PUBLICIDADE
Topo

Clodoaldo Silva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Antes de julgamento, André Brasil pede transparência no esporte paralímpico

André Brasil, nadador paalímpico - Fernando Frazão/Agência Brasil
André Brasil, nadador paalímpico Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

27/02/2021 04h00

Dono de 14 medalhas paralímpicos, André Brasil vive momentos de ansiedade antes do julgamento do seu caso de reclassificação na Justiça alemã. A audiência que definirá seu futuro como esportista paralímpico está marcada para a próxima terça-feira (2).

Em abril de 2019, o Comitê Paralímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês) mudou os critérios de classificação para equilibrar as deficiências dos atletas da modalidade, tornando Brasil, que competia pela categoria S10, que reúne nadadores com menor grau de deficiência, inelegível.

Em entrevista exclusiva o atleta fala sobre a dificuldade que teve para aceitar a decisão e revela que teve crises de ansiedade e depressão e precisou buscar ajuda psiquiátrica e fazer terapia após a decisão. O nadador critica a subjetividade dos critérios para reclassificação de atletas paralímpicos, fala sobre a importância do apoio da família e amigos e diz que tem usado o esporte como um aliado para enfrentar o processo.

Você foi pego de surpresa com essa reclassificação?

Eu acho que todo mundo foi surpreendido com a minha reclassificação. Na verdade, todo mundo que teve esse tipo de alteração a um resultado diferente por um sistema novo foi pego de surpresa.

Para que serve a reclassificação e de quanto e quanto tempo é realizada?

A reclassificação, assim como a classificação inicial, serve para nivelar os atletas, para que as deficiências, que são muitas, sejam equiparadas para a natação especificamente. Cada classe [existem 14] serve para que a gente tenha um senso de justiça de quanto cada atleta vai produzir dentro da água. Então deficiências, doenças ou patologias diferentes são mais aproximadas para que dentro da água fique mais igual possível. Teoricamente, o Comitê Paralímpico Internacional determina que a cada ciclo [a cada quatro anos] esse manual, esse sistema, seja revisto, mas não obrigatoriamente.

Você acredita que a reclassificação tem cumprido o seu papel original?

Falta um pouco mais de ciência no que diz respeito à classificação funcional. A gente precisa tirar um pouco dessa subjetividade. Dessa coisa de só observação do avaliador ou do classificador para quanto aquilo que o atleta tem. Eu acredito que [a reclassificação] não tem cumprido, com tanta eficácia, [esse papel] como deveria fazer em um sistema que busca igualdade.

Em seu desabafo na internet, quando ocorreu toda a sua reclassificação, você, à época, disse que os atletas são tratados como números. Explique isso de forma mais clara?

Eu acho que isso ainda não mudou. O esporte deixou de ser muito mais a paixão interna, a coisa da pessoa sonhar com esporte, buscar uma paralimpíada, buscar um sonho maior, porque o esporte se tornou mais business [negócio]. Seja o esporte olímpico ou paralímpico. Ele acaba produzindo muito mais esse lado empresarial do que realmente paixão por paixão. O que Pierre de Coubertin [criador dos Jogos Olímpicos na Era Moderna] pregou no esporte olímpico, ou o verdadeiro sentido do esporte paralímpico, que começou para você dar vez ou dar voz às pessoas com deficiências, não está acontecendo hoje.

O que a reclassificação e o banimento de um atleta paralímpico como você, com vários anos de carreira, títulos, e reconhecimento nacional e internacional, na prática, refletem no esporte paralímpico?

A injustiça acontece, o preconceito impera, e um esporte que deveria ser inclusivo acaba sendo exclusivo. Exclusivo para uma minoria, exclusivo para um grupo. Como eu falei, não foi assim que começou o esporte paralímpico. Ele começou como um direito de todos pudessem praticar esportes. Então eu acho que é isso que não representa nesse momento.

O que isso reflete no ser humano André?

Especificamente, no meu caso, a gente teve aí um ponto [André foi classificado com 286 pontos, um ponto a mais do que o máximo para se enquadra na classe S10]. E esse um ponto foi dado basicamente por uma habilidade construída ao longo de diversos anos de trabalho. Eu conversei com a maioria dos classificadores, até porque estudei três anos e meio de fisioterapia, e a única coisa que eu conseguia entender é que os estudos fisiológicos, da cinesiologia, do movimento não mudaram. É basicamente como se eu estivesse sendo punido por esse um ponto, conquistado com vários anos treinando, melhorando a eficácia para um movimento específico de tornozelo, que foi o que eles pontuaram e que hoje me deixa fora do esporte. Entra novamente nessa questão da ciência, porque, a olho nu, alguém, numa escala de 0 a 5, me deu um grau 3 de força. Mas, aos olhos de uma máquina, esse grau basicamente seria nulo para esse tipo de movimento. Então ainda é muito controverso e ainda é muito surreal para mim.

Você acredita que a reclassificação deve ser repensada sob a ótica científica e humana juntas?

Volto a falar que o esporte foi criado para que todos tivessem oportunidade. Hoje a gente tem o Comitê Paralímpico Internacional como a única empresa, ou o único membro, que teoricamente abrange todas as patologias. Porque se eu for falar de Special olympics, a gente vai falar de um nicho ou de um grupo específico que são indivíduos com síndrome de down. Eu tenho visto ainda, em alguns países como Austrália e o Reino Unido, classes que são específicas para surdos-mudos e autistas, mas pouco se fala isso dentro do IPC. Eu acho que quando eu trago para esse senso de reflexão de indivíduo, o André falando por si só, é aquilo que ainda remete à humanidade. As injustiças, os preconceitos são coisas que estão muito aquém de evoluir. Eu acho que é o momento para se falar muitas coisas, para se modificar algumas vertentes, quebrar alguns paradigmas e para que isso mude um pouco. Então acredito que o esporte paraolímpico deveria sim ser olhado dentro dessas duas óticas, tanto da questão científica, quanto da humana. Porque a gente modifica ou transforma a vida de um indivíduo dando oportunidades. E quando a gente traz para holística científica, eu não vou dizer nem especificamente da classificação, mas eu vou dizer no âmbito de atividade de vidas diárias, o quanto o esporte pode ser produtivo para a questão científica como um todo, gerar melhore próteses, melhores órteses, uma qualidade de vida melhor como um todo. Seria, para mim, nesse caminho que o esporte paralímpico deveria seguir e não para esse lado empresarial.

Automaticamente, após você se tornar inelegível, você perdeu patrocínio, perdeu sua sustentabilidade? Se sim, como você tem conseguido se reinventar hoje?

Quando eu me tornei inelegível eu fiquei extremamente preocupado porque [competir] é minha vida, é o meu ganha-pão. Então ficar de fora do esporte é simplesmente deixar de custear a minha vida, da minha família, do meu filho. Trazer à tona coisas que eu deixei para trás no caminho, como a faculdade, que eu deixei de lado por conta da carreira de esportista, foi um momento muito difícil. Eu levei alguns meses para entender o que estava acontecendo. O CPB, como um todo, manteve ainda naquele ano alguns patrocínios, até porque eu tinha competido antes da minha reclassificação. Mas, posteriormente, em outubro ou novembro daquele ano, eu já não mais tinha nenhum tipo de patrocínio. Então o meu ganha-pão basicamente se esvaiu por aí.

Você conseguiu voltar a treinar?

Eu lutava para, de alguma forma, voltar a treinar ou continuar a treinar para manter o meu corpo. Mas eu acho que é muito difícil falar em treinamento porque a gente fica averso a todo o turbilhão de coisas que estão acontecendo. Entre idas e vindas de treinamento, entre ficar um pouco recluso, um pouco na minha, já são quase um ano e meio, dois anos dentro de que tudo isso está ocorrendo.

Além do apoio com o processo na justiça, que já é um lado muito positivo, o CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) te ofereceu que tipo de suporte?

Desde o primeiro momento eles super apoiaram por mais que eu quisesse entender que o mundo é um pouco capitalista, como um todo. Então perder os patrocínios não era o principal, mas o meu medo maior era realmente perder o meu ganha-pão. E o CPB sempre esteve do lado. Naquele ano que eu fui considerado inelegível, eles me ofereceram a oportunidade de nadar lá. Eles também deixaram à disposição os profissionais que lá atendem para que eu pudesse buscar alguém.

Você buscou ajuda profissional para enfrentar tudo isso? Que tipo de ajuda?

Quando eu vejo tudo isso acontecendo é difícil a gente fugir da depressão, uma doença que hoje é falada e que pouco se falava no passado. De repente eu tinha uma história com 14 medalhas, com um monte de medalhas em mundiais e parapan-americanos, e tudo isso foi tirado de mim, sem mais nem menos. Por mais que as pessoas digam que isso não vai ser apagado, que é a história do seu país que você contribuiu e tudo mais, para mim ainda é muito difícil entender. O esporte que deveria ser propiciado para a pessoa com deficiência, que deveria ser inclusivo, acaba se tornando excludente. E de uma forma muito cruel, porque eu não tive a oportunidade de escolher se eu queria ou não parar. Eu simplesmente fui colocado de lado. Isso gerou crises de ansiedade, desapontamentos, tristezas, que geraram algumas coisas para as quais eu tive que buscar ajuda. Busquei psicólogo e psiquiatra. E tenho tentado de alguma forma me reerguer. Hoje eu entendi que o esporte continua para mim como um remédio. Eu também tenho que entender que meu corpo já não é mais daquele jeito, formado voltado para o alto rendimento. Ainda tenho lutado diariamente para com isso. A gente acha que é super-homem e que voltar a fazer tudo que fazia antes. Eu também tenho tentado entender o novo momento de vida, o entendimento diferente e, ao mesmo tempo, tentando ter fé e lutando para que pelo menos eu tenha oportunidade de voltar e me aposentar dignamente. Isso seria o mais humanitário a ser feito. Essa é a minha visão.

Quem esteve ao lado para enfrentar todo esse processo?

Família e amigos. O que é a vida de uma pessoa com deficiência sem as nossas muletas, órteses e próteses? A gente não conseguirá seguir adiante. Então essas pessoas foram extremamente importantes, dou um tremendo valor por tudo. Sem essas pessoas não seria possível aceitar que você faz parte de um processo depressivo, entender que você precisa de ajuda para sair desse buraco grande, que não foi você que se enfiou, mas que tudo conspirou a favor disso.

Mesmo com todas as dificuldades, a gente percebe que você tomou um posicionamento de embate contra a classificação não só por causa do seu caso, mas que tem utilizado ele para mobilizar e para mudar o processo. Como tem sido a reação dos atletas?

Eu acho que precisa de alguém que possa levantar a voz, levantar um posicionamento sobre algumas coisas que o esporte ainda promove. Pela segunda vez que isso acontece no nosso país. Vai acontecer de certa forma com o Daniel, não diretamente, mas com os atletas que caíram de classe, que tomaram, por exemplo, os recordes dele. Não sei se vai ser diretamente para mim, mas eu acho que o esporte precisa tomar um posicionamento, um rumo diferente, mobilizando, unindo forças, de alguma forma, batalhando para que isso aconteça. Algum momento isso vai acontecer. Eu não sou o primeiro, eu não sou o último, mas o preconceito ainda impera no esporte adaptado. Eu acredito que a gente unindo forças possa mostrar às pessoas que regem o esporte paralímpico em nível mundial que pode torná-lo de uma forma diferente. É um critério [para reclassificação] utilizado, eu entendo que seja um sistema criado, mas a gente tem visto que ainda é muito falho. Então a gente pode melhorá-lo sim, mas a gente precisa dar um pouco mais de voz a quem realmente produz o esporte como um todo. A gente que está ali na linha de frente. É o atleta que mete a cara, mas muitas vezes também se sente acuado ou constrangido quando o sistema simplesmente denota obrigações. O esporte não vai deixar de ser esporte, mas a gente de fato precisa ter um pouco de voz.

Seu caso vai ser julgado no dia 2 de março. Qual o recado você tem a dar para o Comitê Paralímpico Internacional?

Bons olhos são daqueles que veem a verdade. Bons olhos são aqueles que veem a oportunidade de você, no mundo com milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, mudar a vida de milhares. Acho que esse é o meu recado para o IPC. Outro ponto, no meu caso, é a vontade de transformar, de alguma forma. Eu acho que Papai do Céu não dá para as pessoas aquilo que elas não possam suportar. Se eu tenho que ser o cara que, de alguma forma, dá a cara a tapa e mostra o que está acontecendo, serei essa pessoa.

Você ajudou o nosso país a ser uma potência paralímpica. Isso ninguém pode tirar, não é mesmo? Mas como explicar de forma clara tudo isso para o Brasil. Existe uma maneira de explicar que não fira a credibilidade do esporte paralímpico no Brasil e no mundo?

Diretamente para os fãs é difícil você falar em não perder a credibilidade. Hoje o que o sistema faz, para mim, é exatamente isso. É você construir e desconstruir ícones em cima de algumas mentiras. As pessoas que estão inseridas no sistema sabem que existem atletas e profissionais que podem fazer de má fé. É difícil virar e falar que o esporte não perdeu algum tipo de credibilidade. Mas se eu falar diretamente para aqueles que acreditam no esporte e levam ele de uma forma verdadeira, eu acho que é a coisa mais incrível. O esporte é transformador, seja ele saúde, alto rendimento, qualquer nível dentro dessa escala que a gente coloque. O esporte é o primeiro passo para que as pessoas com deficiência queiram de alguma forma moldar a vida. Ele é formador de caráter, formador de opinião, de alguma forma, te gera saúde.

Que tipo de aprendizado você tirou de tudo isso?

Que a gente nunca está sozinho nessa vida. A vida ainda continua como eletrocardiograma, com altos e baixos. Mas de certa forma, a gente consegue ver de verdade quem são aqueles que estão do seu lado quando você está em baixa. Eu sou extremamente grato aqueles que, de alguma forma, participam da minha vida, aqueles que fazem o André homem querer ser sempre melhor e poder produzir algo melhor.

Você pode nos dizer como estão seus sonhos. É possível ter sonho no meio do furacão?

Mesmo dentro de um turbilhão, os sonhos são renováveis. A vida não acaba com o esporte. A vida continua. Os sonhos são renováveis, as vontades são diferentes, as mudanças podem acontecer, assim como o esporte fez na minha vida. Então se ele vai estar dentro ou fora, ele ainda vai continuar sendo transformador na minha vida. Como ele foi, como ele é e como ele ainda vai ser. Eu tenho buscado com o esporte uma forma de remédio e terapia para me reerguer. Não sei se como atleta de alto rendimento, só atleta para saúde ou atleta de final de semana, mas sou um André renovado, com esperanças, com objetivos. Sou um André de pé, ainda com passos claudicante, cochos e mancos, mas um André que segue em frente e que batalha pelos seus objetivos e sua vida.

*Entrevista feita por Gisliene Hesse, jornalista, mestre em comunicação, ex-coordenadora de comunicação do CPB (2003/2004). Especialista em coberturas nacionais e internacionais de esporte paralímpico e atuante na área de defesa de direitos das pessoas com deficiência.