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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sem comemorar: mulheres com deficiência são triplamente discriminadas

Mulher em cadeira de rodas -  Kike Calvo/Universal Images Group via Getty Images
Mulher em cadeira de rodas Imagem: Kike Calvo/Universal Images Group via Getty Images
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

12/03/2021 17h09

Nesta semana foi comemorado o Dia Internacional das mulheres. Mas pouco há para se comemorar de fato. Sabemos que ainda existe muito para ser feito em relação aos direitos das mulheres e, em específico, das mulheres com deficiência - já que elas são duplamente discriminadas, pois além de serem alvos do capacitismo, sofrem o machismo diariamente. E se a gente for falar de mulher com deficiência e negra, essa, enfrenta também o racismo.

Como sobreviver a um cenário desses? É importante deixar claro que as necessidades das mulheres com deficiência estão garantidas em leis nacionais e internacionais. Mas quando a gente fala em prática, a situação é mais complexa. Estar na legislação não significa garantia de direito.

Para piorar, temos um governo que insiste em regredir no campo dos direitos. É um retrocesso quando uma proposta que visa acabar com a Lei de Cotas é apresentada e sustentada pelo governo. É uma afronta também a proposta de derrubar a educação inclusiva e voltar ao tempo da segregação social.

Outro assunto chocante que toma proporções cada vez maiores é o assédio sexual e violência contra mulher no Brasil. A própria casa, o lugar onde deveriam ter proteção, é onde as mulheres mais sofrem mais.

Segundo o Atlas da Violência 2018, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), dos 22.918 casos de estupro apurados em 2016, 10,3% das vítimas tinham alguma deficiência. Desse total, 31,1% tinham deficiência intelectual e 29,6% possuíam transtorno mental. Para piorar, a histórica subnotificação de casos de estupro tende a aumentar quando a vítima é uma pessoa com deficiência.

Para se ter ideia, a Lei Maria da Penha foi sancionada em 2006, mas as mulheres com deficiência só foram incluídas depois de 13 de sua existência, com a criação da Lei 13.836, de junho de 2019. Um gigantesco atraso que inviabilizou a possibilidade de denúncias, agravando ainda mais a situação de violência no Brasil.

Com certeza não é momento para retrocessos. O mês da mulher serve para fortalecer a luta em direção à igualdade das mulheres, que são mães, filhas, trabalhadoras, donas de casa, conselheiras e exercem funções inimagináveis.

As mulheres, sobretudo as que têm algum tipo de deficiência, estão cansadas do descaso, da violência e da desigualdade com que são tratadas. Ainda existe muito preconceito, discriminação e machismo para combater.

Eu quero me solidarizar com as mulheres com deficiência, que estão mais expostas e são menos protegidas, tanto em seus lares quanto fora deles, se formos considerar as inúmeras barreiras que enfrentam de acessibilidade e de inclusão. Uma mulher com deficiência tem o dobro de motivos para lutar por igualdade.

Desejo para você, mulher com deficiência, muita coragem para buscar seus direitos, para se informar, para lutar. Tenho muito orgulho de vocês!

Excelente sexta-feira e abraços aquáticos para todos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL