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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cadeirante diz que foi impedido de cursar culinária em escola tradicional

Lois Neubauer, cadeirante que foi impedido de se matricular em curso de gastronomia - Reprodução/Instagram
Lois Neubauer, cadeirante que foi impedido de se matricular em curso de gastronomia Imagem: Reprodução/Instagram
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

30/04/2021 19h47

Quantas vezes você já foi barrado no baile? Em pleno 2021, empresas brasileiras e/ou internacionais ainda não estão totalmente preparadas para receberem pessoas com deficiência. Acreditem vocês ou não existe muito chão para trilhar contra as diferenças no Brasil e no mundo.

Quero falar de um depoimento que vi na minha rede social e que foi compartilhado em outros perfis. Lois Neubauer, atleta de voo livre e customer success manager (ou seja, um gerente que avalia a satisfação do cliente com o produto), falou da sua decepção ao ser proibido de seguir em um curso de culinária em uma escola tradicional após a instituição declarar que não estava preparada para recebê-lo.

"Eu faço coisas que poucas pessoas que nem são cadeirantes não fazem... Não vou poder fazer um curso de culinária porque sou cadeirante... Sem palavras... Essa é a realidade não só em cursos específicos, mas em boa parte da educação nesse país...", escreveu ele, que também é militante ativo pelos direitos de pessoas com deficiência.

"Nossa que decepção, que frustração, me senti excluído fora de uma sociedade, um ser desacreditado de poder fazer algo... Quem sabe dizer onde eu poderia chegar se me desenvolver, quem sabe cozinhar tão bem como outros chefes que não têm deficiência... Aí me pergunto será que eu realmente seria capaz de cozinhar bem? Ou será que é somente ilusão da minha imaginação, será que isso não é possível mesmo pra um cadeirante?", ressaltou Neubauer no seu depoimento.

Após a repercussão da história nas redes sociais, Neubauer disse ao blog que representantes da escola entraram em contato. "Eles só fizeram uma ligação para mim. Não fizeram um pedido de desculpa formal. Não fizeram nada ainda. Eles só disseram que estão correndo atrás, que estão tentando dar uma segurada no que fizeram. Mas ainda assim, eles vão ter que fazer todo um trabalho. Não é simplesmente: 'Ai desculpa, pode fazer a inscrição agora.' Não. Eles vão ter que fazer uma retratação", explicou Neubauer.

Ele ainda explicou que se reuniu com advogadas para fazer uma notificação extra-judicial à escola, uma das mais tradicionais no mundo gastronômico. O blog procurou a instituição, que ainda não respondeu. O espaço está aberto.

O depoimento de Neubaer mostra que mesmo que nos digam milhões de nãos, que nos proíbam de andar pelas ruas ou de entrar nas empresas, nós não iremos mais ficar escondidos em casa.

Eu entendo a frustação dele e fico revoltado com essa empresa e com todas as outras que não estão preparadas em pleno 2021 para lidar com diferenças. Deveria ser uma vergonha, no entanto, muitos estabelecimentos tratam as pessoas com deficiência como se elas não existissem no corpo social. Somos tratados como números pequenos, mas na realidade somos uma parte grande da sociedade. Não somos minorias, mas ao mesmo tempo somos. Que loucura, não é mesmo?

A Lei Brasileira de Inclusão, regulamentada em 2015 e que entrou em vigor em 2016, é a principal norma hoje do setor. É ela que dita regras para possibilitar a participação plena e ativa das pessoas com deficiência em todas as esferas da sociedade.

É cansativo toda hora saber que uma pessoa com deficiência foi barrada, não só no baile, mas em vários locais porque não conseguiu entrar ou porque não conseguiu se quer chegar perto.

É sempre bom lembrar que a LBI proíbe qualquer tipo de restrição ou discriminação a uma pessoa em função de sua deficiência. A lei também determina que as regras de acessibilidade devem ser atendidas para que profissionais/pessoas com alguma deficiência tenham acesso aos ambientes corporativos e contem com tecnologias para adaptação ao trabalho e ao ambiente educativo.

No artigo 4º a lei já versa: "Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma espécie de discriminação". O que você acredita que ocorreu com Lois? Óbvio que ele foi discriminado.

Veja o que a lei determina como discriminação no parágrafo 1º do artigo quatro:

"Considera-se discriminação em razão da deficiência toda forma de distinção, restrição ou exclusão, por ação ou omissão, que tenha o propósito ou o efeito de prejudicar, impedir ou anular o reconhecimento ou o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais de pessoa com deficiência, incluindo a recusa de adaptações razoáveis e de fornecimento de tecnologias assistivas".

Nem preciso entrar em outros artigos para entender o que ocorreu com Lois Neubauer. Eu torço para que todas as vezes que formos barrados nós tenhamos a coragem de denunciar, nem que seja nas nossas redes sociais. Isso demonstra que estamos vivos, que não aceitamos mais qualquer desculpa, que sabemos dos nossos direitos. Nesta semana, Neubauer foi recusado de um curso, e outras pessoas com deficiência com certeza foram proibidas de fazer alguma coisa.

Precisamos acabar com isso. É inadmissível que não nos deixem voar e que acreditem que não possamos fazer algo pelo fato de estarmos em uma cadeira de rodas. Retrocesso. Triste, lamentável e sem explicação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL