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Clodoaldo Silva

REPORTAGEM

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Cem dias para Paralimpíada: 'Jogos farão povos se unir', diz diretor do CPB

Getty Images
Imagem: Getty Images
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

15/05/2021 04h00

Com a abertura dos Jogos Paralímpicos de Tóquio marcada para 24 de agosto, daqui a exatos 100 dias, conversei com Alberto Martins, diretor técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro, para entender melhor como estão os preparativos da delegação para o evento e quais os desafios que o Brasil ainda pode enfrentar até lá.

Na entrevista, Alberto afirmou que, apesar da incerteza no trabalho e na vida, o CPB tem tentado seguir seu plano estratégico e tem a meta de manter o Brasil entre os dez melhores do mundo. O diretor falou sobre os desafios, previsão de quantidade de atletas brasileiros para a competição e rendimento.

Para ele, com a proximidade dos Jogos, é importante entender a competição como uma oportunidade de mostrar ao mundo a união dos povos, mesmo em frente a todos os obstáculos. "Jogos irão iluminar o mundo e mostrar que mesmo em um momento trágico nós podemos ter esperança e acreditar na vida", ressaltou. Confira a entrevista completa abaixo.

Sabemos que daqui a 100 dias a delegação paralímpica brasileira estará iniciando uma jornada em Tóquio. Quais foram os principais desafios para se chegar até aqui?
Tivemos vários: a incerteza e a insegurança em relação aos treinamentos e até a própria competição. Nesse período tivemos que flexibilizar treinamentos, adotar protocolos de segurança, testar os atletas, orientar e conscientizar todos os atletas dentro do centro de treinamento. Entendendo que é importante cuidar de si próprio para cuidar dos demais. Tivemos que colocar a vida dos atletas em primeiro lugar para depois pensar no esporte.

Nós já temos uma previsão de quantitativo da delegação paralímpica brasileira em Tóquio?
Acredito que teremos cerca de 380 a 400 membros na delegação. Entre eles, de 250 a 260 atletas. Lembrando que não teremos representantes no basquete em cadeira de rodas masculino e feminino e no rugby em cadeira de rodas masculino e feminino.

Quais as perdas maiores em termos de treinamento e competição?
Tivemos um impacto técnico no ranking de muitas modalidades. Muitos atletas não participaram de competições importantes do calendário mundial. Sempre tivemos que pensar no risco de mandar os atletas e eles serem contagiados. Esses processos são extremamente importantes para a qualificação e, no caso dos paralímpicos, para a classificação também. Só para você ter ideia, atletas do halterofilismo não participaram de competições na Colômbia e na Georgia. E a não participação influencia diretamente no ranking e qualificação.

Diante desse cenário totalmente controverso, podemos falar em meta de rendimento da delegação?
Estamos trabalhando firmes na concepção do planejamento estratégico de continuar entre as 10 maiores potências paralímpicas do mundo. É complexo fazer uma análise sem os resultados de mundiais. No entanto, seguiremos essa meta.

Nós sabemos que tivemos perdas grandes como é o caso da inelegibilidade do André Brasil e de alguns atletas irem para a classe do Daniel. Dá para falar quem serão os destaques desses Jogos?
Acredito que não teremos multimedalhistas como Clodaoldo Silva, Adria Santos e até mesmo Daniel Dias, mas acredito em resultados positivos de muitos atletas da delegação. Temos atletas novos e podemos ter várias surpresas em várias modalidades.

E a partir de agora até os jogos, ainda podemos dizer que existem desafios?
Acredito que o maior desafio é o desconhecido. Sabemos de todo o cuidado do Comitê Paralímpico Internacional, do Comitê Organizador dos Jogos de Tóquio, mas não sabemos o que iremos encontrar pela frente.

Muitas pessoas ainda pensam que os atletas estão passando na frente das prioridades quando a questão é imunização. Você pode nos explicar como é o projeto que de vacinação dos atletas que iniciou nessa sexta-feira?
As vacinas não estão sendo tiradas das pessoas para os atletas e nem do grupo de prioridade. O Comitê Olímpico Internacional [COI] doou vacinas para atletas de vários países. A imunização das delegações olímpicas e paralímpicas não irá retirar vacinas da população, muito pelo contrário. O projeto do COI irá inclusive beneficiar a população. A cada atleta vacinado, duas pessoas da população em geral serão imunizadas. O COI mandou uma quantidade de vacinas maior que irão para o banco do SUS. Além desse projeto ajudar a população, a vacinação dos atletas poderá ser encarada como um estímulo à população que não acredita que a imunização seja importante.

Como falar em Jogos Olímpicos e Paralímpicos em um Brasil que vive de luto diário? Não é difícil?
Ninguém pensava em passar por algo dessa natureza. A incerteza não é só no trabalho em si, mas de desafio na vida. O tempo inteiro, sabíamos da importância dos Jogos Paralímpicos, mas sabemos também que a vida é mais importante. Hoje, acredito que os Jogos darão luz e incentivarão a população em geral. Mesmo em um momento adverso, os povos irão se unir. Mesmo nesse momento tão trágico, nós podemos ter esperança e acreditar na vida.