PUBLICIDADE
Topo

Craque Daniel

Demasiadamente humano

Atletas do São Paulo vibram na eterna confusão entre acaso e merecimento - Bruno Ulivieri/AGIF
Atletas do São Paulo vibram na eterna confusão entre acaso e merecimento Imagem: Bruno Ulivieri/AGIF
Craque Daniel

Craque Daniel é apresentador do Falha de Cobertura, (supostamente) ex-jogador, empresário de atletas e inocentado de todas as acusações feitas contra ele. *Personagem interpretado por Daniel Furlan, um dos criadores da TV Quase, que exibe na internet o Falha de Cobertura e Choque de Cultura.

26/10/2020 04h00

O confronto entre São Paulo e Fortaleza, para além da emoção de eternas cobranças de pênaltis, colocava o técnico Rogério Ceni em um dilema raro no futebol: já virtualmente contratado para o Tricolor em 2021, o treinador se via em uma situação em que classificar sua equipe atual rumo à vaga na Libertadores significaria eliminar sua futura equipe da mesma vaga.

E todos sabem que quando estamos diante de um dilema, o melhor a fazer é jogar totalmente nas mãos do acaso, e foi o que aconteceu. Após a loteria dos pênaltis, deu São Paulo nas quartas, e Rogério ainda podendo sonhar em ano que vem assumir um São Paulo classificado para a Libertadores. Parabéns ao técnico.

Destaque da Semana: VAR, o árbitro metafísico

Mas o destaque da semana não poderia deixar de ser ele, o VAR. Em mais uma semana de polêmicas, inclusive envolvendo o próprio São Paulo, o óbvio continua pegando o Brasil de surpresa: o árbitro de vídeo, apesar de uma máquina, é operado, interpretado e validado por outros seres humanos. Em outras palavras, no fim das contas são mais árbitros para errar, polemizar e atrasar o espetáculo já deprimente que é o futebol em 2020.

O entusiasmo prematuro de muitos quando a possibilidade surgiu sempre esteve fadado à decepção assim que se chocasse com o aspecto fundamentalmente (e demasiadamente) humano da engrenagem. E os recentes acontecimentos no futebol parecem decretar aos poucos o fim da inocência sobre o VAR, que na perpétua mesa de botequim que é o nosso debate futebolístico, era visto quase que como um robô alienígena que viria voando do futuro salvar o futebol de nós mesmos.

Há quem siga confiante de que a tecnologia traga uma esperança para o futebol maior do que podemos esperar de simplesmente câmeras monitoradas por outros árbitros, embora tudo indique que é muito pouco provável. Especialmente se tivermos em mente os comentaristas de arbitragem, que destilam seus raciocínios confusos e frequentemente equivocados nas climatizadas cabines das emissoras de TV. E olha que esses foram os melhores profissionais disponíveis quando atuavam em campo. Pois é.

Enquanto a nova alegria do gol se tornou o medo pela sua anulação, o grande momento do futebol vai se revelando uma espécie de pegadinha ao contrário: em vez de uma situação de tensão que no fim revela-se uma grande brincadeira na busca por audiência, é a felicidade que é subitamente suspensa para dar lugar a uma descarga de depressão e ansiedade. Quem tem orgasmos chorando sabe muito bem do que estou falando.

Quando o grupo Katinguelê entra em um avião sequestrado por um piloto embriagado, nós precisamos que esse piloto revele, mais cedo ou mais tarde, ser o Gugu Liberato caracterizado e que vai ficar tudo bem. Esse é o pilar que sustenta todo o entretenimento brasileiro. O gol anulado pela mão invisível do VAR é o contrário de tudo o que faz sentido do ponto de vista não só esportivo, mas também televisivo - e o futebol pandêmico é mais do que nunca um evento televisivo.

É como se o grupo Katinguelê fosse participar da Banheira do Gugu, e em dado momento fosse revelado que a banheira está localizada no interior de um avião sequestrado por um piloto embriagado, piloto esse que estava o tempo todo fantasiado do apresentador Gugu. Não faria sentido, e tudo o que entendemos como realidade começaria a ruir diante dos nossos olhos, enquanto nossas mentes entrariam nas raias da loucura.

Do ponto de vista do torcedor que vê seu time sofrer um tento, há quem diga (no caso fui eu quem disse, esse é um daqueles momentos em que eu cito eu mesmo) que um VAR bem marcado é mais bonito que um gol. Mas assim como o VAR revisa o árbitro, a comissão de arbitragem revisa o VAR, nos colocando perigosamente em uma espiral de revisões, e a espiral de revisões quando acionada não conhece limites: ela pode começar a anular gols de décadas passadas, redistribuir títulos, suspender por terceiro amarelo atletas já aposentados, expulsar atletas já falecidos. Se é revisão que vocês querem, saibam que esse é um portal que uma vez aberto nunca se fecha, até porque a revisão também é passível de revisão.

No fim das contas, o VAR sempre soou como uma esperança no bom e velho poder superior que de longe tudo vê, tudo controla e tudo julga de forma infalível. Entretanto, da mesma forma que dia após dia a realidade siga esbofeteando a nossa cara nos mostrando um mundo cruel pelo qual somos nós os responsáveis pelas justiças e injustiças, a busca por um árbitro metafísico que puna, recompense e controle os acontecimentos de acordo com um senso de justiça inquestionável segue firme e incômoda como um carrapato em nossa alma que nos acompanha desde o princípio da humanidade. Mas para o bem ou para o mal, quando abrimos a porta da sala de controle do VAR, o que encontramos, invariavelmente, somos nós.

Essa coluna não reflete nem minhas próprias opiniões. Escrevo enquanto discordo veementemente de minhas próprias palavras.

Questionamento do Cerginho

Questionamento do Cerginho para coluna do Craque Daniel - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Craque Daniel é apresentador do Falha de Cobertura, (supostamente) ex-jogador, empresário de atletas e inocentado de todas as acusações feitas contra ele.

(Personagem interpretado por Daniel Furlan, um dos criadores da TV Quase, que exibe na internet o Falha de Cobertura e Choque de Cultura.)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.