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Zaidan: Revisitar as Copas do passado exige compreendê-las

Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970 - Gerência de Memória/CBF
Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970 Imagem: Gerência de Memória/CBF

27/04/2020 11h31

Emerson Fittipaldi, certa vez, falou sobre os carros de corrida dos anos 50, e o equipamento que os pilotos daquela época usavam, e o heroísmo nos tempos de Fangio. Emerson, portador de raros talentos, bicampeão na Fórmula 1, dono de um título na Indy e duas vezes vencedor nas 500 milhas de Indianápolis, compreendeu as circunstâncias, as dificuldades, os desafios enfrentados pelos que corriam naqueles dias; e enalteceu a coragem, a competência dos que, desde os anos 20 do século passado, abriram a trilha, lá nos primórdios.

Filistinos não entenderiam a descoberta de Emerson Fittipaldi, não veriam o que ele viu. A crise mundial destes dias, tirando vidas e espalhando aflições, angústias, obviamente desabou também sobre o esporte - lançou seu público e seus cronistas no refúgio do passado. É oportunidade incomum assistir ao que está tão longe, irrepetível; melhor aproveitar à maneira de Emerson: enxergar as condições únicas, específicas, e só então medir o que foi feito, realizado, conquistado.

Mostrar todos os embates das quartas em diante da Copa de 82 seria bem mais instrutivo e satisfatório para os espectadores do que exibir apenas os jogos do Brasil nos campos espanhóis. O festival dedicado à equipe do Telê desencadeou análises pretensamente definitivas sobre o Luizinho, o Waldir Peres, o Serginho.

Depois foi a vez da Copa de 70, ou antes, dos jogos do Brasil naquele Mundial. O time iniciado por Aymoré, moldado por João Saldanha, modificado em algumas posições e na tática por Zagallo, foi, ao fim, a melhor seleção que vi. Venceu, sob Saldanha, todas as partidas que disputou no classificatório; com Zagallo, ganhou dos seis oponentes que teve no Mundial, marcando 19 gols. A saída de bola com troca de passes, o repúdio ao lançamento direto de zagueiros para atacantes, o desprezo por posições fixas, imutáveis. Não foi à toa que Rinus Michels creditou grande parte de suas ideias sobre futebol à revolução húngara de Sebes e Puskás e à seleção brasileira que buscou a Jules Rimet no México.

Mas alguns dos visitantes do futuro cismaram com Félix e com Brito e construíram teses fincadas na velocidade dos times e na generosidade dos espaços. Não há problema em se criticar a atuação de jogadores, sejam ou não sejam campeões; mas a carreira de um atleta não é definida em uma solitária jornada, nem sequer em uma única competição. Não são obrigatórios os elogios ao Waldir, ou ao Luizinho, ou ao Serginho, tampouco ao Félix e ao Brito, mas a tentativa de definir se eram bons ou não, convenhamos, deve ser fundamentada na totalidade do que realizaram, não no que fizeram em um jogo ou em um torneio. E cada um deles teve carreira brilhante, cheia de conquistas e partidas memoráveis.

Para ficarmos em um caso: Serginho não comprou na lotérica a condição de maior artilheiro da história do São Paulo (que teve Leônidas, Toninho, Careca). Uma coisa é afirmar que Telê deveria ter convocado Reinaldo e Leão, e outra é subestimar os méritos, os feitos, os títulos de Waldir e Serginho. Méritos, feitos e títulos que nunca faltaram também ao Félix e ao Brito, titulares em todos os jogos do Brasil na campanha que desembocou no tricampeonato mundial. Félix, aliás, foi decisivo na mais difícil das pelejas que o Brasil disputou naquela Copa: contra a Inglaterra, na segunda rodada das oitavas.

Claro que mais difíceis para o atleta são as precipitações, os preconceitos de seus contemporâneos. Foi o que aconteceu com o Manga: um único jogo - a derrota do Brasil para Portugal na Copa de 66 - o arrancou das convocações para os dois Mundiais seguintes e fez muitos julgarem levianamente sua capacidade. E Manga, na minha opinião, foi o melhor goleiro da história do Sport, do Botafogo, do uruguaio Nacional e do Inter (Taffarel está entre os melhores que vestiram o uniforme da seleção, mas ninguém defendeu o Colorado tanto quanto Manga).

No que diz respeito à velocidade e aos espaços daqueles jogos, Tostão muitas vezes nos lembrou que aquela cadência e a marcação mais distante facilitavam a vida dos craques, mas expunham irremediavelmente o jogador inábil ou desprovido de boa técnica. Hoje, a ausência de talentos especiais pode ser compensada com preparo físico e correria. Mas é óbvio que agora, tanto quanto antes, a grandeza do futebol depende dos craques.

É comum usarmos a faculdade seletiva da memória e idealizarmos os tempos idos, apagando suas falhas, suas tristezas. Contrariamos o conceito, transformando o passado em utopia, terra que não há. Mais grave, porém, é ver o passado com olhares arrogantes; visitá-lo, sem conhecê-lo.

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