista do UOL

19/07/2021 04h00

O presidente afastado da CBF, Rogério Caboclo, utilizou o avião da entidade para voos relativos a assuntos pessoais. Isso aconteceu pelo menos uma vez, quando orientou que a tripulação da aeronave buscasse uma advogada em uma ponte aérea Rio-São Paulo para tratar das acusações de assédio sofridas pelo cartola por parte de uma funcionária.

No dia 29 de maio, Caboclo mandou o avião com os tripulantes contratados pela CBF buscar a advogada Fernanda Tortima, que hoje o defende no caso. Na ocasião, foi a primeira vez que eles tiveram contato. A primeira matéria sobre o tema saiu no dia 4 de junho, revelada pelo Globoesporte.com, no dia em que a denúncia foi formalizada pela funcionária.

O assunto, entretanto, já era de conhecimento de funcionários da CBF e jornalistas pelo menos desde abril. Planilha vista pela coluna mostra que o avião fez a ponte aérea com a advogada e mais dois tripulantes da aeronave, funcionários da confederação, seis dias antes. A profissional da área criminal confirmou à coluna a viagem e afirmou que não foi informada que era um avião da entidade.

"Recebi em um sábado ligação do presidente da CBF, então ainda no exercício de suas funções, para uma reunião de urgência, que deveria ser realizada no dia seguinte e que diria respeito a determinada crise em curso na entidade. Era a primeira vez que eu tinha contato com Rogério Caboclo, que, na ocasião, me informou apenas que disponibilizaria uma aeronave para a minha locomoção", disse Tortima.

Ela apontou que apenas tomou conhecimento acerca de detalhes do tema somente durante a reunião, mas disse tratar-se de conversa sobre crise no âmbito da entidade.

"Ainda não estava envolvida na defesa de Rogério Caboclo, mesmo porque ainda não havia defesa a ser feita, já que não havia sido apresentada denúncia contra ele até aquele momento. Como dito, tratava-se apenas de conversa sobre uma crise no âmbito da entidade, e não ainda de sua defesa pessoal", afirmou.

Caboclo, por sua vez, afirmou que não cometeu nenhuma irregularidade quanto ao uso do avião da entidade. "A reunião com a advogada em questão dizia respeito a assuntos da presidência da confederação", disse o dirigente. Ele acredita que a divulgação do que chamou de "pseudo-denúncias" contra ele "deixa evidente a tentativa de justificar, mais uma vez, seu ilegítimo afastamento".

O departamento jurídico da CBF afirmou que a advogada jamais exerceu ou prestou qualquer serviço ou assistência jurídica a qualquer tema relativo à entidade e desafiou que seja apresentado algum documento que a vincule a qualquer tema da confederação. Acrescentou que sua ida até a sede só pode se justificar por razões pessoais do presidente afastado.

As planilhas de voo são parte de auditorias internas que vem sendo realizadas pela confederação com o objetivo de colaborar com a Comissão de Ética, que afastou Caboclo do cargo por 90 dias. Entre os levantamentos feitos, foi realizado um pente fino nos voos da aeronave oficial da entidade, que fica à disposição dos dirigentes. Por isso, é utilizada há tempos pelos cartolas, atuais e antigos.

No caso do voo para a defesa pessoal de Caboclo, o preço do fretamento particular do tipo, com ponte aérea Rio-São Paulo, seria de cerca de R$ 50 mil no mercado de aviões privados. Como a aeronave pertence à CBF, o dirigente não gastou nada do seu bolso.

O caso é considerado por fontes ligadas à confederação um elemento a mais para reforçar o afastamento de Caboclo, pois mostra que ele teria utilizado recursos da própria entidade para se defender de uma acusação que culminou com seu afastamento da presidência da CBF. Restituído ao cargo, poderia seguir com a prática.

Caboclo ainda se defende das denúncias de assédio sexual e moral e tenta retornar à CBF. No fim de semana, ele divulgou vídeos em que acusa Marco Polo Del Nero, ex-presidente da entidade, de "espionagem, chantagem e tentativa de golpe". Antes aliados, os cartolas estão em lados opostos atualmente.

Áudios publicados pelo "Fantástico" mostram Caboclo questionando uma funcionária se ela "se masturba" e se "está dividida" entre dois funcionários. Caboclo está afastado da presidência da entidade desde o início do mês passado após determinação da Comissão de Ética do Futebol.

Em entrevista à ESPN realizada à época do vazamento das denúncias, Rogério Caboclo se defendeu das acusações de assédio, afirmou que provará sua inocência e que voltará ao cargo. Com o espaço vago, Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes, que é o vice-presidente mais velho, retornou ao posto.