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A herança de Amadeo Carrizo, o mais importante dos goleiros argentinos

Amadeo Carrizo acena para a torcida do River em 2016 - Alejandro Pagni/AFP
Amadeo Carrizo acena para a torcida do River em 2016 Imagem: Alejandro Pagni/AFP
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

25/03/2020 04h00

Quando li, na sexta passada, o anúncio da morte de Amadeo Carrizo, lembrei-me dos tempos em que goleiros argentinos eram reputados excelentes. Principalmente, notava-se diferenças, inovações técnicas, um modo distinto de ser arqueiro. Admitia-se o aparecimento de uma escola argentina, fundamentada em conceitos inauditos em campos sul-americanos. E foi Carrizo quem inaugurou aquela academia e estabeleceu sua ideia predominante.

Já ocorria fenômeno semelhante em alguns países europeus, mas deste lado do Atlântico, desde o final da Segunda Guerra e até aos anos 60, o goleiro que saía para além da área, postando-se adiantado, indo de encontro ao atacante, iniciando as jogadas, era visto quase exclusivamente em partidas do River Plate ou da seleção argentina. Mas só quando Carrizo jogava.

Naquele período, houve brasileiros extraordinários guardando metas: Barbosa, Castilho, Veludo, Cabeção, Valdir, Manga e, claro, o excepcional Gylmar. Duas Copas do Mundo, duas Libertadores; convenhamos, é desnecessário citar cada título de Gylmar - ganhou todos que eram possíveis. E é preciso citar Félix, subestimado e injustiçado em crônicas nacionais, e que defendeu muito, inclusive contra a Inglaterra, no jogo mais difícil que a seleção brasileira disputou na Copa de 70.

Também o Uruguai teve seus notáveis: Máspoli, Maidana, Mazurkiewicz. Não havia, pois, superioridade dos arqueiros argentinos em relação aos brasileiros e uruguaios, mas, isto sim, uma diferença de estilo, de conceito da posição, desenvolvida e espalhada por Carrizo, guardião do melhor time da história do River, citado facilmente entre os principais esquadrões da história do futebol. Lá estiveram Loustau e Labruna, os formidáveis Moreno, Nestor Rossi e Pedernera, o fenomenal Di Stéfano.

Por 23 anos, de 1945 a 1968, o River foi defendido por Carrizo. Foram mais de 500 jogos, muitos destes memoráveis, heroicos; invariavelmente, marcados pela revolução que Amadeo desencadeou, aperfeiçoou, consolidou. Na seleção, ocorreu um desastre marcante: a derrota para a Tchecoslováquia, por 6 a 1, na Copa de 58, em gramado sueco. O time foi recebido com vaias em Buenos Aires, mas a ira barulhenta da multidão não arrancou de Carrizo a camisa 1 da Argentina.

Sua despedida da equipe nacional só aconteceu seis anos depois, com o título na Copa das Nações, disputada no Brasil. O público que foi ao Maracanã, local de todos os jogos, não viu Carrizo sofrer gol. A Argentina venceu Portugal (2 a 0), Brasil (3 a 0) e Inglaterra (1 a 0).

Antonio Roma, Hugo Gatti, Agustín Mario Cejas, Ubaldo Fillol eram diferentes entre si, na personalidade e na técnica, mas, em medidas distintas, foram influenciados, forjados, moldados na escola solitariamente erguida por Carrizo. Depois de Fillol, porém, a Argentina não teve outro goleiro extraordinário. Apareceram três ou quatro de bom nível, mas nenhum que tivesse lugar na galeria dos excepcionais. A mesma coisa aconteceu no Uruguai, depois da aposentadoria de Rodolfo Rodríguez.

No Brasil, foi o oposto, em grande parte por conta do trabalho de Valdir Joaquim de Moraes. De Leão a Alisson, passando por Taffarel, Marcos, Rogério, Dida e mais alguns, o país viu surgir um monte de ótimos goleiros, os melhores da América do Sul. Em qualquer lista feita hoje, apontando os atuais dez melhores arqueiros do mundo, Alisson será necessariamente citado; na maioria das listas, os outros nove nomes serão de europeus.

O futebol argentino não rompeu com a escola de Carrizo, nem a renegou, mas se acomodou em sua própria história, em seu elenco de goleiros memoráveis. Desenvolvimento insuficiente, formação inadequada, eis as causas aparentes da sucessão de goleiros medianos na seleção bicampeã do mundo. Armani é exceção, mas já completou 33 anos. Estava claro que ele deveria ter sido titular desde o início da Copa na Rússia, mas Sampaoli contrariou o óbvio.

É questão de tempo: o futebol argentino voltará a ter quantidade importante de bons porteiros. Talvez alguns retomem o fio da história iniciada pelo melhor guardador de metas que o River já teve, aperfeiçoem sua revolução. Carrizo, à sua maneira, mudou o futebol argentino, assim como Yashin transformou, em todo o mundo, a ideia do que é ser goleiro.

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