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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Psicologia do Esporte é vítima de preconceito no Brasil desde a Copa de 58

Reprovação de Garrincha no exame psicotécnico na Copa de 58 causou interpretação equivocada da Psicologia do Esporte - Arquivo/Folha Imagem
Reprovação de Garrincha no exame psicotécnico na Copa de 58 causou interpretação equivocada da Psicologia do Esporte Imagem: Arquivo/Folha Imagem
João Ricardo Cozac

João Ricardo Cozac

João Ricardo Cozac é psicólogo do esporte, pós doutor em Psicologia Esportiva pela PUC-SP e membro acadêmico do Laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP. É também presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e diretor clínico da empresa CEPPE (Consultoria, Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte)

Colaboração para o UOL, em São Paulo

14/12/2021 04h00

Já imaginou o que sente o goleiro no momento de um pênalti? E como fica a mente de um atleta que comete um erro que pode representar a perda de um campeonato? Pois é... Garanto que não é nada fácil lidar com o sofrimento emocional. Aliás, as emoções que não são trabalhadas adequadamente costumam aprontar armadilhas perigosas ao alto rendimento esportivo.

No futebol e em outras tantas modalidades, a Psicologia Esportiva é a ciência responsável pelo apoio e fortalecimento psicológico e emocional a atletas e equipes. Apesar das suas sete décadas de vida, essa importante ciência do treinamento esportivo ainda é vítima de informações distorcidas e consequente preconceito no futebol brasileiro.

Olhando para trás, vemos que tudo começou na década de 50 por iniciativa do professor João Carvalhaes, que iniciou os primeiros trabalhos na área no São Paulo e na Federação Paulista de Arbitragem. Em 1958 (convidado pelo Dr. Paulo Machado de Carvalho), Carvalhaes participou da Comissão Técnica que conquistou nosso primeiro título mundial na Suécia. E foi ali que aconteceu uma "derrapada histórica" que causou um tremendo mal-estar: a reprovação de Garrincha no exame psicotécnico!

Vale lembrar que ele foi um dos craques daquela seleção, mas não teria sido aquela reprovação um indício de seu pouco saudável universo psicoemocional que o levou à morte precoce por alcoolismo?

A compreensão equivocada dos estudos do professor Carvalhaes trouxe, por várias décadas, conceitos distorcidos da Psicologia do Esporte. Desde lá, muita bola já rolou em campo, mas a boa notícia é que hoje sabemos que atleta e ser humano fazem parte da mesma unidade. E a preparação esportiva moderna deve obedecer a essa equação.

Pensando nisso, diversas equipes e seleções europeias já contam com departamentos de Psicologia do Esporte e laboratórios de alta performance mental que utilizam aparelhos extremamente modernos para o desenvolvimento da concentração, foco, velocidade de ação e reação, redução da ansiedade competitiva e até ambientes de realidade virtual para o fortalecimento de capacidades psicológicas esportivas.

Por aqui, o treinador Tite entende que não há tempo suficiente para o trabalho psicológico, uma vez que a seleção se encontra por um curto muito período a cada nova convocação.

Uma situação bem diferente da que acontece na Alemanha, por exemplo. Lá há um conjunto de psicólogos do esporte que trabalha na Bundesliga, além de um psicólogo que atua de forma fixa ao lado do treinador da Alemanha. Ele é responsável pelo acompanhamento psicológico remoto e individual dos jogadores que serão convocados e, quando a equipe se reúne, desenvolve trabalhos coletivos com foco na comunicação, integração, motivação e coesão grupal. Ex-treinador da equipe, Joachim Low confirmou numa entrevista que o psicólogo da seleção foi um dos arquitetos da conquista alemã no Mundial disputa do no Brasil em 2014.

Na Copa do Qatar, mais uma vez, nossa delegação não terá trabalho psicológico. Com uma geração jovem e cheia de demandas psicoemocionais, vamos enfrentar as pressões e os grandes desafios de um Mundial sem uma preparação adequada no campo das emoções.

Certamente ainda temos um longo caminho pela frente até que dirigentes, treinadores e jogadores compreendam a Psicologia do Esporte como mais uma área do treinamento esportivo. Afinal, atletas fortes tecnicamente podem não triunfar se a base psicológica estiver frágil diante dos desafios e pressões tão comuns no mundo da bola.

Nossos laboratórios acadêmicos de alta performance mental no esporte tem produzido conhecimentos teóricos e práticos importantes para o mundo da bola. O problema é que o preconceito cultural diante dessa área é ainda muito grande no futebol brasileiro. Basta acompanhar os times que estão substituindo o trabalho de psicólogos esportivos por palestras motivacionais dadas até por comandantes de polícia, comediantes e animadores culturais.

E o que dizer de treinadores que, chegando aos clubes, pedem a demissão dos psicólogos do esporte? Acredite, isso acontece por mais absurdo que pareça. Alguns deles chegam a dizer que farão o papel de "psicólogos" dentro das equipes. É uma banalização sem fim! E isso sem falar do evidente "exercício ilegal da profissão".

Não é de hoje que o futebol brasileiro acumula derrotas por conta da falta de trabalhos psicológicos consistentes e permanentes. Não que a presença desse trabalho seja garantia de vitória, mas a ausência pode ser determinante em algumas derrotas. Quem não se lembra da crise nervosa do Ronaldo "Fenômeno" horas antes da final da Copa do Mundo de 1998?

Ronaldo era uma espécie de "coringa" naquele time, se dava bem e era muito querido por todos! O que aconteceu na concentração da seleção abalou todos os jogadores, e sabemos bem qual foi o resultado. Mas o que nem todo mundo sabe é que o profissional que lá estava responsável pela motivação da seleção era um engenheiro (!).

Você deve estar se perguntando "o que um engenheiro sabe sobre motivação humana e comportamental no esporte sem os domínios básicos da Psicologia?". Se souber a resposta, por favor me manda.

Por essas e (tantas) outras, o futebol brasileiro está ficando ultrapassado diante da imensa evolução desse esporte em diversos cantos do mundo. Nas categorias de base, a presença de psicólogos é obrigatória por conta das exigências do Estatuto da Criança e do Adolescente. Nas equipes principais, menos de 50% dos times das séries A e B do Brasileirão investem em trabalhos psicológicos. Muitos deles pensam que "Psicologia é pra gente maluca" ou, até mesmo, "se um jogador precisa disso, que vá procurar lá fora". Muito parecido com o que acontece também fora das quatro linhas, certo?

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