PUBLICIDADE
Topo

A semana seguinte

Pool/Getty Images
Imagem: Pool/Getty Images
Craque Daniel

Craque Daniel é apresentador do Falha de Cobertura, (supostamente) ex-jogador, empresário de atletas e inocentado de todas as acusações feitas contra ele. *Personagem interpretado por Daniel Furlan, um dos criadores da TV Quase, que exibe na internet o Falha de Cobertura e Choque de Cultura.

21/09/2020 04h00

A Libertadores da América voltou na última semana já com promessas de muitas emoções, em especial as emoções de um vírus mortal que pode contaminar qualquer um a qualquer momento.

Mas o sentimento que eu quero abordar aqui não é de natureza médica, até porque, mesmo que já tenha realizado, embriagado em churrascos, algumas cirurgias em amigos igualmente embriagados, eram intervenções que levo mais como um hobby. Futebolisticamente falando, tratemos então de uma das mais nobres emoções da alma humana: o vexame.

Não se engane, desde a mais primitiva videocassetada até a mais sofisticada dramaturgia, não há entretenimento sem humilhação. Inclusive, as videocassetadas serem sempre acidentes com o corpo denota a obsessão da nossa sociedade materialista com o físico. Por que não videocassetadas emocionais, como alguém ser filmado desmoronando psicologicamente ao se deparar com uma tragédia, para a gargalhada da família brasileira? Uma tragédia em cinco atos, como um 5 x 0?

Grêmio e Flamengo

Renato Gaúcho observa jogadores do Grêmio durante treino tático - Lucas Uebel/Grêmio - Lucas Uebel/Grêmio
Renato Gaúcho, técnico do Grêmio
Imagem: Lucas Uebel/Grêmio

E em se tratando de tragédia emocional, a primeira fase da Libertadores é sempre um terreno fértil para importantes humilhações, tendo todo grande clube que se preze sua história recheada desses desmoronamentos inesquecíveis, tão importantes quanto suas glórias. E digo mais, é justamente na tragédia que se mede a grandeza de uma instituição. A humilhação, quando numa instituição menor, não marca, não fere, não ganha aquela grandeza desproporcional que leva seus torcedores ao desequilíbrio psicológico e à agressão de atletas em aeroportos. E Flamengo e Grêmio, habituados a grandes conquistas tanto quanto a grandes desgraças nessa competição, voltaram à Libertadores mostrando que são gigantes. Só os grandes protagonizam grandes vexames.

O Grêmio ainda tem uma evolução a perseguir se quiser que essa equipe esteja à altura de eliminações marcantes como a do ano passado, mas pelas declarações de um técnico em avançado estado de delírio, a equipe está em boas mãos.

O Flamengo, por sua vez, já é um time pronto. Pronto para a catástrofe. O caminho da equipe na Libertadores nunca foi um mar de rosas (até porque nem está comprovada a existência de um mar composto por rosas), seja com o inesquecível Jorge Jesus ou com o também inesquecível, à sua maneira, Abel Braga. Basta lembrar que mesmo ano passado, os jogos que não foram contra os clubes brasileiros e seus renatos gaúchos e odairs hellmanns foram bem complicados: LDU, Peñarol, Emelec, River. Mas agora o técnico Domenèc Torrent tem tudo para também escrever seu nome na história do clube das grandes tragédias.

Há ainda uma discussão acalorada sobre se é o treinador ou são os jogadores os culpados pelo vexame protagonizado na quinta, mas quanto a isso podemos dormir tranquilos: o Independiente del Valle forneceu gols o suficiente para distribuir culpa a todos os interessados. Ainda bem que nesse dia o SBT optou por manter a transmissão de Chiquititas, poupando ao menos as crianças do espetáculo grotesco.

O fato é que não adianta lamentar a escolha do técnico agora: o Flamengo rodou a Europa estudando nomes, inclusive com a tecnologia de um avançado aplicativo que reúne dados de todos os profissionais do mundo, e o aplicativo apontou que o melhor nome era... Jorge Jesus (em segundo lugar, o técnico Carlinhos, infelizmente falecido, o que praticamente descartou sua contratação por ora pela pragmática diretoria rubronegra).

Entretanto, uma informação que pouca gente sabe, mas eu obtive acesso porque tenho a oportunidade de chantagear pessoas importantes no clube, é que Jorge Jesus chegou a aceitar uma proposta de retorno ao Flamengo, mas como sabemos, o português é extremamente reservado e profissional, e seu profissionalismo foi tão extremo que ele não comunicou a ninguém de clube nenhum que voltaria ao Rio, e por isso acabou permanecendo em Lisboa trabalhando normalmente no Benfica. Inclusive sua família não foi comunicada até hoje nem de sua saída do Flamengo em julho, e permanece no Rio de Janeiro desesperada à sua procura.

Não sou dono da verdade, apesar de estar de posse da verdade quase o tempo todo, mas não podemos culpar o português, que diante de um quadro de pandemia no Brasil, preferiu ficar longe da família na Europa, um continente mais avançado que já se encontra na tão sonhada segunda onda do Corona Vírus, se preparando para uma próxima pandemia, enquanto permanecemos nesse atraso viral.

Destaque da semana

Todo esse quadro de crise generalizada e humilhação pública (sem público, o que torna tudo ainda mais humilhante) é uma espécie banheiro úmido e sem ventilação, um ambiente insalubre propício para o nascimento de um novo poder no futebol. É ele meu destaque da semana, com autonomia para decidir sozinho quando pressionar o time, que jogador perseguir, que técnico difamar, com que tipo de conotação sexual ofender o juiz e até quando colocar um Nati Roots para dar uma descontraída na galera. Sim, estou falando dele: o DJ de torcida.

Engana-se quem pensa se tratar do porta-voz do torcedor essa figura que não obedece ninguém com suas decisões arbitrárias, momentâneas e subjetivas. Ele é o autocrata da paixão, uma mistura cafona-autoritária de Mussolini com Alok, mas mesmo sendo tão questionável, é ele quem oferece uma luz de esperança ao Flamengo, pois é ele quem tem em suas pickups os meios para propagar e eternizar a voz do cobiçado Jorge Jesus nos estádios durante os jogos do clube.

Não é exatamente isso que o torcedor rubronegro tanto queria? A voz do português cristalizada ecoando eternamente nos estádios e na mente do desalmado golem Willian Arão, até o dia em que o atleta perca a sanidade, e aos murros no próprio crânio, implore para que as vozes em sua cabeça que o ordenam a executar tarefas, cessem? Mas tenho certeza que em momentos como esse, algum líder do elenco colocará a mão em seus ombros e dirá calmamente: "Nada temas, Arão. Não são vozes na sua cabeça" e apontará para os céus: "É o DJ de torcida."

Essa coluna não reflete nem minhas próprias opiniões. Escrevo enquanto discordo veementemente de minhas próprias palavras.

Questionamento do Cerginho

Coluna Craque Daniel - Questionamento Cerginho - 21092020 - Coluna Craque Daniel - Coluna Craque Daniel
Imagem: Coluna Craque Daniel

Craque Daniel é apresentador do Falha de Cobertura, (supostamente) ex-jogador, empresário de atletas e inocentado de todas as acusações feitas contra ele.

(Personagem interpretado por Daniel Furlan, um dos criadores da TV Quase, que exibe na internet o Falha de Cobertura e Choque de Cultura.)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.