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Zaidan: Os 112 anos do Atlético. Os heróis, os craques e o rei

24.07.2013 - Réver ergue a taça de campeão inédito da Libertadores para o Atlético-MG - AFP PHOTO / VANDERLEI ALMEIDA
24.07.2013 - Réver ergue a taça de campeão inédito da Libertadores para o Atlético-MG Imagem: AFP PHOTO / VANDERLEI ALMEIDA

30/03/2020 04h00

Existem tempos em que as notícias verrumam a alma. Nem as páginas dedicadas ao esporte escapam da tempestade. Encontro, porém, um assunto diverso, solitário entre outras manchetes: o Clube Atlético Mineiro completou 112 anos. Campeão do Gelo, do Brasil, da América.

Lembrei-me de muitos que vi com a camisa alvinegra: Mazurkiewicz, Renato, João Leite, Mussula,Taffarel, Humberto Monteiro, Getúlio, Cincunegui, Grapete, Vantuir, Oldair, Cléber, Luizinho, Guarnelli, Jorge Valença, Procópio. Vi Normandes, zagueiro de muita técnica que o Atlético buscou no Independente de Uberaba. E ele, em seu primeiro clássico, mandou um chapéu logo no Tostão.

Certo dia, um craque deixou a Toca da Raposa e desembarcou na Vila Olímpica, antecessora da Cidade do Galo. Nelinho, aliás, conseguiu a proeza de ser o melhor da história na lateral direita do Cruzeiro e do Atlético. É uma estranheza, um despropósito de esquecimento, a ausência de Nelinho em qualquer lista com os melhores chutadores que já houve no futebol; e pouco importando se a bola estava parada ou rolando, se a distância era curta ou longa, no centro ou na lateral, eram infalíveis o tiro forte e a curva desconcertante.

No time campeão brasileiro em 1971, dirigido por Telê Santana, o meio-campo formado por Vanderlei Paiva e Humberto Ramos era muito bom; e havia o Spencer, o China e o Beto. A zaga tinha Grapete, Normandes e Vantuir, era técnica e segura. Renato, que veio do Uberlândia, defendeu demais. O uruguaio Cincunegui sabia marcar nas duas laterais. Humberto Monteiro apoiava bem, lateral de categoria, e Oldair já fazia naturalmente a armação da esquerda para o meio, além de ser bom batedor de faltas.

Romeu Cambalhota fez ótimo campeonato, entornando marcadores ali pela ponta esquerda, inclusive na partida contra o São Paulo, abrindo o triangular final. Se não estava o Romeu, jogava o Tião, que foi titular na partida decisiva contra o Botafogo.

Ronaldo Drumond era o ponta direita, posição que ganhou de vez com a ida de Vaguinho para o Corinthians (Ronaldo, primo de Tostão, foi, depois, para o Palmeiras, fez parte da Segunda Academia e marcou o gol do título paulista em 74, na decisão contra Rivellino e companhia.). Telê obteve o máximo de cada jogador e armou para que, ao fim, a bola chegasse ao Lola, o craque, e ao Dario, o artilheiro.

Outro dia, o Normandes, que é seletivo nos elogios, não foi econômico ao falar comigo a respeito do Lola: "Era um craque! Jogava demais". Sim, Lola merecia espaço largo, adjetivos mais expressivos, importância maior nas crônicas que enveredam pela história do futebol brasileiro.

Vi também Lacy, Amaury e Buião relevantes naquele período entre a conclusão do Mineirão e o título nacional. Os dois primeiros foram titulares na vitória do Atlético— representando a Federação Mineira— sobre a Seleção Brasileira por 2 a 1, em 1969. Amaury fez o primeiro gol, Pelé empatou, e Dario marcou o segundo da equipe do Yustrich.

Páginas foram escritas também por Elzo, Sérgio Araújo, Nunes, Edivaldo.

Na história do Galo, comparável ao título brasileiro só mesmo a conquista da Libertadores em 2013, ancorada principalmente nas defesas de Victor, nos gols de Jô e no talento extraordinário de Ronaldinho Gaúcho.

Houve tempos, porém, sem taça nacional nem troféu continental, mas repleto de qualidade, virtuosismo, técnica, espetáculo.

Tempos de João Leite, Guarnelli, Luizinho, Valença, Paulo Isidoro, Ziza, Ângelo, Danival, Pedrinho, Palhinha, Chicão, Marcelo, Éder.

Tempos de Toninho Cerezo, craque em todos os campos onde jogou, essencial no São Paulo de Telê, fundamental no scudetto da Roma e no da Sampdoria—- e ainda foi com ambas à decisão do título europeu. Quando, em meados dos 70, críticos do então jovem atleticano o chamavam de "jogador peladeiro", Cláudio Coutinho avisou: "Cerezo é modelo do que é jogar no meio-campo. É o meio-campista do futuro."

Com a camisa do Atlético, no entanto, nem mesmo Ronaldinho Gaúcho e Cerezo jogaram tanto quanto o Reinaldo. Os 28 gols no campeonato brasileiro de 1977, o caminhão de títulos mineiros, sempre citados, são apenas fração do que Reinaldo fez. Alguns reivindicam pretensa objetividade, argumentam que ele não ganhou nem sequer um Brasileiro ou Libertadores. Em esportes coletivos, títulos sublinham carreiras, mas não as definem.

Reinaldo foi jogador de primeira categoria, centroavante da linhagem de Leônidas, Coutinho, Careca, Romário e Ronaldo. Tinha futebol para ser titular nas melhores seleções que o Brasil já teve, em qualquer época. Mas Reinaldo só disputou uma Copa: em 78, na Argentina. Sua ausência em 82 foi um erro, ampliado pela contusão do Careca.

De costas para as montanhas, alheia ao acontecimentos nos vales, olhares oscilando entre São Paulo e Rio, parte importante da crônica nacional conseguiu enxergar alguns dos talentos de Reinaldo, de Zé Carlos, de Dirceu Lopes, mas não viu a medida da grandeza do futebol que eles portavam. Os 112 anos do Atlético foram tecidos por milhões de torcedores, centenas de heróis, dezenas de craques e um rei.

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