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Fogaça: O Internacional e o eterno debate entre posição e função no futebol

Paolo Guerrero, do Internacional, tenta passar por dois marcadores da Universidad de Chile - Ricardo Marques/Internacional
Paolo Guerrero, do Internacional, tenta passar por dois marcadores da Universidad de Chile Imagem: Ricardo Marques/Internacional
Gustavo Fogaça

Gustavo Fogaça

Conhecido como Guffo, é comentarista da DAZN Brasil, analista de desempenho e cineasta

06/02/2020 13h18

Foi uma estreia com luta e entrega física, e um resultado que não agradou ao torcedor: o batismo na Libertadores do Inter de Eduardo Coudet veio com um empate 0x0 com a Universidad de Chile em Santiago. O desempenho e, principalmente, o resultado geraram um debate infinito nos meios, programas e redes sociais: com quatro volantes na escalação, o time foi retranqueiro?

Me preocupa que em pleno 2020, com acesso a tantos jogos internacionais de grandes treinadores, sites especializados, arrobas dedicadas à análise tática, siga-se confundindo posição, posicionamento e função de um jogador dentro de uma partida de futebol.

Ainda mais quando se trata de formadores de opinião e jornalistas que deveriam ter a obrigação de conhecer mais sobre a evolução do esporte e como esse debate é inócuo e não soma nada à análise e narrativa do jogo. Ao contrário: só confunde ainda mais o torcedor!

A grande mudança de DNA que Coudet está fazendo no Internacional é transformar um elenco acostumado a ser secundário em PROTAGONISTA durante as partidas. Agora, o Inter quer dominar as ações do jogo através da posse, e quando perder a bola, recuperá-la o antes possível para voltar a ter protagonismo.

E isso leva tempo e trabalho para ser executado de forma natural e eficiente.

Quando o treinador escala Musto, Lindoso, Patrick e Edenílson juntos, não significa que ele será "covarde" e "retranqueiro" por jogar com "quatro volantes". Qual será o POSICIONAMENTO desses volantes? Quais FUNÇÕES exercerão durante a partida?

Os números nos ajudam a entender melhor: em 2018, na média, o Inter entrava 45 vezes no último terço do campo adversário, entrando 15 vezes na área. Em 2019, não mudou muito: 43 vezes no último terço e as mesmas 15 vezes na área.

Pois em cinco jogos em 2020, Inter tem média de 47 entradas no último terço e DEZOITO entradas na área.

Além disso, se pegarmos a métrica do valor esperado de gol (expected goal/xG), em 2018, a média foi de 1,46xG por jogo. Em 2019, caiu para 1,36xG e, em 2020, deu um salto absurdo para 1,81xG por partida. Claro, temos que levar em conta o nível dos adversários do Gauchão, mas é um crescimento ofensivo notório e notável.

Outro valor que mostra uma evolução deste time é sobre a INTENSIDADE DEFENSIVA. Você já leu aqui várias vezes sobre o índice PPDA, que mede a intensidade na defesa de um time. Pois bem. A média colorada em 2018 foi de 1,8ppda/jogo e em 2019 foi 2,1ppda/jogo.

Como quanto MAIOR o valor do índice, MENOS intenso foi o time, percebemos como o Inter do ano passado foi menos intenso defensivamente que o de 2018, na média.

Eduardo Coudet se caracteriza por jogar com muita intensidade sem a bola. A obsessão é por recuperar a esfera o mais rápido possível e sempre ser protagonista. Foi assim no Rosário Central e no Racing, usando jogadores que conseguiam se impor fisicamente e manter a "pegada".

Dentro dessa ideia, atletas como Patrick e Edenílson tem o perfil exato para o modelo de jogo do treinador argentino. E o PPDA mostra isso: nas 5 partidas de 2020, o índice foi a incríveis 1,38 ppda/jogo. Um valor que supera até times europeus que jogam com muita intensidade sem a bola como o Liverpool ou o RB Leipzig.

Sendo assim, o Internacional de Coudet promete ser protagonista, ter mais a bola, criar melhores CHANCES DE GOL e ser mais intenso defensivamente do que foi nos últimos anos. Essa ideia levará seu tempo e vai demandar paciência da torcida e da imprensa.

Vai dar certo? Tem tudo para que encaixe, mas o nome do esporte é futebol, não futurologia. E você pode até discutir se os atletas escalados têm características e qualidades para exercer essa ou aquela FUNÇÃO durante o jogo. Mas, por favor, pare de determinar o jeito que um time vai jogar somente pela quantidade de jogadores de certa POSIÇÃO. O século 21 já começou há muito tempo!

As estatísticas usadas são da InStat, plataforma de dados de futebol.

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