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Clodoaldo Silva

Crise esportiva causa perdas irreparáveis no desenvolvimento social mundial

Piscina da Vila Olímpica do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro - Ugo Soares/UOL
Piscina da Vila Olímpica do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro Imagem: Ugo Soares/UOL
Clodoaldo Silva Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

Clodoaldo Silva

23/07/2020 04h00

Falaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, galera!

Na semana passada, depois de muita pressão e negociação, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei que prevê o pagamento de auxílio emergencial a atletas e profissionais ligados ao esporte, como professores de educação física e massagistas. A medida agora tem que ser votada no Senado Federal.

Esse projeto foi proposto no fim de maio, mas encontrou uma resistência por parte do governo, principalmente por conta do Ministério da Economia, que discordava dos valores da proposta. Depois de longa negociação por parte de deputados e uma pressão por parte de entidades esportivas, federações, confederações e atletas, foi feito um ajuste na proposta, que limita os gastos em até 1,6 bilhão para o setor, e a proposição passou pela primeira casa legislativa.

A principal medida é justamente o auxílio de três parcelas de R$ 600,00 para atletas e pessoas de baixa renda envolvidas com o esporte. O projeto favorece também as entidades para que elas refinanciem seus débitos diretamente com a União. Outro ponto que o projeto atende é a questão da governança. A proposta mexe na Lei Pelé em alguns itens para alterar os pontos que tratam dos dirigentes e para permitir que um dirigente envolvido em corrupção possa pagar os cofres públicos com seus bens particulares. O PL ainda prevê a prorrogação de prestação de contas de projetos incentivados.

Essa é uma luz lá no fim do túnel. Essas medidas irão amenizar o impacto no setor. Acredito que a atuação das entidades e dos atletas que debateram com o relator da proposta, o Deputado Alexandre Frota, foi importantíssima. Isso só mostra que nós, ex-desportistas, esportistas, entidades e clubes, devemos estar atentos e atuar, cada vez mais, em prol do esporte. Temos que entender que a destituição do Ministério do Esporte contribuiu para enfraquecer a presença do tema no Congresso Nacional, inviabilizando articulações políticas do setor. Então somos nós que devemos nos unir e pressionar e lutar para que o esporte também esteja no centro das discussões legislativas.

Os prejuízos no esporte são evidentes em todo o mundo. Não estamos tratando somente de cifras, já que o setor é um contribuinte forte para o desenvolvimento social do mundo. É uma área que faz diferença na saúde, na educação e na inclusão social dos indivíduos.

Não tem sido nada animador o cenário em que vivemos dentro do esporte. A proteção da saúde dos atletas, em específico, dos atletas com deficiência — muitos deles de alto risco —, o cancelamento de eventos esportivos em níveis internacional, nacional e regional e, sem esquecer, o adiamento dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, que serão realizados em 2021.

Parar as atividades esportivas significa também acabar com muitos empregos mundo afora. Não estamos falando em desemprego apenas para os profissionais do esporte. O buraco é mais fundo. Esporte envolve eventos, bilheteria, lazer do público, turismo, transmissão de mídia e por aí vai...

Segundo dados publicados pelas Nações Unidas no seu documento "The impact of COVID-19 on sport, physical activity and well-being and its effects on social development" (em português - O impacto do COVID-19 no esporte, atividade física e bem-estar e seus efeitos no desenvolvimento social), "o valor global da indústria do esporte é estimado em US$ 756 bilhões anualmente".

Análise prévia da Sports Value, empresa de marketing esportivo, aponta que somente o esporte profissional global deve perder cerca de 15 bilhões de dólares por causa da pandemia.

Se o esporte profissional, que conta com grandes clubes de futebol, ligas de basquete, voleibol e tênis, entre outros, está sentindo na pele as perdas que o momento tem proporcionado, imagina as entidades menores? E o esporte de base, constituído por pequenas associações, centros esportivos e clubes amadores? Quem pode dar conta desse estrago na vida de esportistas que não têm tanta expressão, na área do esporte para pessoas com deficiências ou em projetos sociais que visam resgatar crianças e adolescentes em situação de risco?

As perdas são irreparáveis quando pensamos não só na questão financeira, mas no ponto de vista educacional, social, psicológico e físico. Não iremos conseguir contar o quão afetado está sendo o desenvolvimento social global. O próprio relatório das Nações Unidas trata o assunto com amplitude.

"O esporte tem sido considerado uma ferramenta valiosa para promover a comunicação e construir pontes entre comunidades e gerações. Através do esporte, vários grupos sociais são capazes de desempenhar um papel mais central em direção à transformação e desenvolvimento social, particularmente em sociedades divididas. Nesse contexto, o esporte é usado como uma ferramenta para criar oportunidades de aprendizado e acessar populações geralmente marginalizadas ou em risco", aponta o estudo.

Essa é uma conta que não fecha, que não tem sobra. No esporte de base ou em programas socioeducativos não temos como falar em diminuição de salários ou em redução de quadro de pessoas. Estamos tratando de salários muito pequenos, de indivíduos que trabalham em prol de uma causa e, às vezes, os envolvidos dependem do esporte para sobreviver. O que fazer?

Que instrumentos financeiros as gestões dos países têm adotado para essa área composta por tantos e tantos trabalhadores que se tornaram invisíveis diante da quantidade de desafios impostos pelo momento atual?

No Canadá, no mês de abril o ministro Steven Guilbeault anunciou um fundo de 500 milhões de dólares para ser utilizado nos setores cultural, patrimonial e esportivo do país. O objetivo do fundo foi atender necessidades financeiras das organizações afetadas desses setores para que elas continuassem a apoiar artistas e atletas. Essa medida foi complementar a outras anunciadas pelo governo.

Nos Estados Unidos, cidades e estados renunciaram cobranças de impostos sobre salários dos jogadores, ou impostos sobre vendas e nas taxas geradas dentro e fora dos estádios. Medidas que visam amenizar o rombo no setor.

Outros países seguem a mesma tendência de auxiliar o esporte nesse momento tão delicado. Já não era tempo de a medida emergencial ser aprovada na Câmara. Temos que manter uma atuação forte para que ela passe pelo Senado Federal e comece a funcionar o quanto antes.

A realidade é que as atividades da área estão sendo retomadas aos poucos no Brasil e em outros países. Mas não sabemos ainda quais os verdadeiros desafios que teremos pela frente. Sabemos que o esporte resgata vidas e que é importante para a saúde da população, que ele previne doenças e, sendo assim, resguarda os cofres públicos.

Sabemos que o nosso país enfrenta uma quantidade enorme de problemas que são diferentes de muitos problemas dos países desenvolvidos, mas não podemos tratar o esporte como complemento quando, na realidade, ele faz parte de toda a coluna vertebral de qualquer gestão de Estado maior. Ainda mais quando estamos falando de um país como o nosso, cheio de problemas sociais, educacionais e com poucas políticas públicas para atender todos eles.

Nós, que atuamos na área do esporte, torcemos para que o PL seja logo aprovado no Senado. Quando tudo isso acabar, tenho certeza de que a área esportiva será mais essencial do que antes. Teremos que correr atrás do prejuízo, já que o esporte é uma ferramenta e tanto que ajuda a manter e resgatar vidas. Estarei de olho nos próximos capítulos do PL no Congresso Nacional.

Abraços aquáticos e excelente quinta-feira para todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.