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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Futebol de cegos: 4 ouros paralímpicos para o Brasil e pouco reconhecimento

Brasileiros comemoram gol na final do futebol de cegos - Marcio Rodrigues/MPIX
Brasileiros comemoram gol na final do futebol de cegos Imagem: Marcio Rodrigues/MPIX
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

17/06/2021 18h56

Nem todo mundo sabe que o Brasil também é o melhor do mundo em futebol para cegos. Campeões dos Jogos Paralímpicos a partir 2004, em Atenas, ano em que a modalidade começou a fazer parte da competição, a equipe brasileira coleciona quatro medalhas paralímpicas de ouro (Atenas, Pequim, Londres e Rio). Nesta semana, o Comitê Organizador de Tóquio anunciou os grupos da modalidade e a nossa seleção irá fazer a partida de estreia no dia 29 de agosto deste ano contra os anfitriões.

Em Atenas, eu fui assistir ao jogo da final. Eu já tinha visto os meninos jogando, mas assistir ao futebol de cegos é mais emocionante do que ao futebol. A habilidade e técnica apurada deles é algo indescritível. O fato de o público ter que fazer silêncio para que os jogadores escutem o gizo da bola, nos deixa mais tensos com o jogo. É uma explosão muito grande quando sai um gol.

Poucas pessoas sabem também que, por exemplo, Mizael Conrado, atual presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, foi considerado o melhor do mundo. Brincava de jogar. A noção de espaço e a sua movimentação em campo me fazia esquecer que ele é cego. Juro pra vocês! Hoje, o Brasil também tem o Ricardinho, considerado o melhor do mundo na atualidade, ele segue os passos do meu amigo Mizael.

Não sou de comparar esporte olímpico com paralímpico e muito menos o futebol com outras modalidades, pois acho injusto com as outras modalidades. O futebol faz parte da cultura brasileira e não dá para comparar esse esporte com nenhum outro aqui no nosso país. No entanto, me inquieta um pouco saber que temos os melhores do mundo em futebol para cegos e muita gente nem sabe disso ou nem teve a oportunidade de ver uma partida. Quem dirá eles serem ídolos da sociedade. O reconhecimento ainda é muito pequeno perto do que os atletas dessa modalidade significam.

Será que é sonhar muito ou um dia ainda poderemos ver um dos atletas de futebol de cegos como grande estrela do esporte brasileiro? Quando se trata de esporte paralímpico coletivo, ainda não tivemos o destaque merecido. Mesmo com resultados expressivos no futebol, no goalball (modalidade criada exclusivamente para deficientes visuais e cegos) e no vôlei sentado, ainda existe uma barreira para revelar ídolos de modalidades coletivas paralímpicas.

Se formos pensar, é de grande relevância, em uma sociedade como a nossa, ter ídolos. Eu sempre digo o quanto fico feliz quando uma criança sem deficiência chega pra mim e diz: "quando eu crescer quero ser igual a você". Eu fico feliz porque naquele momento eu sinto que os meus objetivos como atleta foram atingidos, mas principalmente como defensor dos direitos das pessoas com deficiência. Essas crianças conseguem entender e enxergar em primeiro plano o nadador, a minha pessoa e, somente depois, a minha deficiência.

Por outro lado, a dificuldade de se revelar um ídolo paralímpico de esporte coletivo pode ser pelo simples fato de a nossa sociedade somente reconhecer o ídolo paralímpico porque ele é multimedalhista de um único evento. Como eu, o Daniel Dias, a Adria e o André Brasil. Será que é preciso ganhar muitas medalhas em uma única competição para que se faça um ídolo paralímpico? Não, minha gente! Se a linha de raciocínio for essa, então porque teríamos ídolos olímpicos se geralmente eles ganham uma ou duas medalhas para o Brasil nas Olimpíadas?

Sobre quantidade, o futebol para cegos já coleciona quatro medalhas e tem na bagagem alguns dos melhores jogadores do mundo. Por isso eu digo que é preciso prestar mais atenção em quem são os verdadeiros ídolos de uma população e dar o devido reconhecimento a eles. É necessário dar luz aos atletas do futebol de cegos e de outras modalidades coletivas. Cada pessoa com deficiência que se destaca na sociedade se torna exemplo para crianças com deficiência, famílias que têm pessoas com deficiência e giram tudo para o lado da inclusão e do reconhecimento, em primeiro plano, das habilidades dessa camada da sociedade e não das suas deficiências. É por isso que lutamos!

Abraços aquáticos a todos e excelente quinta-feira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL