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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nosso dia: somos totalmente capazes de estar em todos os lugares

Isabella Springmuhl apresenta sua coleção em evento de moda em Puebla, no México. Modelos com necessidades especiais desfilaram os looks da marca - Divulgação/Down To Xjabelle
Isabella Springmuhl apresenta sua coleção em evento de moda em Puebla, no México. Modelos com necessidades especiais desfilaram os looks da marca Imagem: Divulgação/Down To Xjabelle
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Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

03/12/2021 18h52

Hoje é o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Para nós, pessoas com deficiência, esse é só mais um dia de luta, com a diferença que hoje levantamos nossas bandeiras, discutimos melhor sobre temas que têm relação com nossos direitos e reconhecimento e levamos mensagens sobre nossas capacidades para a sociedade e Estado. Hoje eu quero escrever como é ser uma pessoa com deficiência no Brasil.

Quando uma mãe fica grávida, ela jamais pensa que seu filho irá nascer com deficiência. Ela projeta que o filho nasça com saúde e sem problemas. No entanto, no Brasil, segundo o último Censo do IBGE, 24,5% da população brasileira tem algum tipo de deficiência. A primeira pancada que levamos é: Não somos crianças desejadas pela nossa família.

Nascemos e o desafio está posto. Costumo dizer que nascer foi um ato de coragem nosso. Por que o mundão aqui fora não espera pela gente não. Ser criança com deficiência no Brasil é experimentar todas as negações de direitos e mais algumas que têm relação específica conosco. Ah... é experimentar a falta de oportunidades e preconceitos nas escolas e nas ruas. É vivenciar com a palavra "coitadinho" quase todos os dias.

A gente já cresce tendo que entender nossas dificuldades, gastando mais tempo para a locomoção e sob o olhar social de que somos pessoas que não deram certo. A gente entra na adolescência cheio de traumas e, quando temos muita informação, nós vamos lutar por direitos que deveriam já estar expostos.

Somos desafiados diariamente quando temos que sair de casa e enfrentamos calçadas irregulares, não temos rampas, não temos transporte decente. Às vezes ônibus que não para, motoristas de aplicativos que recusam a chamada porque estamos na cadeira de rodas ou porque temos um cão guia. Uma luta até chegar no tratamento, na escola, no hospital, na pracinha ou em um bar. Gastamos muito tempo com tudo isso, por isso sempre precisamos nos adiantar. O nosso horário reservado sempre é maior. Temos que pensar em todos os detalhes.

Em qualquer lugar que vamos, quase todas as pessoas nos olham ou melhor olham nossa deficiência aparente. A gente pode até ser bonito, estar bem vestido, dirigir um carro legal, mas a realidade que as pessoas vão olhar para nós de um jeito diferente. E a nós cabe o desafio cotidiano de lutar por mudanças estruturais para que possamos um dia ter uma sociedade mais inclusiva e acessível.

Na vida adulta, poucas são as pessoas com deficiência que chegam nas faculdades. Muitas desistiram na caminhada que é muito cansativa, outras as famílias tiveram condições e algumas chegaram lá, com muito esforço. Não dá, em hipótese alguma, deixar de lembrar do número enorme de famílias em condição de pobreza que tem uma pessoa com deficiência em casa.

As que chegaram em um lugar privilegiado nas suas carreiras, foi fruto de toda uma batalha pessoal e não de oportunidades iguais. Muitas dessas pessoas, assim como eu, conseguem entender que elas são exemplos para outros indivíduos com deficiência e investem parte do seu tempo para demonstrar para toda uma sociedade que temos que ter garantias de direitos e que somos totalmente capazes de exercer qualquer função, só basta termos as adaptações necessárias.

Os "coitadinhos" trazidos do passado devem morrer no presente e no futuro. Não podemos mais admitir que as pessoas com deficiência se escodam nas suas casas, que elas sejam contratas para termos números no mercado de trabalho e não para exercerem suas reais funções, que mesmo sendo capacitadas, elas ocupem lugares inferiores porque possuem algum tipo de deficiência. Não queremos também ser representados nos filmes, nas novelas ou nas séries por quem não tem deficiência. Queremos ser recebidos na universidade por professores que entendam as nossas necessidades para que possamos ter o mesmo rendimento que o aluno que não tem deficiência. Não queremos que as pessoas pensem que somos assexuados. Estamos cansados de causar estranheza nos outros. Esgotados ao quadrado da falta de representatividade. Somos cidadãos, pagamos impostos, giramos a economia com nossas compras.

Parem de pensar que não podemos estar nesse ou naquele lugar. O nosso lugar é onde a gente escolhe estar. Ninguém precisa nos dizer o nosso lugar, nós queremos ocupar os espaços. Não precisamos de permissão. Somos totalmente capazes de sermos famosos, esportistas, chefes, poliglotas, médicos, enfermeiros, jornalistas, atores, políticos. Coloquem, de uma vez por todas na cabeça que somos pessoas com habilidade diversas e que podemos estar no lugar que a gente quiser. Que esse Dia Internacional da Pessoa com Deficiência seja mais um dia de luta intensa e contribua muito para que a sociedade entenda os nossos verdadeiros lugares.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL