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Zaidan: Lendas sobre o Velho Mundo

Craque Ferenc Puskas em treino com a Hungria em 1953 - AFP
Craque Ferenc Puskas em treino com a Hungria em 1953 Imagem: AFP

19/04/2020 04h00

Os principais clubes da América do Sul, repletos de títulos e de craques históricos, sofrem, há tempos, os efeitos progressivos da lei Bosman, e da mudança radical no mercado do futebol, e da própria fragilidade econômica da região. Não é fácil resolver o problema, ainda mais quando se perde tempo com fantasias.

Surgiu, faz mais de trinta anos, a conversa de que o futebol brasileiro entrou em decadência técnica por ter importado da Europa a preocupação com o condicionamento físico e com a tática; em seguida, acrescentou-se a tese do "caminho inverso", ou seja, de que os europeus se inspiraram na técnica brasileira e deixaram de basear seu jogo na velocidade e na força.

Para além de simplória, a ideia, em seu conjunto, é errada, mistificadora, inconsistente; sem perceber, nega a história, e os fatos, e a realidade. Mesmo assim, esparramou-se, ganhou adeptos, tomou ares de ciência.

De cara, a premissa equivocada de que existe um modo europeu de jogar — homogêneo, invariável, estendendo -se de Lisboa aos Urais. Na verdade, não há proximidade nem sequer entre os latinos da Europa; antes, a escola italiana sempre foi diferente da francesa, que é distinta da espanhola.

Também são poucas, esparsas, as coincidências entre o tipo de jogo desenvolvido na Alemanha e o que predominava no Reino Unido e na República da Irlanda. Tampouco existiu um padrão predominante no leste europeu, e nunca houve no Velho Continente país que tenha reproduzido a escola iugoslava.

Do mesmo modo, não faz sentido dizer que o estilo de jogo da Nigéria ou o da Costa do Marfim é o mesmo que prevalece entre egípcios, argelinos e tunisianos, simplesmente porque estão todos na África.

A notória diferença entre países de uma mesma região também é clara na América do Sul: desde o início, o futebol brasileiro se distinguiu do argentino, e este tomou caminho diverso do uruguaio, e assim por diante. O que aconteceu nos últimos cinquenta anos nada tem a ver com uma suposta troca de fundamentos entre brasileiros e europeus, mas, isto sim, com a internacionalização de conceitos, soluções, achados.

Claro que, muito antes de o futebol tornar-se global, algumas ideias atravessaram fronteiras, esparramaram-se pelo mundo. Foi o caso do WM, elaborado por Herbert Chapman e que prevaleceu até sua substituição pelo 4-2-4 desenvolvido por Gusztáv Sebes na Hungria. Materializada pelos craques Kocsis, Hidegkuti, Czibor, pelo excepcional meio-campista Bozsik e pelo fenomenal Ferenc Puskás, a revolução planejada por Sebes desencadeou o 4-3-3 brasileiro, o 4-4-2 inglês, até ser radicalizada pela Holanda de Michels, que a levou para o Barcelona, onde prosseguiu com Cruyff e, depois, com Guardiola.

Mas antes que se consumasse a globalização do futebol, nem mesmo os esquemas aceitos e repetidos em todo o mundo anularam as peculiaridades, o incomum de cada academia relevante: a brasileira (uma soma— às vezes uma reunião— das escolas firmadas nos estados), a inglesa, a argentina, a alemã e a italiana. Hoje, sobrevivem resquícios do que era específico de cada potência no futebol, mas a gigantesca migração de jogadores e a familiaridade que cada canto do planeta tem com os grandes times produziram padronizações, cópias de estilo, decalques do modo de jogar.

A abstração da categoria "futebol europeu" veio acompanhada de outra invenção: que jogadores de lá são desprovidos da habilidade, do drible, do improviso. Nelson Rodrigues, na inquietude de sua genialidade e ansioso por arrancar o futebol brasileiro da auto depreciação produzida pelo resultado final da Copa de 50, contribuiu para a lenda de que jogadores europeus se valem apenas da força.

Porém, além dos húngaros citados, é longa a lista dos que desmontaram essa mitificação: Meazza, Schiavio, Piola, Ferrari, Sindelar, Schall, Horvath, Zischek, Valentino Mazzola, o multinacional Kubala, Stanley Mattheus, Wright, Finney, Kopa, Piantoni, Nejedly, Popluhár, Masopust, Rahn, Fritz Walter, Facchetti, Duncan Edwards, Bobby Charlton, Bobby Moore, Beckenbauer, Overath, Gerd Müller, George Best, Sandro Mazzola, Rivera, Breitner, Schuster, Netzer, Krol, Rensenbrink, Van Hanegem, Neeskens, Cruyff, Lato, Dzajic, Platini, Boniek, Keegan, Scirea, Antonioni, Gascoigne, Michael Laudrup, Blokhin, Baggio, Baresi, Maldini, Gullit, Van Basten, Hagi, Stoichkov— limitando-nos aos que jogaram antes da suposta transformação das bases do futebol nos países europeus.

Muitos outros poderiam ser mencionados. O craque Coluna e o formidável Eusébio não contam, pois foram formados nos campos de Moçambique; vale o mesmo critério para o artilheiro Fontaine, que fez seus primeiros gols pelo marroquino Casablanca. E a sequência foi mantida por Zidane, Pirlo, Gerrard, Xavi, Iniesta, Hazard, Ibrahimovic, Modric, Bale, Pogba, Cristiano Ronaldo, Mbappé.

O Brasil teve mais craques que qualquer outro país; também na Argentina e no Uruguai é grande a relação de jogadores extraordinários. Esta obviedade, no entanto, convive facilmente com a notável história do futebol de muitas nações do Velho Mundo. No Brasil, houve um período em que a excessiva dependência de laterais na armação das jogadas levou ao descuido na formação de meio-campistas. Mas já existem correções encaminhadas, que se alastram.

É fato que nesta década a seleção brasileira contou com pouquíssimos craques. Não deve ser tendência, mas apenas circunstância. Se não for assim, resta esperar que os escassos talentos destes dias não sejam o que Euclides da Cunha, em trecho de Os Sertões, chamou de "parênteses breves abertos na aridez geral".

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