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Clodoaldo Silva

Até quando? Enquanto a sociedade achar que o racismo é algo natural

20.nov.2013 - Manifestantes carregam cartazes durante Marcha da Consciência Negra - Reinaldo Canato/UOL
20.nov.2013 - Manifestantes carregam cartazes durante Marcha da Consciência Negra Imagem: Reinaldo Canato/UOL
Clodoaldo Silva Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

Clodoaldo Silva

13/08/2020 09h54

Mais quantos Matheus a gente vai ter que ver passando por menosprezo, desrespeito e racismo no nosso país e pelo mundo afora? Definitivamente, o racismo não é um caso isolado. Ele está impregnado na sociedade e, por mais que a gente tente argumentar sobre o assunto, é pouco. A pergunta que não quer calar é: até quando?

Nesta semana, dois Matheus sofrerem agressões verbais e físicas por causa da cor da pele, da posição social, do trabalho que exerce. Um deles em Valinhos, interior de São Paulo, agredido por um morador do condomínio. E outro, em um shopping na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, agredido por policiais militares.

E não para por aí. Sentença que foi publicada nesta terça-feira, 11 de agosto, e divulgada hoje pela mídia chama a nossa atenção por conta de conteúdo considerado racista. No texto, a juíza Inês Marchalek Zarpelon, da 1ª Vara Criminal da Comarca da Região Metropolitana de Curitiba, PR, justifica a condenação pelos crimes, uma vez que o homem é negro. Confira um trecho abaixo:

"Sobre sua conduta social nada se sabe. Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça, agia de forma extremamente discreta os delitos e o seu comportamento, juntamente com os demais, causavam o desassossego e a desesperança da população, pelo que deve ser valorada negativamente", escreveu Zarpelon na página 107, de 115, de sua sentença condenatória.

Entregador do iFood é alvo de ofensas durante entrega a condomínio de alto padrão em Valinhos, - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Entregador do iFood é alvo de ofensas durante entrega a condomínio de alto padrão em Valinhos, interior de São Paulo.
Imagem: Reprodução/Twitter
No condomínio de luxo de Valinhos, no shopping da Ilha de Governador, na sentença dada por um juiz, no campo de futebol, nos estabelecimentos, nas ruas... É o racismo nosso de cada dia que nos revolta, mas que continua existindo.

É um racismo estrutural. Pra mim é simples entender que o Brasil é um país que foi estruturado com base na discriminação que privilegia e favorece brancos e desfavorece negros e indígenas. Mas tem muita gente que não entende.

Discuti com um amigo recentemente sobre as cotas de negros nas universidades. Disse que essa era uma forma de dar mais oportunidade aos negros e amenizar as perdas que eles tiveram durante séculos. Meu amigo respondeu: "Não acho que é dessa forma que iremos resgatar o que foi perdido". E eu perguntei então: "E como você acredita que deva ser?" Ele respondeu: "Não precisamos forçar a barra e colocar negros e negras nas universidades". Eu não me calei e fiz mais uma pergunta: "Você teve algum amigo negro durante o ensino médio ou na universidade?" Ele pensou, pensou e pensou e disse: "Não me lembro".

Com o "não me lembro" dele, eu cheguei à conclusão que os meus argumentos poderiam ser os melhores, mas isso não convenceria o meu amigo qu, além de termos uma dívida histórica com os negros, as estatísticas apontam uma desigualdade enorme entre brancos e negros no nosso país. Vale lembrar de alguns números que impressionam:

- Em média, os brasileiros brancos ganhavam, em 2015, o dobro do que os negros: R$ 1589, ante R$ 898 mensais (dados da pesquisa "A distância que nos une - Um retrato das Desigualdades Brasileiras" da ONG britânica Oxfam);

- Entre 2003 e 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%. O índice de feminicídios de brancas caiu 10% no mesmo período de tempo (dados do Mapa da Violência 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais);

- De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças (Atlas da Violência 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública);

- 61,6% dos presos no Brasil são pretos e pardos - Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen).

Nós vemos desigualdade também no setor cultural, nos índices de desemprego e por aí vai. O racismo ainda será muito discutido enquanto tivermos essas desigualdades latentes. De uma coisa eu sei. As pessoas brancas do Brasil precisam identificar que são privilegiadas. O meu amigo não é só um caso isolado. A gente precisa olhar para nós mesmos e refletir quando os brancos levaram e ainda irão levar mais vantagem.

Eu não sei até quando a gente vai ter que discutir sobre o racismo. Sobre o racismo individual. Sobre o racismo institucional e sobre o racismo estrutural. Até quando casos como o dos dois Matheus irão acontecer? Até quando a gente terá que ouvir torcedores xingarem jogadores de "macacos" e agredi-los por causa da sua cor? Até quando vamos ver negros sendo maltratados e ainda falar que não existe racismo?

Vamos começar por nós mesmos. Não podemos desistir de confrontar comentários como os que tive que ouvir do meu amigo. A gente não pode pensar que o racismo é natural. Brancos e negros devem se unir nessa caminhada. Como afirma Angela Davis: "Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista".

Excelente quinta-feira e abraços aquáticos para todos!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.