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Zaidan: O país dos laterais

Renan Lodi em ação pela seleção brasileira durante amistoso contra a Coreia do Sul - Pedro Martins/MoWA Press
Renan Lodi em ação pela seleção brasileira durante amistoso contra a Coreia do Sul Imagem: Pedro Martins/MoWA Press
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

12/04/2020 04h00

Há 20 anos, Juan Pablo Sorín deixou o River Plate, foi para o Cruzeiro, desembarcou na Toca da Raposa e, com perspicácia, disse que era uma honra ser contratado para jogar no país onde os laterais são livres, isto é, no país dos laterais. A declaração não carregava esquecimento dos formidáveis zagueiros, dos excepcionais meio-campistas, dos fenomenais atacantes que construíram, teceram, fizeram a grandiosa história do futebol brasileiro. Simplesmente, Sorín enfatizava a impressionante sequência de grandes laterais. Sequência que atravessou décadas, Copas e Copas e tornou-se uma das muitas marcas peculiares da escola que por aqui havia. Sequência que parecia interminável.

Claro, outros países tiveram laterais excelentes, craques de primeira linha. O uniforme alemão vestiu Vogts, Brehme, Lahm (que era incomum na direita e na esquerda) e Paul Breitner, craque na lateral e no meio-campo. O russo Igor Netto, um dos principais do time soviético campeão europeu em 1960, ficou internacionalmente conhecido como meia habilidoso e artilheiro, mas, antes, jogou na lateral esquerda. Rudi Krol foi um dos fenômenos do Ajax tricampeão europeu e da seleção holandesa que mudou o jogo em 74; ele se destacava também entre os centrais e os líberos. Pela França, jogaram Amoros, Thuram, Abidal.

A Itália presenteou o futebol com Burgnich, Cabrini e com os extraordinários Giacinto Facchetti e Paolo Maldini. A respeito do Facchetti, basta mencionar que Beckenbauer, no início de sua carreira, queria jogar na lateral esquerda apenas para tentar emular o italiano (em pouco tempo, claro, ficou nítido que o lado do campo era insuficiente para o talento de Beckenbauer, e ele foi para o meio-campo para tornar-se o melhor jogador que a Alemanha já teve). Quanto ao Maldini, têm sido rotineiros, nos últimos anos, os elogios ao seu trabalho na parte central da defesa; sim, ele se deu muito bem na zaga, mas na lateral foi que se colocou entre os memoráveis.

O inglês Arnold e o escocês Robertson, titulares do Liverpool, são ótimos jogadores, fundamentais no time de Klopp. Carvajal é bom lateral, Arce foi excelente (inclusive no Grêmio e no Palmeiras), Forlán foi importante no São Paulo, na seleção uruguaia e no melhor Peñarol. O próprio Sorín está entre os melhores laterais que vestiram a camisa da Argentina, junto com Marzolini e, é claro, Javier Zanetti. Enfim, é fácil notar que em qualquer canto do mundo aparecem bons e até excepcionais especialistas na missão de marcar e atacar pelos lados.

Ainda assim, Sorín estava certo quando, em 2000, disse que estava chegando ao país dos laterais livres. Claro, não era referência apenas a Cafu e a Roberto Carlos, seus contemporâneos nos campos e que seriam campeões do mundo dois anos depois. Em sua frase, o argentino demonstrou conhecer a história do futebol, a quantidade inigualável de bons laterais, espalhados pelo tempo, em clubes brasileiros e em diversas aparições do escrete: De Sordi, Everaldo, Marco Antonio, Zé Maria, Vladimir, Toninho, Humberto Monteiro, Getúlio, Scotto, Altair, Rildo, Edevaldo, Odirlei, Josimar, Pedrinho, Paulo Roberto, Édson Boaro, Branco, Léo, Cicinho, Jorginho, Felipe, Serginho, Leonardo, Cafu, Rafinha, Filipe Luís, Daniel Alves, Marcelo e muitos outros. Sorín, na fala breve, reverenciava, principalmente, os melhores laterais que o mundo testemunhou: Djalma Santos, Carlos Alberto, Nelinho, Leandro, Roberto Carlos, Marinho Chagas, Junior e Nilton Santos.

Hoje, é razoável ter dúvidas se a sequência não será interrompida. Daniel Alves segue jogando bem, e parece improvável que, sendo meio-campista no São Paulo, se desacostume com as funções da lateral. Mas ele terá 39 anos no fim de 2022, quando será disputada a Copa no Catar. Talvez continue bem até lá, mas será, então, seu último Mundial. Marcelo, que há tempos deveria ter ido para o meio-campo, só ocasionalmente é titular no Real Madrid e parece fora dos planos de Tite.

Danilo e Militão, opções imediatas em caso de ausência do Daniel, obrigariam o treinador a mudar o esquema de jogo - nenhum deles pode realizar as funções ofensivas do titular. Na esquerda, não é difícil escalar alguém que marque melhor que Marcelo, mas será tarefa complicada repetir sua qualidade no ataque.

Tite fará bem se firmar Renan Lodi na lateral esquerda - é a melhor opção. Lodi tem talentos; se aperfeiçoá-los, tomará conta da posição e poderá garantir que, pelo menos na esquerda, a sequência não será interrompida. Iago, se tiver mais chances no Augsburg, pode entrar na disputa. Yan Couto tem potencial. Há também os titulares do Flamengo, Rafinha e Filipe Luís, bons jogadores, melhores que a maioria dos concorrentes. Ambos estarão com 37 anos na Copa de 22, o que não inviabiliza que sejam chamados, tampouco que joguem bem, mas pode intranquilizar o treinador da seleção brasileira na hora da convocação.

Nilton Santos ganhou seu segundo Mundial em 1962, quando tinha 37 anos. Nestes dias, é muito mais fácil garantir que um jogador jogue em bom nível até aos 40; logo, a idade não é obstáculo suficiente, intransponível. Resta saber se a próxima geração de selecionáveis será da estirpe dos que inspiraram um ótimo jogador argentino a ver o Brasil como o país dos laterais diferentes, distintos de todos os outros.

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