PUBLICIDADE
Topo

Diego Garcia

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Após briga, Santos mudou multa de time parceiro de R$ 5 mil para R$ 450 mil

Diego Garcia

Repórter desde 2010, passou por Folha de S. Paulo, ESPN, Terra e Placar. Ganhou dois prêmios Aceesp (2014 e 2016) e foi indicado aos prêmios Comunique-se (2019), República (2017, 2018 e 2021), Folha (2018 e 2019) e Fenacor (2020). Cobriu Copa do Mundo, Olimpíadas, Mundial de Clubes e outros grandes eventos. Contato: garciadiegosilva@gmail.com

Colunista do UOL

07/06/2021 04h00

Com Thiago Braga, colaboração para o UOL

No fim de 2020, quando estava sob a gestão de Orlando Rollo, o Santos firmou novo contrato com o Tsunami, time de futebol americano parceiro do clube desde 2010, e ampliou a multa rescisória de R$ 5 mil para R$ 450 mil. Além disso, estipulou repasse mensal de R$ 25 mil, que não existia no vínculo anterior, a título de ajuda de custo.

A renovação aconteceu após o Tsunami ser alvo do que chama de "perseguição política" durante a presidência de José Carlos Peres, que estava rompido com Rollo. O imbróglio motivou uma briga na Justiça que hoje bloqueia R$ 385 mil das contas do Santos.

Os repasses previstos no contrato seriam não apenas ao time de futebol americano, mas também para atletas de levantamento de peso, futebol de amputados, futebol de mesa e luta olímpica. O Tsunami diz ter cerca de 150 esportistas e que os valores são usados para auxiliar as modalidades.

O novo contrato não pode ser rescindido sem multa de R$ 7,5 mil por cada mês que resta até o fim do acordo, válido até dezembro de 2025. Assim, passados os cinco primeiros meses após a renovação, uma parte teria de pagar R$ 412,5 mil para romper o vínculo com a outra.

Fontes da atual gestão do Santos ouvidas pela coluna ressaltam que o Tsunami é um parceiro tradicional, que honrou o nome do clube por 11 anos. Mesmo assim, questionam a renovação contratual em meio a uma disputa jurídica entre as partes. Eles consideram o documento abusivo e assinado de forma irresponsável.

Em parecer ao qual a coluna teve acesso, o acordo é mencionado pelo Conselho Fiscal do Santos, que chama a multa de "imotivada". O documento é um entre outros assinados pelo ex-presidente em seus últimos dias de mandato que vêm gerando polêmica na Vila Belmiro, com contestação da atual gestão.

Em defesa enviada ao clube, Rollo diz que os membros do Tsunami foram perseguidos politicamente pelo ex-presidente José Carlos Peres, o que causou as demandas na Justiça. Ele ainda afirma que o Conselho Fiscal usou de má-fé em insinuações sobre o acordo colocadas no parecer.

O ex-presidente se defendeu ao Conselho afirmando que a multa de R$ 450 mil seria de direito do Tsunami pela ação com trânsito em julgado. Ele diz que propôs o novo contrato para encerrar as demandas judiciais com determinações em desfavor ao clube, nas quais se previa o pagamento de multa ao Tsunami. Apesar dessa alegação, o processo que bloqueia as contas do Santos ainda existe.

Rollo chama o valor de R$ 450 mil de "simbólico", já que na visão dele não havia até então nenhuma indicação de rescisão contratual por ambas as partes. Ele afirma que não se fecha contrato com a motivação de rescisão e que o parceiro desenvolve modalidades olímpicas que eximem o Santos do pagamento de impostos municipais, como IPTU.

A proximidade de Rollo com o Tsunami existe há anos. Atleta da equipe no passado, ele foi homenageado em setembro do ano passado nas redes sociais do time. "Sinta-se abraçado pela Família Tsunami, a qual nunca deixou de fazer parte. Estamos orgulhosos do atleta, profissional e amigo que é", diz a postagem.

Tsunami diz sofrer por guerra política no Santos

O acordo foi assinado em 4 de dezembro, uma semana antes da eleição presidencial do Santos. O diretor do Tsunami é Rodrigo Galvão, presidente do grupo político Terceira Via, que teve Orlando Rollo como um dos fundadores. Ele diz que a relação com o clube se complicou quando Peres era presidente, por "birra política" entre o ex-presidente e Rollo, que era vice - ambos romperam no início da gestão.

"Eles (da diretoria do Santos) enxergavam como política, nós não. Nunca agimos assim. Eles sim, tentando atacar o Orlando", afirma. Ele diz que a equipe de futebol americano nunca teve relação com a política do clube e que a conexão começou pelo histórico de Rollo, que jogou pela equipe em 2008. Na gestão Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro, o time virou parceiro do Santos e continuou desde então, por 11 anos.

Porém, a relação degringolou em 2019, após Rollo romper com Peres. "Ficou uma situação surreal", diz Galvão, que acredita que o novo contrato veio para se evitar que as partes agissem politicamente. "Evita esse descumprimento unilateral e desleal, deixando o clube penhorado por um erro político. O contrato que ele [Rollo] assinou agiu assim", afirmou.

Antônio Soares, presidente do Tsunami, diz que o time tem hoje cerca de 150 atletas, entre futebol americano, levantamento de peso, luta olímpica e futebol de amputados, alguns tentando vaga na Paralimpíada. Ele diz que conversa com a diretoria e que chegou a abrir mão dos R$ 25 mil mensais, mas que não aceita retirar a multa.

"Que garantia ele [Andrés Rueda, atual presidente] me dá, se eu tiro a multa, de não me expulsar amanhã?", questiona. Soares afirma ainda que o Santos perdeu a data para contestar a decisão judicial e por isso sofreu o bloqueio de R$ 385 mil em suas contas. Segundo fontes do clube, a perda de prazo ocorreu durante o mandato de Rollo.

O ex-presidente José Carlos Peres disse que não iria comentar. Fontes próximas ao cartola dizem que Rollo já havia tentado um contrato com o Tsunami anteriormente, o que teria sido vetado, e que o time de futebol americano deixava o vestiário e o gramado do CT Meninos da Vila em péssimas condições - o Tsunami nega as acusações.

O ex-presidente Orlando Rollo foi procurado, mas não respondeu as mensagens nem atendeu à reportagem. A coluna será atualizada se o cartola quiser se manifestar. O Santos disse que não comenta processos judiciais e acrescentou estar negociando de boa-fé com os gestores do Tsunami.