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Marcelo Damato: A punição ao City não é hipócrita, mas coerente

Gianni Infantino já havia sido pressionado por jornalistas ingleses quando presidente da Uefa sobre a falta de punição ao City por desrespeito ao "fair play" financeiro - Rhona Wise/AFP
Gianni Infantino já havia sido pressionado por jornalistas ingleses quando presidente da Uefa sobre a falta de punição ao City por desrespeito ao "fair play" financeiro Imagem: Rhona Wise/AFP
Marcelo Damato

Marcelo Damato

O jornalista foi o primeiro repórter especializado em extracampo no Brasil e hoje tem uma consultoria de comunicação

15/02/2020 10h12

O UOL publicou ontem (14) um comentário de Júlio Gomes sobre a punição ao Manchester City — ainda pendente de confirmação dos CAS. Conheço o Júlio há mais de 20 anos, admiro seu trabalho e sou um leitor quase regular de suas colunas. Por isso mesmo, me surpreendi ao ver uma argumentação tão desastrada.

Um dos argumentos que sustentam a "hipocrisia" é o fato de o City ser um intruso entre os gigantes. Mas quais são eles?

Esse conceito faz parecer que os tais gigantes são os mesmos pelo menos há muitas décadas. E isso não é verdade. Nos anos 1980, o Milan era o maior clube do mundo. Alguns anos antes, era o Liverpool. Em contrapartida, até 1992, o Barcelona não havia sido campeão europeu. O Real Madrid ficou no ostracismo internacional por 32 anos, de 1964 a 1998. Depois do título de 1968, o Manchester United chegou a cair para a segunda divisão inglesa e só voltou a ganhar uma Champions em 1999. E neste século ganhou apenas uma — contra duas do ex-gigante Milan. O Bayern de Munique só se tornou um superclube nesta década. Até os anos 1990, o Campeonato Espanhol era no máximo de segunda linha, e o Italiano era o melhor.

Olhando com mais atenção, no nível europeu, com poucas exceções, a elite se divide entre novos ricos e novos novos ricos. A cada ciclo econômico, provocado pelo surgimento de negócios criados a partir de inovações tecnológicas, o baralho se mistura um pouco.
Não existe tanta estabilidade nem no futebol do Brasil. Em 2009, quem apostaria que dez anos depois o Flamengo seria campeão com uma gestão modelar, enquanto o São Paulo seria um clube deficitário e na maior seca de títulos de sua história? Em 1996, quem diria que a Lusa seria passada de longe pelo Atlético-PR?

A punição do City até que demorou. Em 2013, numa feira de negócios do futebol na Inglaterra, eu presenciei um punhado de jornalistas ingleses pressionando o então presidente da Uefa, Gianni Infantino, sobre por que a entidade iria punir dois clubes turcos por desrespeitar o "fair play" financeiro e não esse clube inglês, que segundo eles havia feito o mesmo.

Desde então, o cerco apertou. Clubes mais poderosos passaram a ser punidos. No ano passado, o Milan foi suspenso por um ano, por quebrar o "fair play" por três anos — com muito menor repercussão no Brasil. Agora é a vez do City, sob a acusação de fraudar um contrato de publicidade para esconder uma injeção de dinheiro do dono do clube.

Um dos dramas do futebol é que ele tem dois sistemas de valores: o esportivo e o econômico. O primeiro preza pelo "fair play" esportivo, pela lealdade e pela vitória dos mais capazes em campo. O segundo visa o crescimento econômico e o lucro — sempre visando a vitória. Ora esses valores se ajudam, ora colidem. Em alguns países, como EUA e Inglaterra, essa situação ocorre desde o final do século 19, quando nasceram quase juntos o profissionalismo — no Brasil só 40 anos depois — e os clubes-empresa — no Brasil..., bem...

Aumentar a transparência é bom. Mas até onde se deve ir? O que aconteceria se fosse adotada a regra da NBA de revelar o salário de cada atleta? E, se as finanças dos clubes passassem a ser exibidas em tempo real — o suprassumo da transparência —, que impacto isso teria na negociação deles com seus parceiros comerciais?

Por outro lado, deixar tudo livre poderia causar um desastre. Tornaria muito mais difícil o controle da lavagem de dinheiro — atraindo grupos criminosos. E o aumento acelerado da entrada do dinheiro geraria uma espiral inflacionária que aceleraria ainda mais a quebradeira dos clubes menores.

A comparação com as ligas americanas é outro equívoco. Não existe o "nem lá". Aquelas são as ligas esportivas mais regulamentadas do mundo. Num aparente paradoxo, um comando centralizado força os clubes em direção ao equilíbrio esportivo para atender a uma lógica econômica.

E isso só pode ser feito porque algumas regras do sistema de valores esportivos foram barradas. Uma é o acesso. Uma equipe pode ganhar 20 vezes seguidas a Triple A, a segunda divisão do beisebol, que não vai subir pra MLB. Outra é a liberdade de cada equipe competir pelos atletas.

O futebol foi por outro caminho. Por isso, precisou adotar o "fair play" financeiro, que não foi criado para manter o status quo dos grandes clubes. Foi criado para proteger a saúde financeira do sistema, que impacta mais os clubes menores, por meio do prêmio à competência administrativa, do controle da lavagem de dinheiro e da redução da inflação dos custos.

Enfim, o "fair play" financeiro é meio como o controle antidoping: tem várias falhas, mas seria muito pior se não houvesse nada.
A solução não é chutar o balde, mas trabalhar continuamente para melhorá-lo. E saber que, como em qualquer atividade humana, os erros, as trapaças e a tal da hipocrisia devem ser combatidos, mas sempre existirão.

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