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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com atriz cadeirante, filme "Fuja" é exemplo de representatividade real

Kiera Allen, estrela de "Fuja" - Instagram/Reprodução
Kiera Allen, estrela de "Fuja" Imagem: Instagram/Reprodução
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

15/04/2021 15h47

O longa "Fuja", que estreou na última semana na Netflix, tem como uma das protagonistas a atriz Kiera Allen, cadeirante que dá vida à personagem Chloe, no primeiro grande papel de sua carreira. Segundo a Variety, essa é a segunda vez que Hollywood tem uma cadeirante como estrela. A primeira foi em 1948, quando Susan Peters estrelou o thriller "The Sign of The Ram".

Qual a importância de termos pessoas com deficiência fazendo um papel real? Se trata de representatividade. E aí você pode pensar: mas quando temos um personagem famoso representando uma pessoa com deficiência no cinema não é importante também?

Pessoas com deficiência não precisam ser interpretadas por indivíduos que não têm deficiência. Elas fazem parte do corpo social. Por que então elas deveriam ser substituídas para que outras façam seus papeis reais? Não deveriam. Estamos no Século 21, e o amadurecimento das civilizações, principalmente no que diz respeito à cidadania e aos direitos humanos, já deveria ter contribuído mais para que esse cenário fosse outro.

Mesmo com os avanços e tratamento mais humanitário, é preciso pontuar que as pessoas com deficiência ainda são consideradas minorias sociais. Quando se fala em minoria, não estamos nos referindo à quantidade, mas à falta de representatividade no espaço público, como na televisão, nas novelas, no jornalismo, no cinema, na política, entre outros.

A legitimidade de termos uma pessoa com deficiência entre os atores de um filme é muito maior do que ter uma pessoa sem deficiência a representando quando levamos em consideração o reconhecimento dessas pessoas como capazes de fazerem parte deste ambiente e, mais ainda, de reparar as discriminações históricas pelas quais elas passaram e ainda passam.

Assim como é disseminado o direito de representatividade dos negros e negras, das mulheres e da população LGBT, é preciso entender também a importância da representatividade das pessoas com deficiência. Essa camada da sociedade sobrevive desde a História Antiga a repetidas negações e injustiças sociais e humanas que devem ser reparadas.

Para se ter noção da invisibilidade das pessoas com deficiência, vale citar que durante a antiguidade, era permitido eliminar sumariamente essas pessoas. E mais adiante, na Idade Média, as pessoas com deficiência eram reconhecidas como indivíduos doentes, amaldiçoados e, consequentemente, marginalizados. No Renascimento, uma luz na escuridão foi dada com o conceito de direitos universais. Mas até hoje a realidade dessa camada da sociedade é dificultada por oportunidades desiguais, falta de cumprimento dos seus direitos, desigualdades, discriminação e/ou maus-tratos e falta de reconhecimento das suas reais habilidades.

É por isso que ter Kiera Allen como representante das pessoas com deficiência em um filme é tão importante. Porque a representatividade não se faz sem o seu representante real. Representatividade não se trata de espaço ocupado por outro, ela tem relação com a democracia também. Se trata de espaço conquistado por quem sofreu discriminação ao longo do tempo e falta de reconhecimento.

Keira Allen nos bastidores de "Fuja" - Instagram/Reprodução - Instagram/Reprodução
Keira Allen nos bastidores de "Fuja"
Imagem: Instagram/Reprodução

Durante entrevista ao The New York Times, a atriz falou sobre a importância dessa representatividade: "Parece que será a primeira vez que muitas pessoas da minha geração verão um usuário de cadeira de rodas de verdade interpretando um usuário de cadeira de rodas na tela. É uma grande honra! Há tão pouca representação na mídia de pessoas com deficiência que sinto que estou representando uma comunidade inteira por essa falta de visibilidade. Eu realmente espero que 'Fuja' derrube barreiras e que mais pessoas com deficiência sejam escaladas para filmes importantes."

É lógico que é necessário e urgente que os espaços em Hollywood, na televisão, no jornalismo e até mesmo os espaços privilegiados das empresas sejam ocupados pelas pessoas com deficiência. Não teremos grandes estrelas com deficiência se não dermos espaço para que atores com deficiência façam parte do mundo do cinema. Não é mesmo?

O cinema não precisa de Dwayne "The Rock" Johnson para protagonista de "Skyscraper", em que ele vive um personagem que não tem uma perna. Ele pode fazer outros milhões de papéis, já que é famoso. Para abraçar estrelas com deficiência no futuro é preciso dar oportunidades para atores com deficiência no presente. Eu já estou torcendo para ver o próximo papel de Kiera. E você?

*Gisliene Hesse - jornalista, mestre em comunicação, atuante na área de defesas de direitos e atuante em projetos direcionados para pessoas com deficiência e esporte paralímpico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL