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Zaidan: Rensenbrink e a trave, na Copa em que faltou Maradona

Ubaldo Fillol, goleiro da Argentina, defende chute de Rob Rensenbrink, da Holanda, enquanto zagueiro Luis Galvan acompanha a jogada, na final da Copa do Mundo 1978, em Buenos Aires - picture alliance via Getty Images
Ubaldo Fillol, goleiro da Argentina, defende chute de Rob Rensenbrink, da Holanda, enquanto zagueiro Luis Galvan acompanha a jogada, na final da Copa do Mundo 1978, em Buenos Aires Imagem: picture alliance via Getty Images
Claudio Zaidan

Claudio Zaidan é radialista há 44 anos. Em São Paulo, trabalhou nas rádios Jovem Pan e Trianon. Entrou na Rádio Bandeirantes em 1994, onde ficou por cinco anos. Voltou para Bandeirantes em 2001, onde atualmente é comentarista.

11/02/2020 12h48

Há pouco mais de duas semanas, quando anunciada a morte de Rensenbrink, multiplicou-se a imagem da bola que ele mandou na trave da Argentina, no final da partida que decidiu a Copa de 78. O jogo estava empatado, um a um. Assim, a Holanda esteve a poucos centímetros do título mundial.

Não foi por acaso que Fillol saiu desesperadamente para tentar evitar o chute—- não conseguiu, mas certamente atrapalhou a pontaria do excelente ponta. Naqueles poucos segundos entre o momento em que a bola chega a Rensenbrink e a compreensão geral de que não foi gol, Fillol, em agonia, deve ter sentido o pesar, a frustração que se derramaria sobre os argentinos; provavelmente, na fração de tempo, notou o silêncio na arquibancada, intuiu o silêncio no país sufocado, havia dois anos, pela ditadura.

O futebol tentava fazer sentido na noite imensa. A bola na trave mandou a decisão para a prorrogação, e a taça ficou em Buenos Aires. Se aquela bola tivesse ido à rede, seria sempre notado que a Holanda ganhara o mundo mesmo sofrendo a ausência de Johan Cruyff, o melhor jogador que já vestiu a camisa laranja e que se negou a disputar aquela Copa.

Ocorreu, de fato, coisa semelhante em 1992: sem o extraordinário Michael Laudrup, que havia rompido com a federação nacional, a Dinamarca foi campeã europeia. Lançamento longo feito por Krol, Rensenbrink em velocidade que desnorteia os zagueiros argentinos, o chute de primeira, Fillol ficando pelo caminho, a pelota rebatida pela trave.

Quatro anos antes, com Cruyff e Rinus Michels, a Holanda impressionou o mundo, radicalizou a revolução húngara de Puskas e Sebes, mas, tal e qual a Hungria, perdeu a taça para a Alemanha (vale notar que o time alemão em 74 está entre os melhores da história do futebol). Na Argentina, não havia Cruyff e nem Michels, o brilho técnico foi bem menor, a tática já não surpreendia, mas a Holanda voltou à final. A decisão manteve-se equilibrada por hora e meia de jogo, mas a Argentina foi claramente superior nos 30 minutos acrescentados. Rensenbrink era craque.

Claro que seu futebol de primeira categoria merecia ser lembrado por imagens mais esclarecedoras: os gols que fez, os dribles e os passes. Mas o que acontece em final de Copa do Mundo tem sempre maior impacto nos relatos históricos. A bola, ao chocar-se com a trave, privou os Países Baixos de seu primeiro título mundial e livrou Menotti de passar os anos seguintes explicando a ausência de Maradona. O treinador, como qualquer um que tivesse visto os jogos do Argentinos Juniors naquele tempo, sabia que Diego era fenomenal, mas parece ter se preocupado com sua pouca idade para enfrentar uma Copa cuja conquista era quase exigência do regime dirigido por Videla.

O título em 78 amenizou a cobrança pela decisão de Menotti de não chamar aquele jogador excepcional, mas não impediu que a discussão percorresse décadas. Se o tiro de Rensenbrink tivesse ignorado a trave e acertado a rede interna da meta defendida por Fillol, não haveria, por tempos e tempos, sossego para Menotti, ótimo técnico de uma seleção muito boa.

Fillol, Passarella, Ardiles, Kempes, Gallego, Bertoni jogavam muita bola, mas as coisas teriam sido bem mais fáceis para Menotti se o craque do Argentinos Juniors estive em campo. Maradona tinha só 17 anos quando Passarella levantou o troféu. Sua ausência em 78 lhe deu a primeira decepção no futebol, mas ele resolveu isso disputando quatro Copas, levando seu time a duas finais e decidindo como poucos um mundial. Em 1986, no México, Maradona se fez herói de guerra no imaginário argentino, e não somente pelo título que ele tornou possível, mas principalmente por sua obra no jogo contra a Inglaterra, apenas quatro anos depois do conflito pelas Malvinas. Ele foi impedido de ser campeão mundial em campos argentinos, mas entrou de modo espetacular na história das Copas.

Muitos jogadores talentosos nem sequer puderam tentar, nunca foram convocados para um Mundial, embora merecessem, incluindo craques brasileiros — limitando-nos a poucos exemplos, basta citarmos Heleno de Freitas, Evaristo e Dirceu Lopes. A trajetória da bola sempre se sujeita às leis da física. Tempos depois do jogo no Monumental de Nuñez, Rensenbrink disse que um ligeiro desvio no caminho tomado pela bola, coisa de cinco centímetros, e a Holanda teria vencido a Copa. E mais: o gol, para além do título inédito, lhe daria a artilharia da competição e, provavelmente, o troféu de melhor jogador daquele Mundial.

Sempre há alguém para lembrar que o "se" não joga. Mas Rensenbrink merece que consideremos como foi e como poderia ter sido aquela história.

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