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Marcelo Damato: Futebol precisa superar os modismos e as apostas

Jorge Jesus, após o título do Flamengo na Recopa - Alexandre Vidal/Flamengo
Jorge Jesus, após o título do Flamengo na Recopa Imagem: Alexandre Vidal/Flamengo
Marcelo Damato

Marcelo Damato

O jornalista foi o primeiro repórter especializado em extracampo no Brasil e hoje tem uma consultoria de comunicação

02/03/2020 14h01

Dizia um ditado antigo para não confundir Jesus com Genésio. O Santos confundiu com Jesualdo.

E o Atlético-MG, com Dudamel, e desde domingo com Sampaoli. E o Internacional, com Coudet. Outros só não confundiram porque não conseguiram.

Em janeiro, os clubes brasileiros tinham a fórmula do sucesso: contratar um técnico estrangeiro. Bastava ver o trabalho de Jorge Jesus no Flamengo —e em menor medida de Sampaoli no Santos. O trabalho, não: os resultados.

Em janeiro de 2019, a situação havia sido a mesma. Seis meses antes, Felipão veio na parada de junho, viu e venceu. Desde o primeiro jogo, o Palmeiras foi soberano. E, por isso, os cartolas foram atrás de técnicos experientes. O Flamengo, por exemplo, contratou Abel —Jesus só foi o plano B.

E, em janeiro de 2018? A onda era apostar em renovação de treinadores. Afinal, ainda que com direito a emoção na reta final, o Corinthians de Fabio Carille vencera um Brasileiro com um elenco que não o colocava nem entre os favoritos. "Agora, a nova geração está pronta para assumir os principais times", se disse. E também deu errado.

E, assim, há três anos, os dirigentes tentaram surfar as ondas da "renovação", da "experiência" e dos "estrangeiros" e, apesar dos caixotes que levam dessas ondas, continuam tentando ouvir a "voz das ruas", que também é a dos comentaristas.

E esse processo não vem de agora. Por décadas, se repetiu que os técnicos da Série A eram "sempre os mesmos" e que era uma moleza ser técnico no Brasil. Como todo mito, era uma mentira. Bastava olhar os técnicos da Série A de um ano e de dez temporadas antes para ver uma mudança enorme.

Os modelos que se criam em janeiro desaparecem antes do meio do ano e, quando chega dezembro, surgem teorias para explicar retroativamente o que aconteceu. Ano após ano.

Quem confronta os resultados com as ações de dirigentes sobre treinadores e jogadores não vê lógica. Parece que o futebol é governado pelo acaso. E principalmente que os dirigentes agem como se estivessem eternamente numa mesa de roleta, fazendo apostas.

O Palmeiras é um caso exemplar. De Luxemburgo de 2009 a Luxemburgo de 2020, o clube trocou de técnico 17 vezes, sem contar sete que ficaram interinos. Os técnicos tiveram todos os tipos de perfil: não só jovens, veteranos ou estrangeiros, como ofensivos, defensivos, com formação científica ou empírica, agressivos ou afáveis. E de fato não fez nenhuma diferença. Dependendo da passagem, Felipão foi rebaixado, campeão brasileiro ou da Copa do Brasil. Cuca foi campeão num ano, saiu em dezembro, voltou alguns meses depois e fracassou.

No que seria um paradoxo surreal em Las Vegas, neste momento, a roleta está pagando o preto e o vermelho.

Numa época em que o conhecimento é o ativo mais importante para o crescimento e o sucesso de qualquer atividade, o futebol brasileiro parece não ser capaz de gerar seu próprio conhecimento. O que surge é sempre um modismo, que em seguida é substituído por outro. No final do ano, provavelmente surgirá uma nova fórmula de sucesso. Falsa, como sempre.Sem aprendizado, o futebol vai perdendo protagonismo em todas as áreas. Não é diferente do que acontece com o Brasil em geral, mas esta coluna é sobre futebol, e um pouco sobre esporte.

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