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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A 200 dias das Paralimpíadas, André Brasil segue sem resposta

André Brasil conquista medalha de bronze nos 100 m borboleta S10 - Matthew Stockman/Getty Images
André Brasil conquista medalha de bronze nos 100 m borboleta S10 Imagem: Matthew Stockman/Getty Images
Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

05/02/2021 16h46

Já pensou dormir com uma profissão e acordar no outro dia e te tirarem a oportunidade de continuar? Foi isso que aconteceu com o meu amigo e referência mundial na natação paralímpica André Brasil. Em abril de 2019, uma comissão do Comitê Paraolímíco Internacional (IPC, na sigla em inglês) tornou o atleta inelegível para o esporte, baseando-se na mudança de critérios de classificação funcional para a natação paralímpica.

Desde então, André está lutando na justiça para seguir na modalidade. Mas, faltando 200 dias para o início dos Jogos Paralímpicos de Tóquio, a situação dele ainda não foi resolvida.

De uma hora para outra, acabaram com as expectativas da vida esportiva de um grande representante brasileiro. Tiraram dele o que ele mais sabia fazer. E olha que fazia muito bem. Só em Jogos Paralímpicos, a fera conquistou 14 medalhas, a mesma quantidade que eu tenho.

Eu sei que fica mais difícil de lembrar, mas em 2008, em pleno Jogos Paralímpicos, também fui reclassificado. Eu prossegui, porque no meu caso eu subi de classe. Sem muitas chances como antes, eu decidi prosseguir minha carreira. Contei com o apoio da minha família e de alguns amigos - um deles foi o André.

O tema classificação é algo que nós, atletas paralímpicos, engolimos a seco. Eu compreendo que a classificação é para equilibrar as deficiências e não ocorrer injustiças. No entanto, tem algo de muito errado nisso tudo. De um lado, nós queremos dizer que o esporte paralímpico é de alto rendimento, mas quando estamos no nosso auge e obtendo bons resultados, vem o Comitê Paralímpico Internacional e nos reclassifica ou nos torna inelegível?

André, eu, Luís Silva e outros tantos atletas experimentamos isso. Atletas de muitos países passam por isso. De dormir em um dia e sermos campeões e acordar no outro e ficarmos perdidos com o que fizeram na nossa trajetória como atletas. Eu superei, com muito custo. O André está tentando de tudo para entender e lutar pelos seus direitos. Como você vira para um atleta que defendeu a sua nação tantos anos e diz que ele não é mais atleta? Inimaginável.

Em 2000, Luís Silva. Em 2008, eu, Clodoaldo Silva. Em 2019, André Brasil e a retirada de possibilidades de resultados expressivos para Daniel Dias. Triturando não só atletas, mas vidas e a história de uma nação.

O movimento é cíclico. Como explicar para um atleta que a deficiência dele continua a mesma, mas ele tem que subir de classe, como foram o meu caso e os de tantos outros atletas ao redor do mundo? Fica parecendo que não podemos treinar muito para obter resultados, que aí estamos no limbo.

A credibilidade do esporte paralímpico está em jogo, mas muito mais do que isso. Estamos tratando de seres humanos que têm representatividade, sonhos e que dedicaram suas vidas ao esporte e ao país.

O próprio André falou sobre isso quando foi reclassificado. "Somos tratados como número de pontos na classificação e não como seres humanos. Isso é o que chamamos de esporte paralímpico?"

Um ídolo não se constrói de uma hora para outra. O que a gente fala agora para a sociedade? Para as crianças com e sem deficiência? E o Comitê Paralímpico Internacional vai continuar com esse caminho torto em relação à classificação? De tempos em tempos, a gente torce, vibra e chora por um herói nacional e depois vem o IPC e acaba com ele.

É preciso rever a classificação dos atletas paralímpicos com urgência. E a resposta para o André, gente, cadê? Ele não teve escolha. Pararam com o André. A vida de uma pessoa importante para o esporte do Brasil parou de uma hora para outra. Quantas vidas mais serão assaltadas pela reclassificação e o IPC continuará insistindo nesse modelo? IPC tem que repensar o que ele quer fazer com os ídolos paralímpicos.

Entenda o caso do André Brasil

Faz um ano e nove meses que André Brasil foi considerado inelegível pelo Comitê Paralímpico Internacional. O CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) entrou com recurso para rever a decisão do órgão, que negou o pedido. O atleta, juntamente com o CPB, aguarda uma resposta da justiça alemã para que possa decidir o seu destino no esporte.

André foi considerado inelegível pela banca do IPC após 15 anos de carreira, 14 pódios paralímpicos, 32 mundiais e 21 parapan-americanos. As reclassificações pelas quais o brasileiro passou avaliaram que ele não era deficiente 'o suficiente' para se enquadrar na classe S10. Como não há categorias acima, André foi considerado inelegível


Abraços aquáticos e bom fim de semana!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL