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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Clodoaldo: Um Brasil paralímpico vitorioso, mas com muito para ser mudado

Gabrielzinho conquista sua segunda medalha de ouro em Tóquio - Miriam Jeske/CPB
Gabrielzinho conquista sua segunda medalha de ouro em Tóquio Imagem: Miriam Jeske/CPB
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Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

03/09/2021 17h12

Estão chegando ao fim os Jogos Paralímpicos de Tóquio! Durante as duas últimas semanas, nós acompanhamos um espetáculo sem igual de heróis superando tempos e centímetros. Recordes e mais recordes batidos, momentos únicos, emoção triplicada, vibrações especiais. Quem diria que nosso Gabrielzinho, nadador paralímpico brasileiro, ficou conhecido por suas dancinhas antes de subir no pódio, mas também como revelação da delegação brasileira. Ele conquistou dois ouros e uma prata. Foram três dancinhas, mas devem vir mais no futuro, já que ele, com apenas 19 anos, despontou como um dos principais da nova geração da natação paralímpica.

Teve choro também. A despedida do meu amigo Daniel Dias das piscinas emocionou a gente. O choro contido dele, e um Brasil em lágrimas. Terminou um ciclo e outro já se iniciou. A participação do Brasil na natação paralímpica deixou o país em oitavo lugar no quadro geral da modalidade com 23 medalhas, sendo oito de ouro, cinco de prata e 10 de bronze.

Sobre o Daniel, eu quero deixar claro que, na minha opinião, ele foi forçado a se aposentar por causa de um sistema de classificação (que agrupa atletas com base no grau de limitação da atividade decorrente do comprometimento) é nefasto, que não tem regras claras e conta com classificadores voluntários em sua maioria europeus.

Daniel Dias comemora medalha de bronze nos 100m livre em Tóquio-2020 - Alex Davidson/Getty Images - Alex Davidson/Getty Images
Daniel Dias comemora medalha de bronze nos 100m livre em Tóquio-2020
Imagem: Alex Davidson/Getty Images

O sistema precisa ser mudado e contar com profissionais remunerados, com regras entendíveis e com ponderações humanas. Caso contrário, sempre existirá uma brecha e uma interrogação enorme entorno desse assunto. Às vezes parece que quando começamos a nos destacar somos impedidos de seguir nossas carreiras. Tem algo muito errado na classificação funcional do esporte paralímpico.

Outro choro que doeu nossa alma foi da Jerusa dos Santos nos 100m rasos. A cordinha que liga o atleta cego ao seu guia se rompeu. Parecia que a Thalita Simplício iria conquistar o bronze, mas também foi desclassificada porque a cordinha dela também quebrou no fim da prova. O atleta treina muito para competir em uma Paralimpíada e quando chega ocorre isso. Lamentável!

Mas o choro fortalece todo um Brasil, que se mobilizou para assistir aos Jogos, participou e elogiou os atletas nas redes sociais. Pela primeira vez a gente contou com uma comentarista cega na televisão brasileira: a minha amiga Ádria Santos, maior medalhista paralímpica mulher do Brasil. Num passado não muito distante seria inimaginável que esse espaço fosse aberto para uma pessoa cega. Mas vale mais a experiência dela do que qualquer outro quesito. E tem mais Ádria, já que ela volta a atuar no encerramento dos Jogos, ao lado de Fernando Fernandes e Everaldo Marques.

Eu fiz os comentários da natação pela terceira vez. Estive nos Jogos Parapan-americanos de Lima e também no Mundial de Natação em Londres. Agora entrou para o meu currículo ser comentarista dos Jogos Paralímpicos. Sem ser niilista, a experiência foi ímpar. Não sei como, mas consegui ser eu mesmo durante as transmissões. Tive muito carinho do público que se identificou com as brincadeiras e se emocionou com as medalhas. Eu e o narrador Luiz Prota estivemos juntinhos para transmitir o melhor da natação paralímpica para o público brasileiro. Nessa cobertura também contei com os amigos Verônica Hipólito e Fernando Fernandes. Foi sensacional. Pela primeira vez, foram escolhidos comentaristas com deficiência para falar sobre o esporte paralímpico.

E como a gente gosta muito de quebrar barreiras, um dos destaques na cobertura foram as descrições. Profissionais que participaram iniciaram esse processo ao vivo. No entanto, ainda falta muito para alcançarmos uma cobertura totalmente acessível. Tanto dos Jogos Paralímpicos quanto de qualquer assunto que seja abordado.

Sobre paradigmas, acredito que de uma vez por todas, os paralímpicos também estão ajudando a quebrar mais preconceitos. A estranheza com o corpo diferente é quebrada a partir do momento que esse corpo é reconhecido como campeão. E como eu digo o tempo inteiro: nós não precisamos que tenham pena da gente, nós precisamos de oportunidade, não queremos que olhem para nós como se fossemos ETs, mas sim como pessoas, não importando se somos muito ou pouco diferentes. Todos nós somos diferentes. O culto ao corpo perfeito imposto por todos os lados ficou um pouquinho de lado durante os Jogos.

No meio de tantas coisas ruins que o mundo tem vivido, eu sinceramente acredito que os Jogos Paralímpicos contribuíram para alegrar um pouco o povo brasileiro. Pela primeira vez, o país do futebol também teve a oportunidade de acompanhar o Futebol de 5 (para cegos na televisão). E eu vou contar uma coisinha para vocês: somos tetracampeões e estamos na final, que também vai ao vivo na TV aberta no sábado (4), às 5h30 (horário de Brasília).

O Brasil Paralímpico já se tornou realidade faz tempo.

Mas é claro que muitas coisas ainda precisam ser melhoradas. Temos um caminho longo. Precisamos ter um trabalho de base mais forte e fazer o esporte paralímpico chegar em mais lugares. Precisamos, de alguma forma, reconhecer os atletas que contribuíram para o Brasil chegar onde ele está. Existem atletas importantes na história do esporte paralímpico que não são lembrados. Eles abriram o caminho, foram percursores e ajudaram a construir tudo quando não se tinha nada. Muitos ganharam só um tapinha nas costas e um parabéns. Não podemos deixar essa brecha fazer parte da história. Temos que arrumar um jeito de reconhecer nossos heróis. Estava vendo um dia desses um atleta da natação paralímpica espanhola que foi considerado cidadão honorário, tem aposentadoria e trabalha em escolas do país ajudando a disseminar o esporte para pessoas com deficiência.

Antônio Tenório, durante luta nas Paralimpíadas de Tóquio - Matsui Mikihito/CPB - Matsui Mikihito/CPB
Antônio Tenório, durante luta nas Paralimpíadas de Tóquio
Imagem: Matsui Mikihito/CPB

Eu quero terminar este texto falando do maior gigante paralímpico que nós temos. Agradeço a você Antônio Tenório, que apesar de todos os problemas, que apesar de ter lutado pela própria vida pouco antes dos jogos, vestiu a camisa da delegação brasileira e foi nos representar em Tóquio. Eu sou grato por todas as vezes que você nos representou e, especialmente por essa. Você se mostrou mais gigante do que nunca. Seu quinto lugar é disparado um ouro. Obrigado por nos mostrar o que é ser um verdadeiro campeão, que perde e pede desculpas. Tenório, nós é que pedimos desculpas a você, meu amigo. Você é gigante. Sua história é incrível. Eu quero agradecer por tudo que você nos ensinou até aqui. Não é para qualquer um participar de sete Jogos Paralímpicos, ter medalhas em seis delas, lutar por direitos, atender crianças e adolescentes por meio de projeto social, quase morrer e, mesmo assim, levantar e vestir a nossa camisa. Que honra a minha te ter como um amigo. Você é Gigante!!!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL