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Clodoaldo Silva

Consciência Negra: Beto entra para a estatística de violência contra negros

Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

20/11/2020 17h24

Hoje, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, levantamos com a notícia de mais um assassinato de negro. O crime aconteceu na noite de ontem, véspera do dia que lembra as bandeiras de defesa de negros e negras, no supermercado Carrefour, na zona norte de Porto Alegre. João Alberto Silveira Freitas (conhecido como Beto), negro, 40 anos, discutiu com uma funcionária do caixa e foi levado para o estacionamento por um segurança e um policial militar. Lá, ele foi agredido, imobilizado e espancado até a morte. Os dois foram presos por homicídio doloso, ou seja, com a intenção de matar.

Réplica da imobilização que também levou à morte o igualmente negro George Floyd, em maio deste ano, em Minneapolis, nos Estados Unidos. O afro-americano foi asfixiado por um policial branco. O caso repercutiu em todo o mundo, e a frase "Vidas Negras Importam" ganharam as ruas. Tão parecido com o caso de João Alberto que a gente tenta entender, mas não consegue.

Isso tudo tem relação comigo, com você que está lendo, com a iniciativa privada e com o Estado. Não podemos cruzar os braços e dizer que isso não tem relação com a gente. Ou todos se unem contra o que tem ocorrido com os negros e negras do nosso país ou a coisa vai piorar.

Essa caminhada dos negros e negras contra a desigualdade de direitos e a violência não é só deles. É uma luta conjunta. Então hoje é o Dia da Consciência Negra em que todos precisamos nos unir. Não precisa ser negro para ser antirracista. Quantos negros mais terão que morrer para que a violência contra eles acabe?

João Aberto foi morto por segurança em um supermercado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
João Aberto foi morto por segurança em um supermercado
Imagem: Arquivo pessoal

Eu não gostaria de ter começado o meu artigo falando de mais um caso de violência, mas não podemos esconder que estamos em má situação. As cenas da morte do Beto são muito chocantes. O caso dele é mais um a entrar para as estatísticas da violência contra os negros. O Atlas da Violência 2020 aponta que a taxa de homicídios de negros cresceu 11,5% entre 2008 e 2018, enquanto a de não negros caiu 12%. Neste período, os negros somam 75,9% dos homicídios. A cada indivíduo não negro morto, 2,7 negros são assassinados.

Os números ficam mais assustadores quando fazemos um recorte pela faixa etária e pelo gênero. Em 2018, 68% das mulheres mortas no país eram negras. Entre os jovens, mais da metade do número de mortos são jovens negros.

Hoje é dia é de luta, de afirmação e de muita resistência, assim como são todos os dias. O que a gente quer é não acordar mais e saber que uma pessoa foi morta por causa da cor da sua pele. Não queremos ler os números e ver que existem disparidades para todos os lados. Na educação, no mercado de trabalho, nos serviços etc. A gente não quer também ver uma candidata que ganhou as eleições ser ameaçada de morte porque é negra. Estamos exaustos.

Em pleno século 21, a gente está cansado de falar sobre negros que são assassinados com violência bruta. Hoje foi a vez do Beto. Neste ano, o "Vidas Negras Importam" entrou para mais um capítulo da história de negação, preconceito e discriminação em âmbito mundial. Algo tão óbvio que é a importância da vida do ser humano teve que ser gritado em bom som por vários cantos do mundo. E o pior é que muita gente ignorou escutar.

*Esse texto foi escrito em parceria com Gisliene Hesse, jornalista, antirracista, mestre em comunicação, atuante na área de defesas de direitos, profissional precursora do esporte Paralímpico.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.