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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Clodoaldo: Consumidor com deficiência ainda é esquecido pelo mercado

Nem sempre os sites de internet oferecem acessibilidade a portadores de deficiência - BSIP/Universal Images Group via Getty
Nem sempre os sites de internet oferecem acessibilidade a portadores de deficiência Imagem: BSIP/Universal Images Group via Getty
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Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

16/09/2021 18h58

Você já parou pra pensar nas dificuldades que as pessoas com deficiência têm de fazer uma compra seja ela pela internet ou em lojas físicas. Assim como tenho tratado aqui na coluna que somos cidadãos como qualquer outro, já que casamos, temos família e trabalhamos, entre outras coisas. Acreditem: temos um potencial enorme enquanto consumidores.

Mas, afinal, por que as pessoas com deficiência são esquecidas quando se trata da compra? Dados do Censo 2010 apontam que o Brasil tem cerca de 45 milhões de pessoas com deficiência (¼ da população), sendo 12 milhões com grande ou total deficiência —uma parcela importante da população com poder de compra.

A pessoa com deficiência aumenta o seu poder de consumo a partir do momento que ela conquista direitos como o de ir e vir ou o de ocupar uma vaga no mercado de trabalho, por exemplo. Como ir em algum lugar sem usar um carro ou um transporte coletivo? Como trabalhar sem ter adaptações necessárias no computador ou na sala que trabalha? Como fazer uma compra pela internet sem que o site de venda tenha acessibilidade para que a pessoa com deficiência tenha total autonomia de exercer seu poder de compra? Como uma pessoa com deficiência pode entrar em uma loja sem que o local seja acessível para ela exercer o seu direito de ser um consumidor? Como uma pessoa cega pode fazer uma compra pela internet sem que os produtos tenham a sua descrição? São tantas barreiras!

cadeirante - picture alliance/dpa/picture alliance via Getty I - picture alliance/dpa/picture alliance via Getty I
Nem todos os estabelecimentos comerciais oferecem acessibilidade a cadeirantes e pessoas com deficiências
Imagem: picture alliance/dpa/picture alliance via Getty I

As pessoas com deficiência representam 15% da população mundial. Uma pesquisa da Accenture, demonstra que ao redor do mundo elas possuem uma renda disponível de US$ 8 trilhões. Sendo assim, a quantidade de dinheiro que elas podem gastar diariamente é significativa. Só nos Estados Unidos, o valor chega a meio trilhão de dólares e no Brasil, segundo o IBGE, US$ 5,3 bilhões (R$ 27,8 bilhões pelo câmbio atual).

No entanto, mesmo com esses números expressivos, o poder de compra do consumidor com deficiência ainda é subestimado e muitas empresas ignoram essa parcela da população. Conforme disse acima, ainda temos muitas barreiras quando está em jogo uma compra qualquer. Estamos longe de evoluir também em quesitos importantes como: a visão do mercado em produzir produtos exclusivos para esse público, a acessibilidade dessa camada da sociedade para as compras e, até mesmo, a representatividade desse público nas propagandas.

Temos lacunas enormes. Vocês não acham? Me lembrei agora do caso emblemático da ação que foi impetrada nos EUA contra a Domino's Pizza por Guilhermo Robles, um homem cego, que alegou que tanto o portal, quanto o aplicativo da rede de pizzas não funcionavam como o software comum de leitura de tela que ele usa para outros sites. Em 2019, a Suprema Corte dos EUA negou a petição da empresa que queria provar que seus sites não precisariam ter acessibilidade para pessoas com deficiência visual.

A decisão foi uma vitória para os defensores da acessibilidade, que argumentaram que a falta de acessibilidade nos sites estaria excluindo as pessoas com deficiência de partes substanciais da economia. A Lei Brasileira de Inclusão torna obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no país ou por órgãos de governo, no entanto, a situação não foi resolvida até hoje. Se tem lei, vale ação, não é mesmo?

Em busca de soluções para esse público, conheci nesta semana uma iniciativa desenvolvida pela Talento Incluir, consultoria em diversidade e inclusão no Brasil, que lançou a UinHub, uma plataforma digital para pessoas com deficiência, com o objetivo de conectar esses consumidores e empreendedores que tenham negócios relacionados a esse público. O ambiente reúne produtos, serviços e conteúdo sobre acessibilidade, saúde, cultura, educação, empregabilidade, esporte, lazer, mobilidade, vestuário, entretenimento, direitos, redes de apoio, entre outros. Legal, né? Vale conhecer!

Estou de olho em todo e qualquer tipo de exclusão. Não é legal não ser lembrado na hora da compra. É sempre bom destacar que somos cidadãos, pagamos nossas contas, compramos roupas, ticket de transporte ou carros, acessamos a internet, namoramos, gente! Somos consumidores, apesar de não parecer.

Excelente fim de quinta-feira para todos e abraços aquáticos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL